Domínio Público


Pára cara. Pára by Eduardo Simões
31 janeiro, 2007, 3:25 pm
Filed under: aposentadoria, Eduardo Simões, esportes, saber a hora de parar, tênis

Acordou com o barulho de uma construção do outro lado da rua. Ficou puto, aquele bate-estaca desgraçado lhe interrompera um sonho bom. Na verdade, uma lembrança boa em forma de sonho.

Sonhava que, mais uma vez, era o herói das massas. Uma batida na bola fazia o tempo parar, o vento parar de soprar. Tudo ficava em suspenso até a conclusão do lance e a caída da bola na terra batida, como o golpe fatal da espada no adversário. Tuchê!

O adversário se esticava, mas o golpe era inalcançável. O silêncio estava interrompido pelos aplausos e pela vibração. Bons tempos aqueles.

Mas, quando a bola subira para o alto e, em seguida, iniciava sua descida rumo ao impulso que poderia eternizá-la, veio aquele maldito bate-estaca despertar-lhe e interromper o sonho bom em forma de lembrança. O suspiro que, embora parecesse só um sopro, tinha um significado claro: “Ah, os meus vinte anos!”

Ah, aquele 1997! Que 1997! Ano que mudou a história de um brasileiro em particular e a rotina de muitos deles por alguns anos que se seguiriam.

Mudou porque ninguém esperava. Imagina que absurdo se alguém te falasse hoje que um número 66 do mundo ia chegar num dos quatro principais torneios de tênis do mundo, vencer os três últimos campeões daquela brincadeira –um bicampeão na final e dois “top ten” pelo caminho—e, recém-saído da adolescência, com 20 anos, se tornaria estrela do esporte.

Foi o que aconteceu. O austríaco metido a besta Thomas Muster dançou, o russo não mais simpático Kafelnikov iniciou sua freguesia e o rei do saibro, o espanhol Sergio Bruguera, tomou um três a zero na testa daquele Gustavo o quê? Kuerten? Mas o cara não é brasileiro?

Lógico que era! Que outro cara, num esporte de trajes tão sóbrios, se meteria a usar uma roupa que mais parecia ter saído de uma alegoria carnavalesca? Só um brasileiro mesmo, um moleque, de 20 anos, que ganhava seu primeiro título no circuito da ATP, logo um dos quatro principais, logo o principal do saibro, logo um Grand Slam.

Tal como o cara que é despertado pelo barulho infernal do bate-estaca, os brasileiros acordaram naquele domingo de meados de 1997 assustados, positivamente assustados. Quer dizer então que temos um campeão no tênis. Um ídolo nesse esporte tão elitista no país dos campos de barro e bolas de meia. Semelhança mesmo só o piso de terra batida.

Mas nada mais cruel que o tempo. Nada mais sacana e filha-da-mãe que esse maldito tempo. Dez anos se foram. Pô, mas o que são dez anos? Nada, pô! Nada, se você pensar que as pessoas vivem até bem depois dos 60 anos com os pés nas costas.

Mas entre uma vitória e outra, entre mais dois títulos em Roland Garros e entre o auge máximo em 2000 –imagina alguém derrotar Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio e ser aclamado o melhor do mundo naquele ano—, o quadril começou a encher o saco.

Não há de ser nada, devem ter dito. Mas era. Pergunte ao sueco Magnus Normann, rivalérrimo de Guga no saibro francês numa final épica em um tie-break eletrizante no último set. Ele parou a carreira antes dos 30 com lesão parecida.

Mas a esperança é a última que morre. Vamos entrar na faca, campeão!. Uma, duas e nada. Até o fisioterapeuta/druída das estrelas foi chamado para ver se resolvia o problema e nada.

Trocou de técnico, ficou sem técnico, voltou a ser treinado pelo mesmo cara que o ajudou nos dias de glória e… nada.

Enquanto isso, lá estava aquele maldito bate-estaca, depois de mais uma derrota para um cara inexpressivo, como se fosse uma idéia recorrente na cabeça lembrando que os tempos de glória já se foram e não voltarão mais: Será que o melhor não é parar e devolver o tênis brasileiro ao mar de ruindade em que ele vive desde Maria Éster Bueno e em que vivia antes dela?

O que deve ser mais difícil para um ex-número um do mundo. Parar ou olhar o ranking mundial e se ver na 1082ª posição?

Enganam-se aqueles que dizem que o nome Gustavo Kuerten está na história do esporte brasileiro. Ele está na história do esporte mundial, tanto assim que, mesmo após a derrota na estréia no torneio de Viña del Mar, estava na capa do site da ATP.

Lembremo-nos dele como o cara que pregou no deserto e, num país onde o tênis é praticamente restrito aos clubes da alta sociedade, ele brilhou entre os melhores do Globo.

Esse cara não merece ser lembrado como o atleta decadente que não soube a hora de parar.

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