Domínio Público


A fúria motorizada by Daniela Moreira
5 abril, 2007, 8:49 pm
Filed under: Daniela Moreira, sociedade, transporte

Por que agimos como loucos no trânsito? Por que perdemos a calma, perdemos a classe e de pacatos humanistas nos transformamos em potenciais homicidas num piscar de farol? Esta foi a pauta do almoço entre colegas de redação nesta quinta pré-feriado, temperada com leves pancadas de chuva, e com cheiro de congestionamento no ar.

De minha parte, digo sem nenhum pudor que tudo me irrita no trânsito. As pessoas que dirigem devagar demais, as que dirigem rápido demais, as que não me dão passagem, as que dão passagem para os outros, as que não andam quando abre o farol, as que buzinam quando o farol acabou de abrir, motoqueiros, caminhoneiros e mães na porta do colégio. Odeio todos.

E não se trata de força de expressão. Odeio mesmo. Com todas as forças. Deve ser quase pecado admitir tanta fraqueza moral e absoluta falta de sentimento cristão às vésperas da páscoa, mas antes o pecar pela ira que pela hipocrisia. Tenho vontade de matar.

A verdade, como já diria o meu analista particular, é que a loucura está em mim. Quando viro a chave do carro, já antevejo todas as fechadas que vou levar, todos os faróis amarelos que, como por vodu, ficarão vermelhos bem na minha vez de passar, e todas as vezes que terei que pisar na embreagem e engatar a primeira só para desgastar minha pobre patela e avançar indecentes centímetros.

Mas, como dizem por aí, ninguém é louco sozinho. Estão aí as estatísticas que não me deixam mentir. Segundo um estudo de dois psicólogos brasilienses, 80,4% dos motoristas sentem raiva diante de “situações de progresso do veículo impedido” – em outras palavras, trânsito parado, motoristas “tartarugas”, caminhão de lixo em rua de mão única e afins -, 98,2% ficam irados diante de direção agressiva – os outros loucos que ultrapassam farol vermelho, dão sinal de luz na sua traseira e não hesitam em pegar o acostamento pra fugir do congestionamento na serra – e 85,3% perdem a cabeça diante de incômodo no ambiente físico – leia-se, calor dos infernos, chuva torrencial, buzina, fumaça de caminhão e toda sorte de estímulos do gênero.

Em outras palavras, todos os dias um exército de loucos enfurecidos, como eu, saem de suas casas e de seus trabalhos e entram nos seus carros prontos para a guerra. Não, não sou apenas eu. Oito em cada dez motoristas desta paulicéia desvairada – a pesquisa foi feita em Brasília, mas se as coisas estão assim por lá, imagine por aqui – sentem ódio, muito ódio no transito.

É claro que talvez o problema não sejamos somente nós, os loucos. Talvez seja o excesso de carros, a falta de planejamento urbano, ou o precário transporte público. Ou talvez a loucura não tenha a ver com o trânsito, simplesmente a manifestamos melhor ali, protegidos pelas nossas gaiolas de metal, nossas armaduras motorizadas.

O fato é que a única saída possível para esta fatídica e inevitável quinta, véspera de feriado, não é nenhuma política pública, sessão de análise ou vã filosofia de blog. É trancar a porta do carro, colocar a chave no bolso e parar no primeiro boteco do caminho para tomar uma gelada e esquecer da vida.

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4 Comentários so far
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Tão furiosa que tem a competência de entrar em um viaduto na contramão…… grande marmota….
Bjs

Comentário por Diego Bonel

Oi, Dani! Por isso que eu ando de busão. Exatamente por isso. Mas continuo tendo raiva de quem pisa no meu pé, debruça em cima de mim quando tô sentada e – suprema das supremas raivas – quando a pessoa fica parada na porta, QUANDO NÃO VAI DESCER DO COLETIVO!! e fica impedindo a passagem de todo mundo. Pra vc ver que falta um estudo sobre esse tema, tão urbano!!

Comentário por Silvia

ahahhahahahahahahah! Silvia!!!!!!!!!!!!!concordo PLENAMENTE. é extremamente irritante as pessoas que não vão descer e ficam na porta! Argh!
E eu odeio trânsito mais que vocês, podem ter certeza! Ele me dá trabalho mesmo qdo estou aqui, sentada na cadeira de frente ao PC. rs!

Comentário por Pri Bella

Grande texto…

sem contar que quando vc sai do trânsito e para no primeiro ‘boteco’ para tomar uma gelada, vc vai enfrentar, fila, falta de mesa, impaciência, incompetência do garçom, e bla bla bla….

(claro, isso não se aplica a todos os botecos)

mas mto bom texto
espero que nunca ‘andemos’ na mesma via, é fato que vou tomar farol, buzina, aiai coitada da minha mãe 🙂

[]’s e meus parabéns…

Fabiano Carboni

Comentário por Fabiano Carboni




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