Domínio Público


As contradições do PAC by Gerson Freitas Jr.
30 janeiro, 2007, 4:00 pm
Filed under: economia, Gerson Freitas Jr., jornalismo

A semana passada foi pródiga para quem queria entender um pouco sobre a esquizofrenia econômica (ou do pensamento econômico) no Brasil. A principal notícia veio na segunda-feira. Para acabar com as expectativas alimentadas havia quase dois meses, o governo Lula finalmente lançou seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que promete injetar um pouco de adrenalina nas cansadas veias do PIB nacional. 

Não faltou gente para dizer que o projeto é tímido – e é mesmo – por uma série de boas razões. A melhor explicação foi a de Melchíades Filho, da Folha de S. Paulo. Com o PAC, diz, “o governo promete fazer o que já é feito, investir o que não tem e renunciar àquilo que não arrecada”. Ou seja, o PAC não fede, nem cheira, não ajuda, nem atrapalha.

Para os menos pessimistas, há pelo menos um avanço retórico em voltar a falar de crescimento econômico no Brasil, como se já não ouvíssemos sobre “espetáculos do crescimento” há algum tempo. 

O problema do PAC é que ele nasceu morto. Mentira! Nasceu na segunda, viveu quase dois dias, e foi morto na noite de quarta-feira. Depois de ter seu presidente enquadrado no lançamento do programa de crescimento, o Banco Central, a despeito de toda a expectativa positiva, resolveu reduzir o tamanho do facão e cortar em apenas 0,25 ponto percentual a maior taxa básica de juros do mundo. Na verdade, pouco importa tamanho da queda, mas o efeito psicológico que ela proporciona. Um recado do tipo: “Aqui mandamos nós, caso vocês ainda não saibam”.

O PAC é um arremedo de política desenvolvimentista – aquela em que o Estado persegue o crescimento e, para isso, participa da economia por meio de políticas setoriais e investimentos diretos em infra-estrutura – lançado dentro de uma matriz econômico-ideológica liberal e monetarista, na qual o Estado deve ficar longe da atividade econômica e se limitar – por meio de um banco central independente, se possível – a regular a oferta de moeda no mercado para que haja estabilidade. 

São dois modelos, duas filosofias, duas concepções de Estado que não cabem dentro da mesma política econômica. Caso contrário, você tem uma situação a que muito em breve vamos assistir.

De um lado, o governo prometendo uma política expansionista, com aumento dos investimentos e dos gastos (não seriam também investimentos?) sociais. De outro, a autoridade monetária aumenta a taxa de juros, tirando dinheiro do mercado, reduzindo investimentos privados e públicos, aumentando o endividamento público e, consequentemente, comprometendo ainda mais o já deteriorado quadro fiscal. E é aí que a conta brasileira não fecha.

Como que deitado em um divã, assistido pelos doutores Keynes e Friedman, o País se vê dividido entre dois pensamentos, com o id desenvolvimentista e um superego monetarista. É o que impediu o país de abraçar integralmente as reformas liberais dos anos 90, vendidas ao país como passaporte para a era da modernidade, e de largar de vez a velha política expansionista, rotulada de atrasada. 

Enquanto não for capaz de decidir seu caminho de forma soberana e adotar políticas convergentes com essa opção, o Brasil vai continuar assistindo a taxas de crescimento medíocres, tão medíocres quanto aos programas apresentados para acelerá-las.

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