Domínio Público


Literatismo (Os idiotas II) by Daniela Moreira
27 fevereiro, 2007, 4:13 pm
Filed under: Daniela Moreira, internet, jornalismo

Relutei em voltar ao tema. Podem dizer por aí que pintou um bloqueio, que estou me repetindo, o que seria um duríssimo golpe na moral já por demais abalada deste Domínio graças aos seus desmedidos resvalos no “literatismo” – ao leitor desavisado, segue a definição do pai dos burros: “literatura medíocre, de má qualidade; literatice”.

Mas voltemos ao foco – o objetivo deste post não é defender o “literatismo”, a “literatice” nem sequer a “literatura de má qualidade” aqui praticada, pois o Domínio é público, mas as decisões, felizmente, são privadas.

Posto isso, voltemos agora de fato ao objeto que se repete: o idiota. Justifico: repete-se o tema porque se repetem os idiotas, aqui e acolá – embora já tivesse deixado bem claro que, aqui, a idiotice não era bem vinda. Enfim, há sempre um idiota que pode ter passado batido pelo alerta – comportamento muito natural para um idiota.

Em minha defesa e para manter o interesse do leitor, já adianto: repete-se o objeto, mas o viés é outro. Um outro tipo de idiota. A rigor, talvez seja até o mesmo. Mas ressalta-se aqui uma faceta específica do idiota, talvez a que mais me amedronta: o idiota letrado.

Antes que saiam dizendo por aí que estou defendo certas idiotices, idiotice é idiotice e pronto, acabou. Mas se há um tipo de idiota que é realmente indefensável, é o idiota que o é porque quer.

Explico: tem gente que vive muito feliz por aí, ignorante da sua idiotice. Gente que nunca abriu um livro na vida além da cartilha Caminho Suave, gente que teve pouco ou nenhum contato com uma carteira de escola, gente que aprendeu a ver o mundo apenas pelas dicotomias cultivadas para dentro da porta da sua casa. Gente que não lê jornal e que tem à sua disposição tão somente a cosmologia do Domingão do Faustão para decifrar o mundo. Vá lá…

O que realmente me assusta é o idiota da cadeira ao lado. O idiota que divide a mesma mesa do bar em que me sento, que cursou o ensino médio particular e bem pago que freqüentei e que esteve na universidade privada em que me formei (me eximo aqui de entrar no mérito pra lá de questionável da tal universidade neste momento).

Gente que leu (e se não leu foi porque não quis), gente que estudou, gente que teve noções mínimas de história, de filosofia, e quiçá, um pouco de retórica. Gente, que assim como eu e meus três colegas de Domínio (dos quais, para evitar de antemão as intrigas, por mais que discorde, não questionei nunca a inteligência e a sensatez), teve acesso a informação, cultura e educação formal, para dizer o mínimo. Teve de tudo para desenvolver um mínimo de senso crítico e discernimento. Mesmo assim, não se dá ao trabalho de avaliar, ponderar e argumentar – prefere ofender. Não é capaz de extrapolar os preconceitos e tabus herdados dos seus tataravôs.

O que me assusta mesmo é o idiota que chega a este Domínio, internauta, privilegiado digital, certamente letrado, e, quiçá, até jornalista, já que por aqui grande parte o é. Que chega aqui, lê tudo que escrevemos – se comenta, presumimos que lê – e, claramente, não entende lhufas. Esse idiota, não há como negar, teve todas as chances de não sê-lo.

Acho, ademais, um grandessíssimo desperdício. Dos livros na prateleira, dos superfaturados bancos da universidade, e das árvores – tantas árvores – gastas em diplomas de papel… Mais que tudo, um desperdício – tanta gente capaz de pensar sem livros, cadeiras e diplomas. E eles aqui e acolá, formados, premiados, celebrados, respeitados. Os idiotas.

Sob o risco de praticar a mais hedionda “literatice” aqui já registrada e revelar, mais um vez, minha faceta mais radical e, quiçá, até arrogante, ouso assim mesmo parodiar o paradoxo machadiano. Por que idiota, se letrado? Por que letrado, se idiota?

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2 Comentários so far
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Olá Dani!
Primeiro eu gostaria de agradecer este espaço!
Ainda que seja por meio de uma crítica, ganhar um espaço como esse é um elogio!
Aliás, fico feliz em ser lembrado, se não pela argúcia, talvez pela estultice.
Enfim, o objetivo de estar aqui não é nenhuma idiotice, mas vim para fazer um pequeno alerta de um (quase) jornalista, letrado sim, mas nem tão absoluto como me imaginam. O fato é que não consulto o pai dos burros com tanta freqüência.
Antes fosse por não ser burro, mas não se trata disso.
Não vou às letras faz tempo, minha pena jaz enferrujada.
Tenho lutado outras batalhas, ainda mais ingratas que são estas da dura realidade.
E encontro neste vosso Domínio aquela saudade de voltar aos velhos rascunhos, àquela trinca proibida de futebol-religião-política que nos tiram do lugar-comum num impertinente desafio à razão.
Tanto é que acompanho com avidez os textos aqui trazidos, e não posso deixar de notar o exercício do conto, das narrativas dos dias e das situações, dos retratos que são tomados de empréstimo das próprias tintas da vida para nossa fruição imaginativa, visual e, porque não, vernacular.
Mas eis que meu comentário, algumas poucas palavras, se dirigiam apenas ao fato de não estar notando o mesmo entusiasmo dos escribas em comentarem as notícias, os barris de pólvora, as nódoas de sangue, o caos orquestrado que tem se passado.
E para tanto referi-me ao tal literarismo, talvez por engano, consulte o dicionário novamente, porque talvez literarismo nem sequer exista.
Então ficamos assim, daqui para a frente, aponto os meus neologismos e o literarismo (sic) agora devidamente apontado, é sinal apenas de que vos leio, se quiser bem saber, vos reconheço as palavras ainda que não tenham assinado vossos textos e que nunca foi intenção depreciar o bom trabalho de ninguém.
Trabalho este admirado ainda nesta crítica, que não deixa de possuir a usual elegância de seus textos.
Abraços!

