Domínio Público


O lixo nosso de cada dia by Daniela Moreira
26 abril, 2007, 8:34 pm
Filed under: Daniela Moreira, direitos humanos, globalização, lixo eletrônico

Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que encontrou um lindo teclado cor-de-rosa com uma linda maçãzinha mordida bem no meio de uma imensa montoeira de lixo, vinda de um continente qualquer, e achou que nunca tinha encontrado coisa mais bela na sua breve vidinha, pois por ali nunca apareceu nada assim tão lindo e tão cor-de-rosa, e ainda por cima com uma maçãzinha mordida bem no meio.

Mas não é. História de gente que vive no meio do lixo, que vive do lixo e do lixo venenoso, não pode ser história bonitinha, nem fazendo muita força. É história do que é ser globalizado na China ou na África. É receber 500 toneladas de lixo por dia lá da Europa ou dos Estados Unidos ou de qualquer outro canto do mundo achando que está recebendo presente.

Computador quebrado, TV que não funciona e teclado cor-de-rosa, que já não presta pra nada. Presente de grego – ou de norte-americano. Mas lixo é lixo em qualquer lugar do mundo. E nem uma garotinha chinesa de sete anos se deixa enganar.

Talvez ninguém por ali saiba muito bem de onde vem toda aquela monteira de coisa ou porque aquilo vai parar ali. Certamente ninguém lhes disse que é mais prático exportar esse tipo de problema do que resolver no quintal de casa. Mas como ali está, tira-se o que é de proveito e o resto vira o que já era mesmo. Lixo.

O lixo, por ali mesmo se queima ou por ali mesmo se larga. Esqueceram de lhes contar, talvez, que este tipo de lixo assim, no ar, na água, no chão, causa doença, mata, por isso lá pras bandas do oeste ninguém quer por perto. A bem da verdade, ninguém gosta de lixo, como se supõe por aí. Mas tem quem precise dele, e isso já basta.

Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que viveu no lixo, brincou no lixo, cresceu no lixo e morreu de câncer aos 21 anos. E ainda pode ser.



O tempo passa! by Eduardo Simões
25 abril, 2007, 3:25 pm
Filed under: ambição, Eduardo Simões, família, mudanças, sociedade, tempo

Já ficou corriqueira a propaganda de um banco voltado aos correntistas com altos volumes de investimentos (pelo menos para os padrões brasileiros) em que um cara apanha no tênis “de um moleque”, mas fica feliz da vida de ter levado a surra porque se tratava “do seu moleque”.

Um reclame cheio de simbolismos que traz um cidadão bem-sucedido que já se encontra na meia idade, em plena forma física e bem financeiramente o bastante para se emocionar se sentir que a missão foi cumprida ao ver “o seu moleque” arrasando-o do lado da quadra. A moral da história, segundo o reclame, é que a passagem do tempo pode não ser uma coisa ruim.

Esses dias um amigo, dos tempos do colégio que a gente conhece há mais de 10 anos (ok, pode não ser muito tempo, mas para quem tem vinte e alguns é quase a metade da vida) assinou um contrato para começar a comprar seu apartamento. Vai financiar em não sei quantas parcelas, em não sei quantos anos e vai ter que, junto com a namorada, “apertar o cinto” para dar conta do compromisso assumido.

Quando ele chegou com a notícia em um churrasco entre amigos, foi rapidamente cercado. Era a mesma cena do primeiro cara da galera a tirar carteira de motorista que é rodeado pelos amigos ansiosos por detalhes da prova, ou como o primeiro cara a ir, levado certamente por primos mais velhos, a uma casa de tolerância. Alvo inevitável da curiosidade dos amigos. Um outro amigo, que está noivo e morando fora de São Paulo, anunciou que vai casar em menos de um ano.

Lembro de quando tinha acabado de sair do colégio e sempre existiam as especulações. Quem seria o primeiro a casar? Sempre tinha aquele favorito, não por ser o mais comprometido, mas por ter o maior potencial de engravidar uma namorada e ser forçado a ir ao altar.

