Domínio Público


A violência é outra – II by Gerson Freitas Jr.
27 março, 2007, 4:46 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, violência

“Ando cansada de espreitar da janela de meu carro para ver se o carro vizinho me aponta a metralhadora ou se é apenas um conhecido me cumprimentando”, Lya Luft, em VEJA.

A violência é hoje a maior preocupação dos brasileiros e o ponto mais fraco do governo Lula, segundo pesquisa divulgada neste final de semana pelo Datafolha. Mais do que a miséria, mais do que o desemprego, mais do que a estagnação econômica, é a violência que desassossega.

Em tese, nada mais justo. Da garantia à segurança parte a concepção da formação do Estado, capaz de garantir a preservação da vida, a liberdade de ir e vir e o direito à inviolabilidade da propriedade e de assegurar para si o monopólio da violência. Se o Estado não consegue cumprir esses preceitos, perde legitimidade como tal. E é aí em que reside a importância dessa pesquisa.

A corrida da violência ao topo das preocupações dos brasileiros serviu de convite para buscar estatísticas sobre o crime no País. E, para minha surpresa, me deparei com relatórios oficiais – que julgo minimamente confiáveis – que apontam não para o aumento, mas para a queda da criminalidade, pelo menos no eixo Rio-São Paulo.

Um exemplo. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a taxa anual de homicídios dolosos caiu de 58,6 por 100 mil habitantes, em 1991, para 42,1, em 2005. Trata-se de uma redução de 28,15% em relação ao que víamos há 15 anos! Conclusão: não estamos vivendo nada que não tenhamos vivido pior há quase duas décadas.

Isso não ameniza o fato de que os índices de violência e, particularmente, os de assassinatos, ainda são extremamente altos, entre os maiores do mundo. A questão não é essa, mas sim a disparidade entre violência e percepção da violência. Os gráficos do crime caem, morosamente, mas caem. Os do medo disparam.

Impossível não achar pelo menos parte da resposta para tamanha contradição no trato sensacionalista que mídia tem dado à cobertura de alguns casos, em especial a do garoto João Hélio, barbaramente morto há pouco mais de um mês. 

Não que assassinatos, balas perdidas, estupros e toda a sorte de mazela desse tipo devam ser omitidos. Nunca. Eles precisam, sim, ser denunciados, tais como a enorme ineficiência do Estado na área de segurança pública. O problema é transformar a violência em um espetáculo grotesco, construído sobre a audiência de uma população amedrontada todos os dias pelo que lê e assiste.

Na jornalismo de marketing, pautado pela expectativa do leitor/consumidor e pelos índices de audiência, não importa que a violência esteja caindo. Mais importância têm dados como os publicados pelo Datafolha neste final de semana, um prenúncio de que mais sangue vai jorrar daqui para frente – pelo menos nos tubos de TV e páginas de jornais. Afinal, o show tem que continuar.

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4 Comentários so far
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Meu querido Gerson Jr,

Andei sumido por problemas técnicos mas agora estou de volta à rotina ! ! ! !

Eu me peguei pensando nisso esses dias quando me dei conta de que o “absurdo e indesculpável” buraco do metrô em São Paulo saiu das pautas dos jornais. Lembro-me que quando o acidente aconteceu, iniciou-se uma discussão de que a mídia havia sido irresponsável em não ter divulgado denúncias de irregularidades nas obras. Passado o frisson do momento, passado o “potencial de venda”, ninguém mais se deu ao trabalho de investigar o acidente, de conhecer os possíveis laudos e de procurar novas informações para que o caso não caisse no esquecimento. Com isso, aquela história toda de que a imprensa se omitiu não passou de uma desculpa para quase um mês de cobertura intensa e vazia.