Comentário por Kz

Caro Cazé,

Você é muito bem-vindo a esse espaço. Queria dizer primeiro que meu texto não é represália, esse é um espaço de idéias. É resposta. É reflexão sobre um estímulo, é aproveitar uma deixa pra falar de um assunto mais amplo e importante para mim e, na minha visão, para outros – não fosse assim, responderia no próprio post.

Portanto, o texto não é todo endereçado a você – a primeira parte, obviamente sim. Quanto a ela, justifico minha defesa apaixonada: acho que as experiências literárias praticadas aqui são o que fazemos de mais diferenciado. Comentar assuntos cotidianos é bacana, é importante e tudo mais. Mas é o que está todo mundo fazendo. No jornal, na TV, no rádio, no boteco, no café.

Abrindo mão da modéstia, acho que o que temos de diferencial é o estilo. Cada um com o seu, sem dúvida. Mas o que me dá prazer no Domínio não é ler um texto do Lusa pra saber a opinião do Lusa sobre um assunto X – até porque, depois de sete anos, posso chutar com chances muito boas de acertar. O que me dá prazer em ler um texto do Lusa – ou do Gerson, ou do Vinicius – é saber que vou ler um texto saboroso, bem escrito, diferenciado.

Acho também que o “literarismo” (sem qualquer sentido depreciativo) pode ser usado para tecer críticas, ilustrar pontos e abordar assuntos tão bem quanto qualquer outro recurso retórico, se não melhor. Seja para dar uma dimensão humana um evento catástrofe, como no belíssimo texto sobre Muriaé do Gerson; seja para criticar a indignação patética e míope da “classe média Veja” no episódio João Hélio (e quem disse que não falamos de sangue e de caos?), como no brilhante texto do Vinicius; seja para falar de coisas que estão em um nível de abstração tão grande que, de tão anestesiados, nem nos damos ao trabalho de pensar, como na matadora crônica do Lusa sobre o cotidiano.

Por isso o seu comentário me atingiu tão em cheio. Só de pensar em ver um Domínio menos inspirado, menos voltado ao mundo de dentro de cada um, e mais “factual”, tenho calafrios. Caminhamos um bocado pra chegar aqui, pra soltar amarras, pra falar de coisas que realmente importam – não importa se elas são manchete do jornal, como muito bem colocou o Gerson em um dos meus textos preferidos deste Domínio.

Quanto à segunda parte, a dos idiotas letrados, não é um ataque pessoal. Estou falando – sob o risco de ter que responder outros tantos comentários como este, mas vamos lá – de pessoas próximas diversas, amigos em alguns casos, com as quais convivo e convivi ao longo da minha vida que tinham plenas condições de ter uma visão menos míope do mundo, de se questionar, e não fazem a menor questão, só repetem preconceitos e reforçam visões viciadas que recebem dos outros.

Muitas vezes somos mal-interpretados no que dizemos aqui. Este texto fala principalmente disso. De pessoas que têm acesso a idéias diferentes, a visões mundos diferentes, e mesmo assim não conseguem enxergar outras possibilidades, preferem se manter no banal, no corriqueiro, no status quo. Quer saber minha opinião? O banal é chato, o corriqueiro é chato, o status quo é chato. Quero tentar diferente, quero ver diferente e quero acreditar que as pessoas são capazes de ver diferente.

Por isso esse texto é tão agressivo e apaixonado. Não para atacar um colega, não apenas para defender escolhas e pontos de vista meus, mas para, quem sabe, chacoalhar um pouco as pessoas, fazer com que elas se perguntem se não poderiam estar fazendo escolhas diferentes na vida, instigá-las a mudar de olhar, mudar de visão – e não necessariamente comprar a minha visão de mundo ou a visão da Veja ou da Globo.

Pode soar pretensioso, mas esse blog nunca foi para mim palavras jogadas ao vento. Tudo que escrevo – e tenho certeza que o mesmo vale para os colegas – tem reflexão por trás, tem uma razão de ser, não importa se só uma, duas ou três pessoas vão ler.

Repito: espero que você volte, comente, participe. Discutir é ótimo, é sinal de que não deixamos de pensar.

Abraços.
Dani

Comentário por danielamoreira




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