Como estaremos daqui a 10 anos? Um colega de Domínio já foi morar sozinho e tem quem já esteja pagando seu próprio teto para ficar sobre a cabeça.

É engraçado como as culturas dos vários países são diferentes. Se eu fosse norte-americano e estivesse escrevendo isso, certamente os comentários aí embaixo sugeririam que ainda não saí das fraldas. Lá ir para a faculdade é sinônimo de sair da casa dos pais e, provavelmente, só revê-los em alguns fins-de-semana, Natais e Dias de Ação de Graças.

Por aqui, assim de bate-pronto, só consigo lembrar de três amigos da mesma idade que não moram mais com a família.

Mas como o reclame do banco indica, o tempo passa, senhoras e senhores. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, a hora de “largar as fraldas” chega. Tem quem faça piada com a coisa, sugerindo que os pais não vêem a hora de se livrar dos rebentos para finalmente construírem nos quartos vagos aquele tão sonhado centro de fitness. Tem os irmãos caçulas que juram que só saem de casa depois que os mais velhos o fizerem, afinal “a ordem natural das coisas” tem de ser respeitada.

De todo modo, ao ver o tempo passando a sua volta, os amigos casando e se mudando, tem quem não consiga não se sentir pressionado. Afinal, daqui a pouco vai ser convidado para ser padrinho ou madrinha de casamento ou até mesmo de crianças. Imagina aquele monte de criança suja de brigadeiro, devastando bolos com dedadas e etc? E um padrinho que se preze não pode se ausentar nesses eventos.

O problema é: será que todo mundo está fazendo hoje o que achou que estaria há 10 anos? Aliás, será que planejar o que se vai estar fazendo daqui a 10 anos tem alguma utilidade?

 

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Sexo nos trilhos by Gerson Freitas Jr.
23 abril, 2007, 2:48 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., liberdade, sexo, sociedade

Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga minha afável Ribeirão Pires a malcriada São Paulo. É muito mais tempo do que o necessário para deixar de se surpreender com uma enormidade de cenas, diálogos, situações e pessoas que confortavelmente julgamos não existirem. Felizmente, há alguns dias, pude saber que meus olhos (pelo menos eles) ainda não se haviam cauterizado para tudo isso.

Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo… 

Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.

Confesso que não prestei maior atenção na reação das pessoas, embora tenha boas razões para pensar que muitos tenham ficado chocados. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, assim, dolorosamente humano. E isso faz toda a diferença.

O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor.

Foras da lei, o que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre muitas outras coisas mais ou menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.

Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Porque se o tivessem, certamente não estariam sobre os trilhos em que caminham livres pequenos camundongos pelo lixo amontoado. Certamente não.

Mas ali estavam por que faltou uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha, ali criminosos, em pessoas de respeito. Uma casa, dentro da qual as verdades humanas se manifestam de maneira mais evidente e onde suas mais bizarras e repreensíveis distorções são prontamente escondidas.

Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da “sociedade” e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, das quais apenas algumas ali saciadas.

Corpos sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?

São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossas acolhedoras casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do quê nos fizeram.



Um pacote ao presidente by vinacherobino
20 abril, 2007, 7:34 pm
Filed under: Análise da Mídia, blogs, celebridades, Vinícius Cherobino

Chega um pacote equivalente ao SEDEX na sede da rede americana de televisão NBC. Sem estar endereçado a ninguém específicamente. Vem em nome de Ismail AX, código em vermelho que estava no braço de Cho Seung-Hui, o assassino da Virginia Tech. Nele, textos, fotos e vídeos enviados pelo assassino entre a primeira parte da matança e a segunda.

A conclusão óbvia, claro, foi bombardeada por todos os cantos. Não foram poucos a falar que o massacre entrou na era digital e em quase tempo real. Teve até gente que perguntou quanto tempo até um novo assassino usar táticas de marketing de guerrilha para transmitir o massacre dos seus colegas pela internet. Sugeriu You tube. Idiota.

Mas, olhando as fotos, não fica nada disso. Fica um garoto, oriental, posando com armas. Pistolas, facas, balas. Olhos que – num púlpito – virariam demoníacos. Não o são. Numa palestra, virariam obviamente de assassinos, só as malditas forças da lei não conseguiram ver. Não é possível identificar as tendências assassinas de alguém pelos seus olhos, simplórios.

Era Cho Seung-Hui, posando em ensaio particular, com a máquina aparentemente em automático. Não sei se seria demais, mas parecia ser o vilão do filme, midiático toda a vida. Cool. Poderia dizer que pela primeira e última vez, mas não vou. Não sei. Não tenho como saber.

Depois das mortes, não tardou. As agências de notícias e os portais saíram atrás dos colegas. Descobriram que Cho Seung-Hui foi ‘bullied’. Verbo em inglês difícil de traduzir, mas que tem a idéia de “vítima de valentões”. Aí, pronto, uma nova série de romances de merda a serem escritos: abusado por valentões, um dia se revolta e mata os colegas – que o sacanearam, que riram em silêncio ou alto mesmo, ou que nem riram. Ele fala: “fiz por eles, pelos indefesos”.

Uma das frases entre as fotos, classificada pelo sóbrio portal e rede de notícias como “uma mistura de raiva, religiosidade, cultura pop e multimídia”, grita: “vocês adorariam ter fucking me matado”. Ninguém matou. Foram 33. Cho Seung-Hui junto – morto pela polícia.

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A Lua está em Vênus! Faça alguma coisa! Ou não by Eduardo Simões
18 abril, 2007, 1:54 pm
Filed under: astrologia, Eduardo Simões, sociedade

Não tenho nada contra quem curte horóscopo. Eu mesmo leio de vez em quando (mentira, leio sempre), embora muitas vezes questione para mim mesmo a sobriedade do cidadão que escreveu aquilo.

Outro dia o pessoal aqui em casa comprou a “máquina de assar carnes sem gordura e mantendo todos os nutrientes e o sabor” daquele ex-campeão mundial de boxe. De brinde veio a assinatura de um jornal que a gente nem sequer pediu ou lê muito, porque a necessidade profissional me fez assinante de um outro que vai ter gente aqui dizendo que é mais a minha cara.

É aquela história, você pode não ler a página de política, economia do outro jornal, mas sempre vai dar uma passada de vista nas áreas de esportes, nos quadrinhos e, é claro, no horóscopo. Ainda mais quando enfiou na cabeça que precisa arrumar algumas coisas e esclarecer outras na sua vida.

Cidadão está decidido a tomar atitudes e corre para as páginas do horóscopo para dar uma sacada, quem sabe em busca de uma confirmação. Algo que diga: “Você é um aquariano nato, não fique aí sentado, vá expor suas idéias. Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Aí corre no primeiro jornal, aquele que já é assinante costumeiro e que dá destaque de meia página, no alto, para o horóscopo, com direito a foto do cara que o escreve. O cara diz que “só o inexplicável” é capaz de explicar o que anda rolando na sua vida e lança uma filosofia “deixa a vida me levar” que tudo acabará se resolvendo.

Já o outro, o do jornal menos badalado que só veio parar à porta por causa do grill do campeão mundial de boxe, prega a ação “com coerência” para “conquistar tudo aquilo com que você mais deseja”. Um manda esperar, o outro dá sinal verde desde que se mantenha a coerência. Ahn? Fiquei confuso.

Talvez eu deva levar mais em conta o segundo, porque ele me chama a atenção para a movimentação da Lua em Touro quase da mesma maneira que um treinador chama a atenção de seu zagueiro para a movimentação do centro-avante em suas costas.

Ok, ok, os estudiosos vão dizer que é impossível cidadão escrever em algumas poucas mal traçadas algo tão complexo como a influência dos astros em nossas vidas e que o signo sob o qual a pessoa nasceu não é o único –talvez sequer seja o principal—fator a ser considerado no poder dos astros sobre os nossos destinos.

Mas o fato concreto, companheiros e companheiras, é que com a Internet. e já antes com os jornais, nunca na história desse país cidadão teve acesso a tanto horóscopo. Ta bom, pode ser mentira, mas não resisti a usar as expressões presidenciais.

De todo modo, tem muito horóscopo disponível, tem na Internet, tem nos jornais, tem nas revistas. E tudo do mesmo jeito, quatro ou cinco linhas recheadas de entrelinhas que você tem que abrir sua mente, deixar sua cretinice de lado e compreender para guiar seu dia, sua semana ou seu mês.

Eu sou um cara que gosta de absurdos. Não sei se isso tem a ver com o fato de eu ter nascido entre 21 de janeiro e 19 de fevereiro, mas isso é outra conversa, o que importa é que eu gosto de levar as coisas para o lado do absurdo numa discussão.

Então vamos lá. Num escritório em que todo mundo lê o segundo jornal, imaginem os aquarianos em polvorosa tomando atitudes, dizendo o que pensam e bradando a todo instante o mote de vários comentaristas esportivos “é como eu sempre digo” ou “eu já vinha dizendo” para expressar a enorme coerência com que norteiam seu comportamento.

Ou para quem lê o primeiro jornal, num departamento tomado por aquarianos. “Ei Peçanha, você pega aquele relatório para mim?” Peçanha não entende, acha inexplicável que o chefe de outra área esteja lhe pedindo para pegar um relatório e, como só o tempo pode explicar o inexplicável, não levanta da cadeira e deixa que as horas, minutos e segundos resolvam a situação.

Será que foi um horóscopo de três linhas que fez com que Sandy e Junior decidissem romper a parceria musical? Será que eu coloquei essa referência absolutamente sem nexo com o tema do texto só porque a minha verdadeira vontade era falar da separação dos filhos do Xororó e passar quase 3 mil caracteres repassando a carreira deles desde Maria Chiquinha até Imortal, mas fiquei com medo do julgamento das pessoas? Será que o horóscopo explica isso, ou deveria recorrer a um analista?

Enfim, fico por aqui, tenho pouco tempo para buscar uma terceira opinião, um desempate astrológico entre aja com coerência e sente a bunda na cadeira e deixe o tempo passar. Desejem-me sorte!



Abram alas para a santidade by Daniela Moreira
17 abril, 2007, 3:59 pm
Filed under: Daniela Moreira, religião

Da série boas idéias para varrer a miséria para debaixo do tapete: a prefeitura de São Paulo vai remover todos os mendigos da Praça da Sé para a visita da sua santidade, Bento XVI, à catedral da Sé. Nada mais justo. Tem cabimento o sumo pontífice caminhando no meio de um bando de pobres e necessitados?

Aliás, quem já teve o privilégio de dar uma volta pelos museus do Vaticano sabe muito bem que papa e pobreza não têm nada a ver. Luxo, riqueza, obras de arte e os modestos aposentos das santidades assinados pelos mais badalados artistas da época, para não falar no vastíssimo acervo arqueológico “preservado” no pequeno país dos guardas de calças bufantes, sugerem que os pontífices nunca foram lá muito frugais.

Por mais carola que se seja, há que se admitir que, na História, o “cargo” de autoridade espiritual suprema da Igreja na terra se confundiu com poder temporal, dando margem a umas santidades não tão santas assim. Até aí, vá lá. Mas não estamos mais falando de papas Borgia. É coisa bem mais contemporânea.

Ainda que pese o custo de uma burocracia global, como a exigida para propagar a Fé Cristã, há que se admitir ainda que desapego material e humildade não são exatamente os fortes do Vaticano – os calendários com múltiplas poses do papa vendidos aos punhados dentro dos muros do estado cristão, no câmbio de três pra um, que o digam.

Admito não ser a maior especialista nas obras de caridade católicas, por isso não vou avaliar aqui se a Igreja faz muito ou pouco pelo seu rebanho. Mas posso dizer que a sensação ao entrar no Vaticano e, para aliviar um pouco a barra da santidade, em qualquer igreja das inúmeras espalhadas pela Europa é que, talvez, tenha se gasto – e ainda se gaste – um pouco de mais com a casa do Senhor, e um pouco de menos com os seus filhos.

