Domínio Público


Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte II) by Gerson Freitas Jr.
2 fevereiro, 2007, 2:13 pm
Filed under: Silvia Noara Paladino

Por Silvia Noara Paladino

Os acessos ao Forte dos Andradas, inaugurado em 1942 como principal ponto de defesa da entrada da baía de Santos ao sul da ilha de Santo Amaro, estão bloqueados. Policiais vigiam o morro do Monduba – único meio de entrada por terra ao complexo militar –, que separa a praia do Tombo da praia do Artilheiro. Helicópteros da Polícia Militar sobrevoam os arredores para vigiar o espaço aéreo e passam a poucos metros das cabeças dos banhistas, perturbando a paz que já está tão difícil de conseguir por aqui. Os pescadores reclamam por terem de guiar seus barcos a distâncias ainda mais longínquas das praias do Forte – que já possui restrições severas de acesso por representar uma área de preservação ecológica.
O estado de atenção não faz parte de um treinamento da 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea do Exército, que administra o complexo militar. Também não significa que alguma ameaça se aproxima. Na verdade, o esquema de segurança está inteiramente comprometido com a proteção do presidente Lula e da primeira-dama, Marisa Letícia, que saíram de Brasília para passar férias no Forte dos Andradas. Definitivamente, o verão não poderia ser o mesmo.

A opção do presidente pelo Forte dos Andradas como cenário de um momento de preparação de espírito para mais quatro anos de gestão é absolutamente compreensível. A Praia do Artilheiro poderia ser a representação de uma miragem. Suas águas límpidas e serenas, que formam uma piscina natural sem ondas, reforçam a certeza de que não é preciso ir muito longe para encontrar paraísos perdidos.
A parte mais difícil de entender, por outro lado, responde pelos jornalistas de plantão em frente ao portão de acesso ao Forte, tomado por carros de reportagem das principais emissoras de televisão, jornais impressos e agências de notícias do país. As equipes estacionam os automóveis na sombra das árvores e aguardam uma oportunidade de, mais uma vez, flagrar o presidente de calção e Dona Marisa de maiô. Sim, porque é fundamental para o cidadão brasileiro saber o que seu dirigente anda fazendo em seus momentos de intimidade e repouso. Entre conversas jogadas fora, jogos de cartas e cochilos atentos, repórteres exercem seu dever de informar (e deformar) a população.

A movimentação inusitada atrai curiosos e moradores das praias do Tombo e do Guaiúba – ambas conhecidas pelo seu estilo mais residencial e provinciano –, orgulhosos ao darem depoimentos aos jornalistas, que aproveitam o plantão para fazer aquelas matérias tradicionais sobre, por exemplo, o crescente interesse dos turistas pelo Tombo.
Quem também conseguiu alguns minutos de fama foi o pessoal da peteca, que formou até uma associação na Praia do Tombo dos praticantes do esporte. Acostumados a piadas daqueles que acham estranho ver um bando de marmanjos dando tapas no que parece mais um brinquedo de penas coloridas, os jogadores instalaram uma placa no calçadão da praia, bem em frente ao local onde a rede está armada na areia: “Cuidado, travessia de veados e simpatizantes”.
O jogo até parece simples. São dois times – cada um formado por três jogadores –divididos entre os dois lados quadra, que se assemelha a uma de vôlei de areia, e uma rede de cerca de dois metros e dez centímetros de altura. As equipes se posicionam e dão início ao combate, que permite apenas um tapa na peteca a cada vez que ela troca de quadra. A fim de mostrar que novo esporte é esse que invade não só o Tombo, mas outras praias do litoral paulista, uma repórter da TV Record resolveu testar suas habilidades na peteca. Uma idéia que ela deixou pra lá depois da primeira tentativa. Em um link ao vivo para o primeiro telejornal da manhã, fez alguns comentários bem pertinentes, como por exemplo: “E esses jogadores mostram que estão em muito boa forma!”. Nesse momento, o câmera focaliza aquele competidor mais gordinho, com uma barriga de chope, em um salto desajeitado para alcançar a peteca.
A TV Tribuna foi outra que também aproveitou os momentos de ócio à espera de algum sinal do presidente para entrevistar os “petequeiros” e os antigos freqüentadores locais, a fim de saber o que o Tombo tem de especial. Alguns citaram a curta extensão da praia, que confere a ela um ar intimista e reservado. Outros, por sua vez, destacaram a limpeza da areia e do mar. Eu concordo com ambos os comentários, mas teria uma resposta diferente, mais ou menos assim: “O Tombo ainda oferece o privilégio de ser especial para poucas pessoas”.
Conversando com um dos jogadores – um empresário cinquentão, de ar juvenil, simpatia acolhedora e freqüentador do Tombo desde menino –, falamos sobre a influência que a televisão exerce sobre as pessoas. “Você precisa ver o que apareceu de gente aqui pra assistir a gente jogar, no dia seguinte que as matérias foram ao ar!”, admira-se ele, que marca presença na quadra todos os sábados e domingos. O sonho do Mário é morar definitivamente no Tombo, pois não imagina outro lugar no mundo que o faça sentir tão completo e vivo. Toda noite, concentra-se em seus braços abertos para sentir a direção do vento, que avisa se o dia seguinte será de sol, muitas nuvens ou chuva. Para ele, tão claro quanto as intenções do sopro do universo é o caminho que o leva para casa.

Leia também a primeira e a terceira parte dessa história.

Anúncios

1 Comentário so far
Deixe um comentário

[…] também a segunda e a terceira parte dessa história. Explore posts in the same categories: Silvia Noara […]

Pingback por Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte I) « Domínio Público




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: