Domínio Público


Se ninguém falar de coisas interessantes (parte III) by Gerson Freitas Jr.
9 fevereiro, 2007, 12:52 pm
Filed under: Silvia Noara Paladino

Por Silvia Noara Paladino

Mesmo após um período de evasão de turistas e investimentos para outras cidades do litoral Norte de São Paulo, ao longo dos anos 90, vejo que não sou a única a encontrar um paraíso particular no Guarujá. Na Praia de Pernambuco, o apresentador Silvio Santos realiza seu sonho antigo de erguer um sofisticado resort, apoiado por sua veia empreendedora, por um cofre de R$ 150 milhões e pelo desejo de morar em seu próprio hotel. O prefeito Farid Said Madi, que desde sua eleição protagoniza escândalos de corrupção mal esclarecidos, planeja até construir o aeroporto internacional do Guarujá. Mais turistas, mais dinheiro.

No Tombo, uma grande construtora também assumiu a tarefa genuína de criar refúgios milionários de frente para a praia, no lugar de casas mais velhas e terrenos vazios. Tenho a sensação de que não percebi as etapas de construção das novas mansões de arquitetura moderna, muros altos e andares que não terminam. Quando vi, elas já estavam de pé. A que mais encanta, no entanto, continua a ser a mais antiga delas, formada por varandas, janelas e portas de madeira, tijolos à vista, harmonia e leveza. São os donos da casa que, por tradição, armam os fogos mais bonitos na praia, a cada virada de ano, criando um clima propício para transformar milhares de abraços emocionados em uma única manifestação.

Uma só experiência de chegar ao dia 1o de janeiro sem ter o Tombo como testemunha do meu choro compulsivo, por sinal, foi o suficiente para levar uma lição por toda a vida. Dentro de mim, não existe um começo sem a vibração coletiva que transforma a massa em um único indivíduo e o indivíduo em massa. Sem as esperanças que se projetam em direção ao mar e retornam em forma de poder de realização. Mesmo como intenção, as resoluções de ano novo sinalizam para uma tomada de consciência em relação ao que deve ser conquistado, eliminado ou revisto, como uma luminosidade intensa sobre a pessoa que cada um deseja se tornar. Sem a certeza de estar em casa, porém, existe apenas a virada de uma página do calendário, que poderia ser qualquer uma.

O ‘seu’ Eduardo, um senhor de 74 anos que, entre momentos de veraneio e morada fixa no Guarujá, acompanha a trajetória do Tombo desde a juventude, reforça as rugas de seu rosto e franze a testa ao relatar os passos da procissão que rumou à praia para assistir aos fogos do último reveillon. “Cê já viu quando a TV mostra aquele mundo de gente no Brás, 25 de março, esses canto aí de São Paulo? Aqui ganhou!”. Com um ar até conformado, o ‘Manivela’ (como é conhecido pelo povo das antigas da praia), traz à memória a época em que o Tombo ainda não era habitado e havia apenas umas poucas casas de madeira. Muitas delas foram passadas de geração a geração, com famílias que continuam fiéis ao Tombo.
“Aqueles sirisinhos branco, caranguejo vermelho, não tem nada mais. Nem aquelas tatuíra bonitinha, que os pescador enchia balde para usar de isca, lembra? Se tem, é uma ou outra extraviada…”, lamenta ‘seu’ Eduardo. “Dizem que a água do Tombo é limpa, mas eu acredito que tá contaminada. Onde foram parar os bicho! Nem peixe…os pescador não acham mais nada”.

Lembro de quando a praia ainda não era bem iluminada, durante a noite, e eu corria em disparada em direção ao mar, para não me assustar com os pequenos siris que se multiplicavam entre a areia fofa. Na verdade, eu tinha mesmo era medo de pisar em um desses bichinhos engraçados que andam de lado. Mas ‘seu’ Eduardo tem razão. Eles raramente aparecem agora, de dia ou à noite. Os peixinhos que nadavam entre os pés na água rasa e as conchas presas à areia úmida também se foram – e nem eu me dei conta, reconheço. Assim como os peixes maiores, dizem os pescadores, que se enfileiravam nas zonas próximas às pedras e atraíam platéias eufóricas e atentas à briga do homem e do mar.

As autoridades públicas e organizações ambientalistas reconhecem a Praia do Tombo com um dos poucos lugares que ainda preservam suas belezas naturais no litoral Sul de São Paulo. E encontrar uma explicação para tal desaparecimento desses animais parece uma tarefa ainda mais difícil quando dou braçadas despreocupadas entre as ondas, como uma criança que se diverte em uma banheira de água morna e patinhos amarelos de borracha. Não há indícios, rastros ou pistas deixadas para trás.

Recentemente, a Foundation for Environmental Education (FEE), entidade ambiental da Dinamarca, concedeu à Praia do Tombo o título de Bandeira Azul – comprometido com a conscientização em relação à proteção do meio ambiente, de forma a incentivar cidadãos e tomadores de decisão a solucionar problemas existentes. A certificação é sinônimo de qualidade ambiental e deve ser concluída até o final de 2007, com a condição de que sejam realizadas algumas intervenções, como implementação de sinalizações de segurança, melhorias de infra-estrutura e realização periódica de campanhas de educação ambiental.

A notícia de que o Tombo fora a única praia do litoral paulista a receber tal título, em um primeiro momento, despertou um orgulho de quem já há muito tempo percebeu que esse não é um lugar qualquer. Pode não se comparar a praias exuberantes do Nordeste brasileiro ou do litoral de Santa Catarina, mas o encanto do Tombo não reside apenas no que aparece nos cartões postais ou nos álbuns de fotos. Também não é visível a todos os olhos. Talvez seja evidente apenas para mim, e tudo bem também.

A visibilidade pública do meu pedaço no céu, por outro lado, gera uma preocupação que pode parecer egoísta. Como aquela sensação de quando o melhor amigo pede uma parte do que ele é em você de volta, ao decidir se casar. Mas também não é como um sentimento de posse, que não tem a acrescentar a nenhuma das partes. Na verdade, parece mais saudade de tudo o que foi vivido junto a ele (todas aquelas coisas que são especiais justamente porque não se repetem), ou mesmo cuidado em protegê-lo do que ele não consegue evitar.

A gratidão pelo amigo que ingressa em uma nova jornada nos faz sentir um pouco responsáveis por seu futuro. No final das contas, todas essas inseguranças acalmam com a certeza de que ambos permanecem silenciosamente atentos um ao outro.

Leia também a primeira e a segunda parte dessa história.

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3 Comentários so far
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Silvia,
Sou moradora da Praia do Tombo e possuo uma pousada aqui, achei muito interessante seus textos…. Gostaria de entrar em contato.
Obrigada.

Comentário por Gabriela

gabrielajs@gmail.com

Comentário por Gabriela

[…] também a segunda e a terceira parte dessa história. Explore posts in the same categories: Silvia Noara […]

Pingback por Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte I) « Domínio Público




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