Obviamente alguém vai argumentar, com toda razão, que se trata de um patrimônio histórico e que sequer faria sentido sair leiloando obras de valor artístico, religioso e até documental para cuidar dos desprovidos. Não, a proposta não é vender a Pietà para comprar AZT para tratar os doentes de AIDS na África – já que a Igreja condena a camisinha.

Mas que retirar os pobres da praça para abrir caminho à santidade é, no mínimo, um desvio da proposta cristã original, isso não há como negar. Muito embora seja difícil saber o que é pior: ter que retirar os mendigos da porta da mais importante igreja da capital para a visita do papa ou que eles estejam por lá há tanto tempo, sem sequer serem notados pela missão de fé.

A saber: será que eles voltam depois que o pontífice se for? Aguardamos notícias do plano de evacuação.

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Blasé by Gerson Freitas Jr.
16 abril, 2007, 3:54 pm
Filed under: ambição, Gerson Freitas Jr.

São exatas duas horas e trinta e cinco minutos da manhã desta segunda-feira quando começo finalmente a escrever. Foram pelo menos três ou quatro dias de vão exercício em busca de um tema que marcasse minha chegada ao dia mais odiado da semana. E agora estou aqui, sem assunto, sem nada de fundamentalmente importante para dizer, pelo que peço desculpas ao caro leitor.

Eu juro que tentei, li e reli os jornais, selecionei umas duas ou três notícias interessantes, fiz minha lição de casa, mas não consegui. Acho que fui picado pela mosca da falta de motivação. Sentar em frente ao computador e escrever algumas linhas toda semana tornaram-se uma tarefa árdua e extenuante, mais do que deveria a um jovem jornalista, de tão escassas palavras publicadas e tantas marcas por alcançar.

Ah, as famosas marcas que todo mundo persegue! Estou em sérios problemas com essas tais marcas e, se o tempo parasse agora, não teria o menor problema de abdicar das minhas. Afinal, quem precisa de marcas? Se fosse o Romário, estaria a ponto de dizer “para mim está ótimo. Paro nos 999”, para deliciosa perplexidade de torcedores, imprensa e dirigentes que, afinal, não se deram conta de que nada muda depois dos mil. E se nada muda, por que fazer?

A verdade é que essa coisa de andar preocupado com tudo, pensando soluções e dissoluções o tempo todo, acaba por deprimir, conclusão a que, aliás, cheguei há bastante tempo. 

Outro dia conversava com uma amiga sobre como muitas pessoas, amigos de infância, da minha pacata Ribeirão Pires (e de tantos outros lugares), vivem de modo alienantemente feliz as suas vidas. Casam-se cedo, arrumam um cantinho para morar, uma ocupação qualquer (desprovida da ambição profissional que pressupõe a inquietante pergunta sobre onde você vai estar em cinco anos) e curtem seus finais de semana em frente ao Domingão do Faustão e especulando se Alemão e Íris vão ou não vão ficar juntos.

Nada de questões mais complicadas, nada de se preocupar em romper confortável linha do senso comum, nada de pensar nas desigualdades mundiais, nada de discutir sistemas políticos e modelos econômicos, nada de se chocar com o que leu e se lamentar pelo que ainda não leu, nada de levantar perguntas existenciais contra as quais lutamos e nos debatemos até o fim sem que encontremos respostas definitivas. Uma delícia.

A ignorância é uma benção, gosta de repetir um amigo meu. Ele, que é bem informado, substitui a ignorância pela indiferença, a consciência de que não dá para mudar o mundo e que tentar é dar murro em ponta de faca. Cuida da sua vida e, pragmático, vive feliz, sem dores de consciência e nem ideologias juvenis.

O fato é, caro leitor, é que estou meio anestesiado, indiferente aos estímulos externos e internos que sempre provocaram um turbilhão de pensamentos e sentimentos na minha limitada cabeça. As notícias simplesmente não mexem comigo e engessam minha pena eletrônica. A pobreza não comove, o descaso não indigna, a violência não assusta, a corrupção não escandaliza e o futuro não amedronta. E se ainda comovesse, indignasse, assustasse, escandalizasse e amedrontasse, de que adiantaria?  

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