Domínio Público


Sexo nos trilhos by Gerson Freitas Jr.
23 abril, 2007, 2:48 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., liberdade, sexo, sociedade

Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga minha afável Ribeirão Pires a malcriada São Paulo. É muito mais tempo do que o necessário para deixar de se surpreender com uma enormidade de cenas, diálogos, situações e pessoas que confortavelmente julgamos não existirem. Felizmente, há alguns dias, pude saber que meus olhos (pelo menos eles) ainda não se haviam cauterizado para tudo isso.

Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo… 

Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.

Confesso que não prestei maior atenção na reação das pessoas, embora tenha boas razões para pensar que muitos tenham ficado chocados. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, assim, dolorosamente humano. E isso faz toda a diferença.

O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor.

Foras da lei, o que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre muitas outras coisas mais ou menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.

Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Porque se o tivessem, certamente não estariam sobre os trilhos em que caminham livres pequenos camundongos pelo lixo amontoado. Certamente não.

Mas ali estavam por que faltou uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha, ali criminosos, em pessoas de respeito. Uma casa, dentro da qual as verdades humanas se manifestam de maneira mais evidente e onde suas mais bizarras e repreensíveis distorções são prontamente escondidas.

Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da “sociedade” e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, das quais apenas algumas ali saciadas.

Corpos sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?

São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossas acolhedoras casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do quê nos fizeram.

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4 Comentários so far
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Belo Texto meu querido Gerson….. realmente as viagens de trem, metrô e ônibus proporcionam momentos únicos..

Grande Abraço!

Comentário por Diego Bonel

Lindo o texto!!!

Parabéns….

Comentário por Math

Demorou, mas estou aqui para comentar. Só estava esperando o texto mais oportuno…rs.

Nós nunca vimos de tudo nessa vida, não é verdade? Mas apenas olhos mais atentos e sensíveis captam instantes que poderiam ser feitos apenas de piada e indiferença. Gostei do seu ponto de vista – muito humano.

Adorei esse trecho: “O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado”. São tantos julgamentos e pudores para aquilo que é uma manifestação pura de vida, e pronto. Será possível sexo ser encarado novamente com naturalidade? Humpf.

Bueno, vou tentar aparecer mais vezes por aqui!

Beijos, dear…e belo texto!

Comentário por Silvia Paladino

fala freitas, é o modo como chamo teu pai, vc foi muito feliz, na sua reflexão, o modo como enxergou aquela situação inusitada, vc ta parecendo DEUS, rzss, do nada vc tirou tudo, abraço.

Comentário por alan marcelo




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