Domínio Público


A violência é outra by Gerson Freitas Jr.
13 fevereiro, 2007, 2:18 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, sociedade

Tão impossível quanto não se indignar com o bárbaro crime que matou o garoto de seis anos no Rio de Janeiro é não sentir nojo da hipocrisia com que a mídia e o governo reagem à questão. Sim, nojo, náusea, enjôo, repulsão, repugnância, asco e quais outros substantivos sinônimos que o dicionário oferecer.

 

É dessa forma que eu vejo o corpo de mais uma vítima da violência abraçado por oportunistas de toda a ordem, todos preocupados em ganhar pontos, uns com suas bases, outros no Ibope.

 

Aproveitam-se todos da cegueira da ignorância da população, que respira a fumaça da indignação que exala das fogueiras alimentadas não apenas pelos crimes que, sim, são chocantes, mas também pelo combustível de ódio e preconceito que nela atiram.

 

Cria-se a guerra do bem contra o mal, da “sociedade” contra a criminalidade, dos cidadãos de bem da classe média contra bandidos metamorfoseados em monstros e assim mergulhamos todos em comoção coletiva, tão bem explorada por quem dela sobrevive.

 

Enquanto isso, escondem o Estado, o Estado falido, o Estado a serviço dos credores, incapaz de assegurar educação, renda e o mínimo de perspectiva em uma sociedade na qual as relações são cada vez mais definidas pelo consumo, uma sociedade divida, sim, não entre bons e maus, mas entre os que têm e os que não têm.

 

Uma sociedade que não se indigna da mesma forma quando tolera uma criança de cinco anos vendendo bala no farol ou cheirando cola nas esquinas das cidades – como se houvesse crime maior contra um ser humano – ou que assiste incólume ao recrutamento de adolescentes sem futuro pelo tráfico de drogas, o mesmo tráfico que atende aos caprichos de jovens de classe média mimados e insensíveis, que se vestem de preto e saem às ruas para protestar por paz.

 

Mas por que explorar as raízes tão profundas e escondidas de uma sociedade que não respeita o social? É mais fácil apontar todos os canhões da nossa revolta contra os champinhas e outras personificações do mal que produzimos. Além disso, dá mais voto, mais ibope e, certamente, vende mais revista.

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3 Comentários so far
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Trecho de matéria sobre o discurso do Lula em lançamento de programa contra a exploração sexual infantil em Salvador.

“Lula pediu ‘prudência e responsabilidade’ no debate da criminalidade juvenil, lembrando que ela ‘existe nos Estados Unidos, onde a questão social não é o problema, e na Rússia, onde a educação também não é problema’.

‘Será que é apenas a questão social a razão de tanta barbaridade? O que leva um jovem de 17 anos a praticar uma barbaridade contra outra criança?’, indagou o presidente em uma fala de improviso sobre o caso João Hélio.

‘Isso não está no racional da humanidade, não está no mundo animal’, prosseguiu Lula, defendendo também a “recuperação da família brasileira’.”

Concordo com você quando fala que falta a mesma indignação quando se vê uma criança vendendo bala no farol. mas isso já é uma questão muito mais profunda que, confesso, não sei se tenho competência para discutir.
Por outro lado, não tiro o direito de uma mãe que teve o filho de seis anos arrastado por bandidos sentir ódio e revolta, nem o de um pai de uma menina de 16 anos que foi estuprada dias a fio antes de assassinada a facadas.
Se até Jesus teve seu momento de fúria, quem são os humanos para, depois de uma perda dessa, resignar-se pela falta de oportunidades que aqiueles que mataram seu fillho tiveram na vida?

Comentário por Eduardo Simões

Caro Diogo Mainardi, devolva o Lusinha agora! rs

Falando sério agora, Lusa, acho que o argumento do Gerson, assim como o do Vinícius, não é contra o sofrimento de uma mãe e de um pai. É contra a forma asqueirosa como a mídia e os políticos estão explorando o caso seja pra vender revista ou pra fazer cartaz, e como a classe média adora aproveitar esses episódios para pirar na catarse, mas nunca para pensar em soluções para a origem do problema. É mais fácil – embora, eu tema, não tão necessariamente efetivo – cair matando nas consequências, preferindo criar vilões inescrupulosos e sem coração como exceções – e não consequência – do que admitir que é engrenagem de um modelo que gera pobreza, gera favela, gera criminalidade, e gera também os episódios como este. O debate fica raso, na maioridade penal, mas ninguém quer falar da criança no farol que é fruto da mesma cesta que gerou as tais frutas podres que a gente prefere jogar fora. Enquanto a criança estiver no farol, não vale a pena discutir.

Comentário por danielamoreira

Mas enquanto está-se fazendo algo para tirar a criança do farol, que é um processo longo como já foi dito no Domínio várias vezes, algo tem que ser feito com as “frutas podres”. Concvordo que é um problema social, mas não é só isso, senão todo pobre seria ladrão,. assassino, estuprador ou traficante e sabemos que não é assim. Concordei com o Gerson que é preciso indignar-se com a criança no farol, mas o que a mãe do garoto assassinado deve fazer? Dizer “ah, é uma pena essa sociedade injusta criar elementos marginalizados e que não tiveram oportunidade na vida”. Daqui a pouco vai ter gente defendendo que toda família tenha em casa uma criança de seis anos para ser arrastada ruas a fio por “pobrezinhoq ue não tiveram oportunidade na vida” (isso foi Digo Mainardi, não o comentário anterior… rs).
A questão social existe, mas não é só ela e não é tão simples assim. Ela tem que ser trabalhada, mas é solução de longo prazo. No cuirto prazo alguma coisa tem que ser feita, não sei se é redução de maioridade penal, na verdade acho que uma polícia mais presente, que fosse atrás dos peixes grandes e uma Justiça que funcionasse com rapidez já ajudariam no curto prazo.
Quanto a mídia, os jornais e as revistas, bem, eles tratam da mesma forma rasa a questão do menino assassinado brutalmente e do adolescente cheirando cola nas ruas do centro da cidade. Quer profundidade? Crie seu próprio blogb e escreva só para seus amigos… rs

Comentário por Lusa




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