Domínio Público


Deixa esquentar by Gerson Freitas Jr.

Cá entre nós, você já deve estar cheio de assistir, ler e ouvir que a Terra está aquecendo por causa da fumaça que carros, indústrias e queimadas jogam no ar. Semana passada, não se falou em outra coisa – o Pólo Norte vai virar água, o mar vai subir, praias e cidades baixas podem desaparecer, a Amazônia vai virar um cerrado, tempestades vão ficar mais fortes…

O cenário catastrófico fez cair a ficha dos países de que é preciso fazer algo para conter os terríveis efeitos das mudanças climáticas. Efeitos esses que, aos poucos, já começam a ser sentidos.

O problema é que da consciência à ação há um oceano a ser atravessado. Há responsabilidades a se atribuir, concessões a fazer e interresses político-econômicos a se sobrepor.

Quando esses conflitos entram em jogo, a história mostra que questões consensuais deixam de ser consensuais. Ou a humanidade conseguiu, a despeito da boa vontade universal e todos os avanços econômicos e tecnológicos, acabar com a subnutrição das crianças ou impedir que milhões de pessoas ainda morram de malária na África Sub-Sahariana? 

E não vai ser diferente agora. Todos acham terrível o que está acontecendo com o Planeta, todos concordam que é preciso fazer alguma coisa, mas vai chegar a hora em que algum chato vai perguntar: “E aí, pessoal, quem vai pagar a conta?”. E, nesse momento, vai ter gente se calando, saindo de fininho, fingindo que não está ali.

É exatamente este o grande entrave do protocolo de Kyoto, o mais concreto esforço internacional para a redução das emissões de gás carbônico na atmosfera. Pelo tratado, os países industrializados têm de reduzir em 5% suas emissões de CO2 com base no que emitiram em 1990.

Os americanos, que respondem por um quarto de toda a fumaça jogada no ar e que, como diria minha mãe, não dão ponto sem nó, logo disseram: “só assinamos essa coisa se brasileiros, indianos, chineses e mexicanos assinarem também”.

É claro! Parar de jogar CO2 no ar implica em buscar outras fontes de energia, ainda mais caras que o petróleo e o carvão, investir em aumento de eficiência energética na indústria e, é claro, apagar algumas luzes também.

Trata-se de um ponto fundamental no mundo globalizado: competitividade. O empresário americano pára, faz as contas e vai investir na China, onde pode queimar carvão à vontade. Logo, os americanos pedem isonomia nesta discussão.

Os países em desenvolvimento, por outro lado, vão argumentar que Inglaterra e Estados Unidos poluem a atmosfera desde a Revolução Industrial, que as partículas de carbono levam séculos para desaparecer e que, portanto, eles são disparados os maiores culpados pelo estrago.

Essa turma vai lembrar ainda que o consumo per capita de energia de um americano é sete vezes maior do que o de um brasileiro. E, por fim, vai jogar na cara que, a despeito de todo o moralismo ambiental, a queima de combustíveis fósseis foi a base do desenvolvimento do ocidente rico – e atire a primeira pedra quem não gosta de ter luz em casa, de viajar em seu carro, de tomar um banho bem quente. Aliás, você já pensou em quanta energia tem armazenada em sua cerveja beeeeeem gelada?

Por isso, condenar os países em desenvolvimento que são ricos em combustíveis fósseis, como Índia e China, a não queimá-los é negar-lhes um pouco do que os países industrializados usaram e abusaram para chegar aonde chegaram. 

O resultado desse impasse vai ser conhecido em 2012, quando será discutida a segunda fase do Protocolo de Kyoto. Nesse momento, China, Índia e Brasil podem se ver obrigados a reduzir suas emissões e assegurar que os países desenvolvidos não tenham prejuízo com a limpeza de sua matriz energética.

De minha parte, peço desculpas pela falta de consciência ecológica, que americanos e europeus paguem a conta. É uma questão de pragmatismo. Quem sujou, que limpe. Quem sempre gastou muito, que economize.

No entanto, é bem provável que o aquecimento vá ter o mesmo destino das outras grandes causas universais, como as que envolvem a fome, a guerra, a Aids e até o livre-comércio. Vai ficar na discussão. Prevejo, contudo, pelo menos duas conseqüências práticas: 1) vão crescer as campanhas para salvar o urso polar da extinção e 2) vão explodir as vendas de ar condicionado.

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1 Comentário so far
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Pois é… infelizmente, faz parte do ser humano esconder a sujeira sob o tapete alheio…

Comentário por Lemos




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