Domínio Público


Parabéns, pelos seus aniversários by vinacherobino
26 março, 2007, 6:51 pm
Filed under: aposentadoria, Vinícius Cherobino

Fecho a porta. Já é meia noite, passada, merda. Tento não calcular a quantidade de horas que eu teria para dormir se eu conseguir tomar um banho que leve menos de 15 minutos e jantar em menos de 10. Calculo. Merda. Fico irritado por ter calculado, mas me irrita mais o resultado obtido: menos de seis horas. Tento não pensar mais nisso, não quero pensar mais nisso. Ainda não passei da porta.

Entro, perdi oito minutos daqueles reservados para o jantar. Melhor não jantar, acho que vou comer só uma pêra. Minha fome, burguesa, se mata com uma pêra. Penso em quantas as pessoas podem ter a opção de decidir não jantar, não comer por uma vicissitude de tempo, de vontades a serem mortas. Penso naquelas que decidem sobre o que comer, debatendo acaloradamente sobre os melhores ingredientes e os países que eles vêm. Acho engraçado, fico com nojo delas e das preocupações mesquinhas. Logo, me vejo na mesa, sou uns dos que debatem mais fervorosamente. Fico com nojo de mim, agora. Desisto da pêra.

Caminho no estreito corredor até o quarto. Arremesso tudo no chão, raiva de mais um dia de trabalho igual, faculdade igual, gente igual, eu igual, sem rosto. Coloco uma música mais por medo do silêncio, mais como evitar em pensar, do que uma busca de vida. No silêncio, veria a merda que me tornei. Vazio, vazio, vazio. Saco plástico de supermercado voando e fugindo entre os pneus dos carros velozes. Acho uma boa imagem, sorrio. Fico mais irritado, já usaram. Fico mais irritado ainda por que não lembro quem usou, memória de merda. Acho que foi um samba. Samba moderninho. Merda.

Sento na cama, sem colchão. Ele deveria chegar nessa semana, mas as coisas não funcionam assim como vendem os vendedores. É só nesse momento que funciona: o comprador compra, o vendedor vende. Mas o entregador não entrega e o montador não monta. Toda a burocracia de sempre. Fico irritado mais ainda por ter esse tipo de preocupação, por discutir isso nos meus almoços, profissionais, regados ao azeite do mar cáspio e de muito entrementes. O nojo vira ânsia. Lembro dos homens de negócios, onerosos em seus ternos engravatanto, não precisam vender, entregar, montar. Só comprar… Os homens de ternos, e gravatas.

Tem um lado bom: não calculei mais o tempo que tenho para dormir. Não me importa, não vou conseguir mais. Não janto, não tomo banho, não durmo. O quarto cheio de ar está vazio, escuro. Eu, deitado, olhos fechados, comemoro outro aniversário. Parabéns, Vinícius.

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