Domínio Público


Crônica de um Domingo by Eduardo Simões
7 março, 2007, 4:12 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões, família, sociedade

– Fala PH, tranquilo?

– Tranqüilo, respondeu Paulo Henrique, imaginando se não havia maneira mais agradável de ser acordado num belo domingo de manhã.

– Então rapaz, tô precisando muito falar com você. Lembra aquela história que eu comentei contigo no aniversário da Marcinha? Então, vai rolar e olha, dessa vez vai dar certo.

Enquanto ouvia o cunhado, Paulo Henrique ia tateando pela parede do quarto em busca do interruptor. Limitava-se a breves e desanimados “Ahãs” como resposta, enquanto o cunhado continuava.

– Não tem como dar errado Paulão. Pô Paulão, todo mundo precisa comer. Um bar meu velho, como eu nunca pensei em um bar? Eu só preciso de uma ajuda inicial, um capital para começar o negócio. Depois que a coisa começar a andar tua irmã vai ter vida de rainha e tua sobrinha vai virar doutora.

Já era a quarta vez que Paulo Henrique escutava aquela conversa do cunhado. Com algumas poucas variáveis, é verdade. Ele já tinha achado que o negócio do momento era um estacionamento, depois chegou à conclusão que legal mesmo era uma lojinha de móveis num bairro da periferia. A bola da vez agora era um bar. Afinal, todo mundo precisa comer, um sanduíche chama uma cerveja e ali estava a chave do sucesso.

– Mas Tonhão, não é tão simples assim cara. E o ponto? Onde você quer montar esse bar. Existe bar pra cacete na cidade.

A voz do cunhado, de repente, foi tomada de irritação. – Porra PH! Você acha que eu sou idiota?! É lógico que o ponto é bom e eu tô cheio de idéias cara! O que vai ter no meu bar vai ser completamente novo, revolucionário. Você vai ver só, todo mundo vai querer copiar. Depois, eu não tô pedindo para você me dar nada não. Vai ter tudo de volta quando começar a sair ouro daquela mina. Pô Paulão, confia em mim. Alguma vez já te deixei na mão?

Paulo Henrique pensou em responder que sim, mas ficou quieto. Já não tinham sido poucas as vezes em que brigara com a namorada Bruna por causa dos vários empréstimos a fundo literalmente perdido ao cunhado. Respirava fundo, como que se preparando para escutar dela o já famoso: “Esse teu cunhado só te explora! Enquanto isso a burra aqui esperando para casar! Se você tivesse colocado todo o dinheiro que jogou pela janela emprestando para ele numa poupança que fosse, já daria para pagar o casamento, a festa, o enxoval e a lua-de-mel”.

Não adiantava explicar que aquele explorador era casado com sua irmã, que eles tinham uma filha linda que era sua sobrinha. Bruna não queria saber, só pensava em casamento e em dar filhos lindos a Paulo Henrique.

– Vamo fazer o seguinte Tonhão. Eu vou com você nesse fim de semana dar uma olhada nesse ponto que você diz ser um achado. Depois a gente conversa.

– Beleza PH! Você vai pirar no lugar, é sensacional. Vai até querer virar meu sócio. Tô sentindo que é agora Paulão, é agora;

Bom, telefone desligado, sono perdido. Agora o buraco ia ser ainda mais embaixo. Ia ter que convencer o cunhado que o negócio não é tão garantido como ele pensa e que o negócio mesmo é continuar atrás de emprego e acabar com aquela frescura de que “os meus chefes não têm capacidade de enxergar o meu potencial”.

– Mas espera aí. Puta merda! Eu tinha combinado com a Bruna de passar o fim de semana no sítio dos pais dela em Barra Bonita.

Pronto, seu domingo e todos os cinco dias que antecederiam o fim de semana seguinte estavam condenados. Não dava mais para desmarcar com o cunhado, nem queria, afinal quanto mais rápido o dissuadisse daquela idéia maluca melhor.

Mas dar um bolo na Bruna? Depois de ela ter avisado com uns dois meses de antecedência que os avôs iam comemorar as bodas de ouro. Cinqüenta anos de casados, o que seria motivo para a namorada lembrar que já podiam estar casados a uns cinco e com pelo menos um filho na bagagem.

