Domínio Público


Rainha do quintal by Daniela Moreira
10 maio, 2007, 10:03 pm
Filed under: Daniela Moreira

Lolita tinha longas pernas e corpo esguio. Era altiva, de uma nobreza que não estava no seu sangue mestiço, mas no brilho negro da sua silhueta de marquesa ou baronesa, sabe-se lá…

Dizem que quando pequena era espoleta e corria pelo quintal, fazendo as peraltices que todo filhote costuma fazer. Se é verdade, não sei, pois só me lembro dela assim, alta e elegante, passeando mansa e graciosa, dona do quintal.

Não foi a primeira cadela da família – pequenezes, collies e muitos outros vira-latas vieram antes –, mas para mim era como se fosse, pois das outras não me recordava.

E apesar do semblante de princesa, Lolita não tinha a empáfia dos poodles ou a arrogância dos dobermans. Era meio dálmata, mas sem pintas, pêlo preto e meias brancas. E mesmo linda, era doce e modesta.

Lolita foi soberana absoluta do quintal por uns bons anos. A dona acostumou-a a dormir na cama, e apesar das longas patas que faziam o dono dormir de pernas encolhidas, nunca foi de soltar pêlos no lençol e também não tinha mal-cheiro, como diziam os implicantes. Era uma jóia de cachorro.

Mas um dia a casa ficou agitada. A dona, que há tempos estava casada e queria muito uma menininha – até rezava pra Nossa Senhora, embora não fosse católica -, teve suas preces atendidas.

A primeira regalia perdida com a novidade foi o lugar na cama de casal, que agora ficara pequena demais para quatro. Lolita passou a dormir na sala, que não era espaçosa, mas afinal de contas dava para o gasto.

Os meses passaram e veio a menininha. Linda, uma boneca. Porém alérgica. Mal Lolita entrava no quarto, curiosa pra ver a menininha e cheirar aquele cheirinho novo que tomara conta da casa, e o narizinho do bebê ficava vermelho, começava o espirra-espirra, um Deus nos acuda.

Pelo sim, pelo não, Lolita não foi expulsa só do quarto. Passou a dormir no quintal, em uma casa bem simpática, com telhadinho vermelho e janelinha, que o dono construiu com habilidade. Era uma boa casa, pra cachorro nenhum botar defeito, mas não combinava com a majestade de Lolita.

Eu, que nesta época já era um pouco mais velha, comecei a achar tudo aquilo muito injusto. Não que não gostasse da menininha, gostava. Mas ver Lolita ali naquela casinha de madeira, embora simpática, me cortava o coração.

Não só porque Lolita era princesa, mas porque era também tão boazinha, um amor de cadela, daquelas que se tira o osso da boca sem sofrer um arranhão. Era uma rainha generosa e resignada, e manteve a graça, embora por esses tempos tenha começado a ficar um pouco melancólica.

Mais uns anos passaram e veio o menino. Aí as coisas pioraram de vez. Ele era arteiro e corria desenfreado com o andador pelo quintal, derrubando as plantas e passando rente às patinhas alvas de Lolita. Para o bem do cão e do menino, criou-se um cercado para o cão.

Lolita não fez pirraça, foi como uma lady para o seu novo canto. Era difícil esticar as longas patas ali e acho que desde então nunca mais a vi passear altiva pelo quintal. Passava grande parte do dia deitada, com o focinho apoiado nas patas.

De longe eu olhava para o cercadinho e via Lolita lá, com o rabo entre as pernas e um olhar distante, de cachorro sem dono.

O tempo passou mais ainda e ninguém mais dava conta de Lolita. Até eu, que no começo sentia pena, me ocupei de outras coisas, e muito de vez em quando passava pelo cercado, mas olhava pro outro lado pra não ver Lolita me fitando, com aquele olhar tristonho, as patas encolhidas e as orelhas murchas.

As crianças cresceram e um belo dia inventaram de aparecer em casa com uma nova cadelinha. Foi a sensação da casa por umas três semanas. Espoleta, saltava pra lá e pra cá com a energia dos jovens, fazia gracinhas e chegou a dormir umas duas noites na cama da menininha.

Mas a folia acabou depressa e Lilica também acabou no cercado. Lolita, sempre generosa, acolheu a espevitada e abriu espaço em sua casinha de telhado vermelho pra outra se aconchegar. Não contente com o canto cedido, Lilica gostava mesmo de dormir por cima anfitriã e de vez em quando deixava cair as patas sobre os olhos tristes de Lolita, tampando o seu olhar perdido para o quintal.

Lolita nunca mais foi altiva, nunca mais foi rainha e aos poucos abriu-se a ferida, que nunca mais fechou – talvez por falta de cuidado da dona, talvez porque fosse mesmo incurável, talvez porque Lolita já não quisesse viver.

Digna, como nunca deixara de ser, gemia baixinho à noite, nunca fez escarcéu. Mas até Lilica, que era alegre, respeitou a dor da outra e entristeceu. O olhar de Lolita já não era imponente, suplicava. A morte rondava noite após noite, mas sem misericórdia – ou talvez reticente em ceifar alma tão delicada – não lhe levava.

Aos poucos, todo o quintal ficou triste também. Já não dava pra desviar olhar do martírio da cadela, que sequer conseguia se erguer para urinar. Não era morte que se desejasse nem para um cachorro.

Cansada da falta de atitude da dona, da indiferença da menina e do descaso do menino, minha mãe resolveu tomar providência e pôr fim no sofrimento de Lolita. A idéia de levá-la para um fim tão triste, ela que sempre foi tão doce, me pareceu traiçoeira. Quis contestar. Mas a lembrança de Lolita esguia, jovem, iluminando o quintal, em contraste com aquela sombra que se esparramava no cercado, inerte, agonizando, não deixava dúvidas. Uma princesa que já fora tão altiva e tão imponente não merecia uma aurora degradante assim.

Enrolada em um lençol branco, deitada no colo de minha mãe, ela foi em silêncio até o local onde tomaria a injeção letal. Fechou os olhos, como quem se prepara para morrer, quieta, serena, resignada. E morreu. Nunca houve outra rainha no quintal.

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3 Comentários so far
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Nossa, amor, que coisa triste

Comentário por vinacherobino

que triste…. parece a história do plutão, que virou música num dos CDs do palavra cantada, conhece? bjs

Comentário por Silvia

quero saber como ela é

Comentário por willian




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