Domínio Público


Regratizando a exceção by vinacherobino
11 maio, 2007, 1:02 pm
Filed under: Análise da Mídia, blogs, Vinícius Cherobino

O discurso é típico de um domingo morto. No programa de auditório, naquele quadro em que se lembra da família e as celebridades todas choram, uma frase bate forte, cheia de emoção. “Qualquer um com um sonho pode chegar lá. Eu sou a prova que é possível chegar lá”.

Quem resiste? As lágrimas nos olhos, as palavras do gorduroso apresentador que falam de um dos melhores atores/cantores/músicos do Brasil, a platéia que mal respira, a sala de família que – finalmente – passa a ouvir o que diz a tevê. Todos juntos vão para frente meu povo, chorando junto com o pobre novo rico que volta: “não deixe de sonhar, gente, vocês podem chegar lá!”.

Então. Isso é mentira. Deslavada. Entenda. Da centena de milhares de atores/cantores/músicos do Brasil, apenas dez vingam. E, para tanto, foi feito de tudo um pouco para ‘chegar lá’. Muito mais do que sonhar, do que ter um pai lutador, do que ser íntegro, do caralho, da buceta. É o modelo. E o modelo não é medido pelo talento, como falam, é medido por uma série de fatores delicados que também podem passar pelo talento, mas envolvem sexo, conhecidos em cargos importantes, empresários influentes, entre um monte de outras coisas. E isso serve para qualquer profissão.

Só que ninguém vai falar isso. Não é interessante que as pessoas entendam este modelo, periga que elas percebam que ficar sentado assistindo tevê para descansar não é tão bacana assim e, pior, periga que eles simplesmente desistam de ir trabalhar bonitinho no dia seguinte e no resto da vida.

Veja, o título do post é espirituoso, mas simples: da exceção é feita a regra. E esse procedimento é uma das coisas mais cruéis da ideologia atual. Fazer alguém acreditar que pode realmente mudar a sua situação – mesmo que seja uma probabilidade estatística ridiculamente mínima (alguém falou da Megasena?) – está sendo mais do que suficiente para controlar a população e manter tudo exatamente como está.

Quer um exemplo? American Idol ou Ídolos. Sem parar de sonhar, centenas ou milhares de pessoas aguardam em fila sob o sol ou chuva e esperam a sua vez de entrar para a ter a “chance” de suas vidas. Depois de serem ridicularizados (muitos) ou elogiados (poucos) pelos juízes, uns três sobrevivem. A tal pirâmide é tão alta que sobra só um, lá em cima. E, veja, é só lembrar do resultado da primeira edição do programa brasileiro: isso não significa lá muita coisa.

Pensem comigo: Qual é a regra? Qual é a exceção? Para cada hit, há centenas de pessoas que dormem no chão e passam fome. E todo mundo só se importa com quem tá no palco. Não é perverso?

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1 Comentário so far
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Pois é, Vini… sabe o que eu descobri? Que TODOS os estudantes de jornalismo (com exceções,… claro) querem ser William Bonners e Fátimas Bernardes. Entram na fakul com essa ilusão. E alguém tem que dizer pra eles que não vão conseguir…. tadinhos.

Comentário por Silvia




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