Domínio Público


E são vocês que fazem piada by Eduardo Simões
15 março, 2007, 3:55 pm
Filed under: crime, direitos humanos, Eduardo Simões, falta de Estado, família, sociedade

– Alô?

– Aqui é o major Peçanha do Corpo de Bombeiros, houve um acidente aqui na avenida Brasil…

– Acidente? Como assim, acidente? O que aconteceu?

– Calma minha senhora. A senhora tem algum parente, amigo ou conhecido que esteja em trânsito neste momento?

– Sim, sim, meu marido, o Osvaldo, ele deve estar indo para o trabalho nesse horário.

– Ok, a senhora pode me fornecer o sobrenome dele e o nome da senhora?

– Meu nome é Vanda e o sobrenome é Fernandes, Osvaldo Fernandes.

– A senhora poderia nos passar um telefone de contato do seu Osvaldo?

– Sim, é 555-9678

– Ok, minha senhora, fique tranqüila. Segure na linha que em instantes vou lhe dar mais informações.

Enquanto isso.

-Alô?

– Seu Osvaldo?

-Ele mesmo.

– É o seguinte doutor, nós tamo aqui com a Dona Vanda, sua mulher, e queremos 10 mil para não matar ela, certo?

– Quem ta falando?

– Não interessa quem ta falando. E você não pergunta nada, quem pergunta aqui sou eu. O senhor vai fazer o seguinte, vai desligar seu celular e depositar essa grana na conta que eu te disser. Se fizer tudo direitinho a gente solta tua mulher na boa. Se eu só suspeitar que você chamou a polícia, ela morre. Ainda não matei ninguém nessa semana e já tô passando vontade.

Pronto, mais alguém caiu no golpe do falso seqüestro. Idéia de algum gênio do crime afinal, que mãe, pai, irmão, esposa ou marido não se apavoraria só de imaginar que um ente querido corre risco de vida.

Fruto também de uma sociedade tomada pelo medo, órfã de Estado. Quem pode garantir de pés juntos que, em tempos em que se anda na rua e pode-se ser engolido por um buraco, não ficaria com o coração na mão ao ouvir alguém do outro lado da linha dizendo “eu vou matar seu filho, me arruma logo esse dinheiro senão ele morre”?

Quem vai confiar na polícia quando, depois de depositar o dinheiro e descobrir o golpe, vai à polícia registrar ocorrência e descobre que o autor do golpe provavelmente está em algum presídio.

– Como assim? – reagiria o seu Osvaldo. – Quer dizer que até presos esses caras continuam cometendo crimes, apavorando as pessoas, extorquindo dinheiro?

Pois é seu Osvaldo. O senhor esqueceu de dizer que eles também comandam quadrilhas e decidem lá de dentro quem tem e quem não tem o direito de viver.

– Mas se eles estão presos, como eles conseguem isso?

Celular, seu Osvaldo, celular. Eles comandam tudo de dentro dos presídios, ligam para os comparsas que estão aqui fora e comandam tudo.

– Ué? Mas pode celular em presídio?

Poder não pode, seu Osvaldo, mas eles dão um jeitinho. Pode ser um suborno para o agente penitenciário ou então eles conseguem fazer entrar por meio do advogado, que não pode ser revistado quando vai visitar seu cliente.

– Ora pois, mas porque então não revistam os advogados e não se pune os agentes corruptos?

Não é tão simples assim, seu Osvaldo. Os advogados têm uma entidade de classe, a OAB, muito forte. Eles consideram um desrespeito submeter os colegas de categoria às revistas. Além do mais, os agentes penitenciários são muito mal remunerados e estão sempre com a vida em risco. Muitos que trabalham direito acabaram sendo mortos pelo crime organizado.

– Por que então não se combate o crime organizado?

É complicado seu Osvaldo. Eles têm ramificações em todos os setores. Até mesmo na política. Eles controlam bairros inteiros nos quais a polícia sequer consegue entrar. Decretam toques de recolher e ai de quem desrespeitar.

Seu Osvaldo desistiu de tentar entender. Depois do susto de pensar que tinham seqüestrado sua esposa e de perder 10 mil reais num estelionato, ele chegou à conclusão que o melhor a fazer era voltar para Portugal, sua terra. Lá pelo menos ele entendia o que se passava.

– E pensar que são vocês brasileiros que fazem piada de nós portugueses – disse seu Osvaldo após o abraço de despedida.

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