– Bom, não tem jeito. Ela vai entender. Ela é a primeira a defender que eu não empreste dinheiro pro meu cunhado. Ela vai entender que é uma missão necessária;

Doce ilusão;

– Eu não acredito Paulo Henrique! Toda a minha família vai estar lá, minhas tias, meus primos. Meus pais, Paulo Henrique! O que eles vão pensar se eu apareço lá sem o meu noivo?

– Mas Bruninha…

Nisso ela começou a chorar. Paulo Henrique odiava quando a namorada chorava. Aquilo o irritava profundamente. Era praticamente o argumento definitivo que o sentenciava como um monstro insensível digno de viver em meio aos ogros.

– Olha só, não tem mais coisíssima nenhuma. Ou você vai nesse aniversário ou não precisa mais olhar na minha cara. Cansei, encara a tua irmã e teu cunhado e diz que a fonte secou. Se você não se preocupa com o nosso futuro então eu prefiro que não exista mais ‘nós’.

E desligou o telefone em meio aos soluços.

Já era tarde de domingo e Paulo Henrique começou a se perguntar se tudo podia piorar. A campainha tocou. Abriu a porta, era o cunhado, a irmã e a sobrinha.

Recebeu um efusivo abraço do cunhado e, antes que pudesse cumprimentar a irmã e a sobrinha, já sentia algo gelado na nuca. Como de costume Tonhão “tomara a liberdade” e pegara uma cerveja para si e outra para o cunhado.

– PH, é o seguinte, o negócio é quente. Tanto é que o dono me ligou hoje, dizendo que tem gente interessada em fechar nesta semana. Não vai dar para esperar. Eu preciso entregar 50 mangos na mão do cara como sinal até amanhã ao meio-dia. Eu tentei te ligar mas o telefone só dava ocupado.

Respirou fundo, contou até dez e começou.

– Pô Tonhão, não é assim cara. Você acha que 50 mil nasce em árvore? É muita grana para arrumar assim de uma hora para outra.

– Ah, qualé Paulão, vai começar a negar miséria? Até parece que você não tem esse dinheiro! Olha o teu carro, esse apartamento. Que é que é, vai começar a negar ajuda para os parentes pô? Além do mais, todo mundo sabe que você ganha bem para cacete, que viaja com a patroa todo carnaval. Pra viajar e comer em restaurante chique tem, para ajudar os parentes que tão precisando não?

– Porra Tonhão, o que eu tenho ou não tenho não é da tua conta, e uma coisa é ajudar, a outra é sustentar.

– Então pega essa merda desse dinheiro e enfia no rabo! Vai tomar no cú!

Definitivamente o clima tinha ficado tenso. Paulo Henrique só agradeceu que a sobrinha, somente com um ano e sete meses, não tivesse a capacidade de entender o que acontecia em frente aos seus olhos.

Tonhão saíra chutando tudo, Marcinha, a irmã, ficara.

– O que está acontecendo Paulinho? Você nunca foi de usar esses termos com o Marco Antonio

Paulo Henrique começou a explicar da briga e do ultimato que tivera com a namorada. Que, afinal de contas, as empreitadas do cunhando nunca tinham tido muito sucesso, que ele precisava cair na real, procurar um emprego e parar de sonhar. Que a namorada tinha razão, ele precisava começar a pensar em ter sua própria família, etc, etc. etc.

– Como assim ter sua própria família. Você já tem sua família. Eu, o Marco Antonio e a Leilinha aqui. É isso que a família faz, ajuda uns aos outros. Se a Bruna quer entrar para a família, ela devia pensar nisso. Eu sempre senti que essa menina é muito arrogante, sempre se achou melhor que a gente. Paulinho, lembra do que papai e mamãe ensinaram. A gente tem que estar sempre junto, sempre.

O domingo já atingia a noite. E tudo que Paulo Henrique tinha pela frente era uma semana que prometia ser desgastante. De um lado, o cunhado inconseqüente e lunático e a irmã egoísta e chantagista emocional. Do outro, a namorada obcecada pelo casamento e inflexível.

Nessa hora Paulo Henrique só conseguiu cair de novo na cama e lembrar Raul: Pare o mundo que eu quero descer!

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1 Comentário so far
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[…] adianta, Paulo Henrique continua sentado no sofá com cara de preocupado e pensando o que fazer. Negar o empréstimo ao […]

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