Domínio Público


Blasé by Gerson Freitas Jr.
16 abril, 2007, 3:54 pm
Filed under: ambição, Gerson Freitas Jr.

São exatas duas horas e trinta e cinco minutos da manhã desta segunda-feira quando começo finalmente a escrever. Foram pelo menos três ou quatro dias de vão exercício em busca de um tema que marcasse minha chegada ao dia mais odiado da semana. E agora estou aqui, sem assunto, sem nada de fundamentalmente importante para dizer, pelo que peço desculpas ao caro leitor.

Eu juro que tentei, li e reli os jornais, selecionei umas duas ou três notícias interessantes, fiz minha lição de casa, mas não consegui. Acho que fui picado pela mosca da falta de motivação. Sentar em frente ao computador e escrever algumas linhas toda semana tornaram-se uma tarefa árdua e extenuante, mais do que deveria a um jovem jornalista, de tão escassas palavras publicadas e tantas marcas por alcançar.

Ah, as famosas marcas que todo mundo persegue! Estou em sérios problemas com essas tais marcas e, se o tempo parasse agora, não teria o menor problema de abdicar das minhas. Afinal, quem precisa de marcas? Se fosse o Romário, estaria a ponto de dizer “para mim está ótimo. Paro nos 999”, para deliciosa perplexidade de torcedores, imprensa e dirigentes que, afinal, não se deram conta de que nada muda depois dos mil. E se nada muda, por que fazer?

A verdade é que essa coisa de andar preocupado com tudo, pensando soluções e dissoluções o tempo todo, acaba por deprimir, conclusão a que, aliás, cheguei há bastante tempo. 

Outro dia conversava com uma amiga sobre como muitas pessoas, amigos de infância, da minha pacata Ribeirão Pires (e de tantos outros lugares), vivem de modo alienantemente feliz as suas vidas. Casam-se cedo, arrumam um cantinho para morar, uma ocupação qualquer (desprovida da ambição profissional que pressupõe a inquietante pergunta sobre onde você vai estar em cinco anos) e curtem seus finais de semana em frente ao Domingão do Faustão e especulando se Alemão e Íris vão ou não vão ficar juntos.

Nada de questões mais complicadas, nada de se preocupar em romper confortável linha do senso comum, nada de pensar nas desigualdades mundiais, nada de discutir sistemas políticos e modelos econômicos, nada de se chocar com o que leu e se lamentar pelo que ainda não leu, nada de levantar perguntas existenciais contra as quais lutamos e nos debatemos até o fim sem que encontremos respostas definitivas. Uma delícia.

A ignorância é uma benção, gosta de repetir um amigo meu. Ele, que é bem informado, substitui a ignorância pela indiferença, a consciência de que não dá para mudar o mundo e que tentar é dar murro em ponta de faca. Cuida da sua vida e, pragmático, vive feliz, sem dores de consciência e nem ideologias juvenis.

O fato é, caro leitor, é que estou meio anestesiado, indiferente aos estímulos externos e internos que sempre provocaram um turbilhão de pensamentos e sentimentos na minha limitada cabeça. As notícias simplesmente não mexem comigo e engessam minha pena eletrônica. A pobreza não comove, o descaso não indigna, a violência não assusta, a corrupção não escandaliza e o futuro não amedronta. E se ainda comovesse, indignasse, assustasse, escandalizasse e amedrontasse, de que adiantaria?  

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