Domínio Público


Show pro Povão by Eduardo Simões

Pedro e Gustavo almoçavam juntos e discutiam animadamente os principais assuntos da semana.

– Esses caras não têm jeito. Reclamam que nunca têm nada e quando recebem alguma coisa fazem arruaça, baderna. Não tem jeito, não dá para dar nada para essa gente -dizia Pedro.

– Que é isso cara. Pára de falar besteira. Os caras são oprimidos o tempo todo, até mesmo quando estão em um show. Meia dúzia exagerou ao extravasar e a polícia, para variar, chegou chutando tudo, tratando todo mundo como arruaceiro. É a desculpa que precisavam para abandonar ainda mais a periferia –rebateu Gustavo.

Não sou adivinho, mas seria capaz de apostar que discussões deste tipo foram travadas em várias mesas de bar, vários intervalos no escritório e em várias mesas de jantar depois da batalha campal na Praça da Sé durante show do grupo de rap Racionais MC’s. Difícil é saber quem tem razão.

Não dá para dar razão para a turma que subiu em cima de uma banca de jornal, o que certamente deu prejuízo para o jornaleiro, nem para a rapaziada que depredou uma lanchonete, cuja dona se lamentava no dia seguinte que não teria como reformar o estabelecimento “porque o faturamento não dava nem para pagar as contas do dia-a-dia”.

Por outro lado, também não há como ser ingênuo e acreditar que a polícia usou “apenas a força necessária para restabelecer a ordem” e que não cometeu excessos. Balas de borracha atiradas a esmo não são teleguiadas e podem atingir tanto o cara que acabou de quebrar uma vidraça quanto amigas que estão correndo no meio da confusão em busca de um lugar seguro.

Geralmente, a culpa é sempre de uma “meia-duzia” que se aproveita do anonimato proporcionado pela multidão para badernar e provocar tumulto generalizado.

A pergunta mais intrigante é: porque isso acontece? Será que é a população que não está preparada para uma idéia tão boa como a da Virada Cultural? Será que é falha de policiamento preventivo, que deveria evitar esse tipo de baderna?

Será que a solução é acabar com esse tipo de evento, já que o povo não sabe aproveitar, ou será que se deve insistir no modelo para que a população aprenda?

Talvez a questão seja outra, bem mais profunda e, por isso, atrai muito menos atenção das autoridades e vontade delas para lidar com o assunto. Talvez não adiante apenas dar o circo uma vez ou duas por ano. Talvez ajude dar à população uma presença mais efetiva do Estado, com escola se hospitais decentes, por exemplo.

Mas isso leva outra à questão. É a sociedade que prepara o criminoso ou cara que comete o crime nasceu com maldade e iria cometê-lo de qualquer jeito?

Do alto da minha falta de embasamento teórico arrisco um palpite meio em cima do muro. Os dois. Afinal, tem cara de classe média-alta que mata o pai e mãe, assim como tem –e como tem– gente extremamente pobre que nunca roubou, sequer para comer.

Enfim, isso tudo envolve uma longa e provavelmente cansativa discussão sociológica da qual eu não tenho competência para participar. Mas uma coisa é fato, se o governo não aparecesse só uma vez por ano para dar show de graça –o que é importante— e estivesse fazendo-se sentir no dia-a-dia de toda população, não ia acabar com as arruaças em shows e festas de comemorações de títulos, mas que ia diminuir ia.

Dizem por aí que um povo mais bem cuidado é um povo mais educado, vai ver é isso aí.

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1 Comentário so far
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Incidentes lamentáveis como este acontecem em eventos de massa em todo o mundo, com maior ou menor freqüência. Mas acho que você matou a charada quanto disse: “se o governo não aparecesse só uma vez por ano para dar show de graça –o que é importante— e estivesse fazendo-se sentir no dia-a-dia de toda população, não ia acabar com as arruaças em shows e festas de comemorações de títulos, mas que ia diminuir ia”. E, é claro, quando bateu na velha e boa tecla da educação.
Muito bem, meu caro!
Abraços

Comentário por Gerson Freitas Jr.




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