Domínio Público


Abram alas para a santidade by Daniela Moreira
17 abril, 2007, 3:59 pm
Filed under: Daniela Moreira, religião

Da série boas idéias para varrer a miséria para debaixo do tapete: a prefeitura de São Paulo vai remover todos os mendigos da Praça da Sé para a visita da sua santidade, Bento XVI, à catedral da Sé. Nada mais justo. Tem cabimento o sumo pontífice caminhando no meio de um bando de pobres e necessitados?

Aliás, quem já teve o privilégio de dar uma volta pelos museus do Vaticano sabe muito bem que papa e pobreza não têm nada a ver. Luxo, riqueza, obras de arte e os modestos aposentos das santidades assinados pelos mais badalados artistas da época, para não falar no vastíssimo acervo arqueológico “preservado” no pequeno país dos guardas de calças bufantes, sugerem que os pontífices nunca foram lá muito frugais.

Por mais carola que se seja, há que se admitir que, na História, o “cargo” de autoridade espiritual suprema da Igreja na terra se confundiu com poder temporal, dando margem a umas santidades não tão santas assim. Até aí, vá lá. Mas não estamos mais falando de papas Borgia. É coisa bem mais contemporânea.

Ainda que pese o custo de uma burocracia global, como a exigida para propagar a Fé Cristã, há que se admitir ainda que desapego material e humildade não são exatamente os fortes do Vaticano – os calendários com múltiplas poses do papa vendidos aos punhados dentro dos muros do estado cristão, no câmbio de três pra um, que o digam.

Admito não ser a maior especialista nas obras de caridade católicas, por isso não vou avaliar aqui se a Igreja faz muito ou pouco pelo seu rebanho. Mas posso dizer que a sensação ao entrar no Vaticano e, para aliviar um pouco a barra da santidade, em qualquer igreja das inúmeras espalhadas pela Europa é que, talvez, tenha se gasto – e ainda se gaste – um pouco de mais com a casa do Senhor, e um pouco de menos com os seus filhos.

Obviamente alguém vai argumentar, com toda razão, que se trata de um patrimônio histórico e que sequer faria sentido sair leiloando obras de valor artístico, religioso e até documental para cuidar dos desprovidos. Não, a proposta não é vender a Pietà para comprar AZT para tratar os doentes de AIDS na África – já que a Igreja condena a camisinha.

Mas que retirar os pobres da praça para abrir caminho à santidade é, no mínimo, um desvio da proposta cristã original, isso não há como negar. Muito embora seja difícil saber o que é pior: ter que retirar os mendigos da porta da mais importante igreja da capital para a visita do papa ou que eles estejam por lá há tanto tempo, sem sequer serem notados pela missão de fé.

A saber: será que eles voltam depois que o pontífice se for? Aguardamos notícias do plano de evacuação.

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