Domínio Público


Nossos pequenos grandes feitos by Gerson Freitas Jr.
21 março, 2007, 3:10 pm
Filed under: escrever, Gerson Freitas Jr., jornalismo

Nesses meus teimosos dias dedicados a revirar gavetas do passado distante, das primeiras memórias, comecei a agrupar alguns arquivos em uma pasta a que carinhosamente chamei de “pequenos grandes feitos”.

Lá deixei alguns momentos em que, por uma razão ou por outra, me senti mais forte, mais alto, de peito cheio e ego suspenso. São momentos de glória, únicos, dos que marcam e por vezes transformaram. Com um dos raros dias em que salvei o time de futebol, as sempre impecáveis participações teatrais ou os recitais de natal em que tanto me destacara.

Alguns 10 dos quais não consigo esquecer, seguidos de rasgados elogios da professora e olhares invejosos querendo devorar aquele pequeno ser de óculos que, queria voltar lá e ver, devia exprimir um sorrisinho vaidoso e, por que não dizer, arrogante diante de seus frustrados colegas. Pequenos grandes feitos!

Inevitavelmente, diga-se, surgiram também os “pequenos grandes fracassos”, momentos dos quais e nos quais senti vergonha, quis fazer a terra abrir e me enterrar. E, posso garantir ao caro leitor, foram muito superiores aos de glória, pelo que desisto aqui de enumerá-los. Além do mais, não são eles o assunto de hoje.

Naqueles tenros momentos, ainda não conhecia o significado da palavra relevância e, de carona, seu antônimo. Não, aqueles fatos que tanto me orgulhavam não eram irrelevantes. Tal preocupação viria a surgir nos anos seguintes, quando nos contaminamos do idealismo colegial, quando acreditamos que podemos de alguma forma mudar o mundo, contaminando as pessoas com nossos sonhos e nosso trabalho.  

Aí escalamos montanhas, atravessamos o céu e mar, descobrimos novos planetas, pisamos na Lua e terminamos com a pergunta que resume bem o cinismo dos nossos tempos: e daí, para quê serve isso tudo?

O homem, ser finito, de limitadas possibilidades, se vê cercado por infinidades, no macro e no micro, na ciência e na filosofia, de modo que se vê nadando e atravessando os tempos sem que vá de verdade ao longe. E é isso que torna tão árdua e enfadonha a existência humana sobre a terra. Nos vemos, a despeito de todo o avanço de que tanto nos orgulhamos, cercados pelos mesmos problemas que aprisionaram o homem pelos séculos: guerra, dominação, pobreza, fome, doença. De forma que todos os grandes feitos do homem são tão pequenos quanto os eram aqueles que marcaram nossas infâncias.

A diferença é que não temos mais 10 anos, nós queremos mudar o mundo, nós queremos que as pessoas nos leiam, nos entendam e, de certa forme, reajam. Pretensão inútil! Talvez queiramos ainda mudar a nós mesmos, mas nem mesmo esse grande pequeno feito tenhamos conseguido, e isso resume nosso mar de incompletudes.

Não significa que devamos parar o que começamos, enterrar os sonhos, aposentar as canetas e assistir incólumes ao andar da imensa carruagem que nos guia.

De minha parte, sigo a corrida e canto, resignado, após cada pequeno grande feito: “I still haven’t found What I’m looking for…”

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