Sobre a questão da sensação de insegurança eu li uma pesquisa, já há algum tempo, que o centro velho de São Paulo é muito menos perigoso do que pensamos. Os índices de crimes na região é muito menor, por exemplo, que na região dos aeroportos e da Av. Berrini. Porém, a imagem que é “vendida” da região central da capital é tão distorcida que não conseguimos pensar em transitar tranquilamente por lá e, com certeza, penso que somos muito mais alvo para assaltos enquanto tomamos uma cerveja em algum dos bares da paulista.

Parabéns pelo texto meu velho!!!
Abs

Comentário por Diego Bonel

Valeu, meu caro. Depois dá uma lida neste texto, que a Folha publicou hoje. Acho que o Ruy acertou o ponto.

RUY CASTRO

Protestos fúnebres
RIO DE JANEIRO – No último sábado do verão, a praia de Copacabana amanheceu com 700 cruzes pretas fincadas na areia no trecho defronte ao Copacabana Palace. Era um protesto contra a morte de igual número de pessoas pela violência no Rio nos primeiros meses do ano, segundo dados de uma ONG (organização não-governamental) responsável pelo evento.
Naquela manhã, ao abrir as janelas e deparar com as cruzes, que não estavam ali na véspera, os gringos hospedados no Copa devem ter se encantado com a criatividade brasileira. Que idéia para um comercial de TV -fazer da praia um cemitério! Os bandidos foram ver e também gostaram. Era um reconhecimento à sua capacidade de implantar o terror.
Já o carioca, talvez pela morbidez da idéia, passou ao largo. O espetáculo só atraiu os ativistas. Em compensação, foi intensamente filmado e fotografado -nada mais plástico que o Rio, não?-, e as imagens correram o mundo, acompanhadas de pouco ou nenhum texto.
Nesta segunda-feira, a mesma e funérea ONG promoveu na Cinelândia, no centro da cidade, uma passeata de “luto pelo Rio”. O povo foi convocado a usar camisas pretas e portar velas acesas, como num enterro. Apesar do horário -sete da noite, com muita gente nas ruas- e da tradição da Cinelândia como palco de protestos, mais uma vez apenas os ativistas prestigiaram.
Pelo visto, o carioca, já campeão mundial de minuto de silêncio, quer salvar o Rio, não enterrá-lo. Performances inspiradas em Zé do Caixão ou no “halloween” são só uma dramaturgia pobre para a indústria do medo -esta, sim, séria- que se tenta impor. Uma indústria ideal para os síndicos que mandam gradear os edifícios, para os blindadores de carros e fabricantes de insulfilme e para ONGs que se candidatam a consciência da população.

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Olá Gerson,
Gostei muito do texto, selecionei e traduzí ao francês e inglês para publicar no novo blog do Repórteres Sem Fronteiras.
Claro, devidamente linkado a este blog e com o seu nome.
Espero que você não se incomode, qualquer coisa fale comigo no
http://www.e-squina.blogspot.com
Obrigado,

Comentário por Cristiano Fagundes

Por que reclamas da violência?Por acaso não és violento?Será que não és conivente com a violência do nosso país?O que estás fazendo para que haja a primeira ERA da não-violência no planeta terra?Sou sabedor que a violência é uma indústria fabricada pelos seres humanos que gera lucros e que proporciona felicidades.Conheces algum local habitado por seres humanos que não haja violência?Conheces algum ser humano que não seja violento?Conheces algum homem ou mulher talentosa ou gênio na prática da nâo-violência?Somente os violentos são capazes de reclamarem e paradoxamente cultuarem a violência.Se vossos vínculos violentos derem-lhes algum tempo disponível acesse:www.geraldo-gomes.blogspot.com Depois de lêres todo conteúdo espero que compreendas de que nada fazes para o desativamento e o desarmamento da ARMA[o ser humano]mais letal e destrutiva do planeta terra.ignorar-me é fácil,é comum,é natural e é normal,QUERO VIR IGNORARES A VIOLÊNCIA.GERALDO GOMES.

Comentário por Geraldo Gomes




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