Domínio Público


Joseph Ratzinger, no Brasil e na mídia by Gerson Freitas Jr.
8 maio, 2007, 6:05 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, religião, sociedade

Algo soa meio fora do lugar na maneira como a mídia cobre a visita de Joseph Alois Ratzinger, o Papa Bento XVI, ao Brasil. Parece haver um processo contido de catequização, uma cristianização do discurso, mesmo quando crítico. 

Na telinha, a repórter anuncia, em tom de virgem vestal, os passos de sua santidade antes da viagem à América do Sul. Outra relata milagres e mistérios em envolvem Frei Galvão, que nesta semana se torna o primeiro santo brasileiro. Tudo ocorre de forma lúdica, mística, envolta em renovada fé católica.

Que não se despreze ser Ratzinger o líder da maior instituição religiosa do mundo, com alguma influência sobre a fé de pelo menos 20% da humanidade. A igreja católica é também a organização mais antiga de que se tem notícia, com quase dois milênios de história e papel determinante na construção dos valores ocidentais – do que ainda lhe resta uma nada desprezível influência política.  Por isso, o papa é notícia. Não se discute. 

Mas com sua habilidade de se apropriar e transformar qualquer coisa em um espetáculo vendível, a mídia despe-se do espírito laico e adentra o átrio religioso. Capitaliza sobre a fé coletiva relega ao segundo plano a posição crítica que deveria motivá-la.

A grande pergunta a ser feita é o que Bento XVI tem a dizer aos brasileiros católicos (e não-católicos, se for a pretensão). Será que a imensa maioria está realmente preocupada em relação à proibição do uso da camisinha e de outros métodos contraceptivos? Será que os casais vão parar de transar antes do casamento? Será que vão parar de se divorciar e casar de novo sem as bênçãos do padre?

Parece muito, mas muito improvável mesmo.

Na verdade, ao homem do século 21, brasileiro incluso, a religião importa muito pouco nas decisões mais elementares, que envolvam aspectos morais e costumes. Em uma sociedade tão hedonista, a crença em Deus tem espaço apenas se não confrontada com o desejo de consumo, a busca pelo prazer e a realização das vontades individuais sobre as coletivas – algo que Ratzinger, bem como a igreja católica, já sacou muito bem. (Daí a pressão generalizada para se mudarem alguns pensamentos da igreja, quando caberia à igreja mudar o comportamento das pessoas – como defende, aliás, Bento XVI.)

O triunfo dos valores iluministas, traduzidos na ascensão da liberdade, da ciência e da razão sobre o obscurantismo totalitário da igreja, talvez a principal conquista da humanidade dos últimos séculos, emancipou o homem da igreja. Ao mesmo tempo, deu liberdade a todo e qualquer cristão para se manter sob o julgo da igreja, com seus ensinamentos e tradições, que não devem ser questionados sob a luz da razão, mas da fé, pessoal e intocável.

E, por isso, soa tão atrasada a postura momentânea e desonestamente católica dos meios de comunicação, concessões públicas na maioria, de transformar dogmas religiosos em objetos de discussão pública, como se estivéssemos todos (Estado incluso) sob tutela de um papa que, à luz da razão, tem posições arcaicas sobre temas tão importantes como o controle de natalidade em países pobres.

A não ser, é claro, que ele tenha coisas mais importantes a dizer em um país tão doente, desigual, violento e corrupto como o Brasil. Os microfones já estão esperando. Com a palavra, Joseph Ratzinger.

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4 Comentários so far
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[…] se divorciar e casar de novo sem as bênçãos do padre? Parece muito, mas muito improvável mesmo. Joseph Ratzinger, no Brasil e na mídia – Domínio Público Something sounds a little out of perspective in the way the media is covering […]

Pingback por Global Voices Online » Brazil: The Pope is Here - What Now?

o papa continua sendo Pop! E será cada vez mais…
quer queirámos ou não!

Comentário por oProfeTa!

Nesses tempos de completa liberdade e auto-suficiência espiritual, chega o representante principal de uma Igreja que se denomina “universal e única”, onde fora dela não há salvação, que tem um passado negro chamado “santa inquisição” que prega uma coisa e faz outra,teve e tem apetite voraz para amealhar riquezas através dos séculos e ainda ousou alterar, diminuir e mudar palavra de Deus sem o menor constrangimento com seus livros “apócrifos”.
A justiça divina triunfará: JESUS está voltando e aí veremos o que acontecerá a esses “santos”.

Comentário por Marco

O Papa é legal.
A Igreja é legal.

Comentário por liu




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