Domínio Público


Somos laicos, graças a Deus by Gerson Freitas Jr.
14 maio, 2007, 5:24 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., internacional, política, religião

Mais de um milhão de turcos saíram às ruas de Ismir para dar um recado às autoridades: querem que Estado se mantenha laico, “alheio ao controle da igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos” (usando a definição do Houaiss). 

A santa exigência veio de encontro à possível eleição a presidente do chefe da diplomacia turca, o muçulmano Abdullah Gül, que integra o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), no poder.

Recado semelhante foi dado na quinta-feira, por estas bandas, pelo presidente Lula ao Papa Bento XVI. Ao recusar uma proposta de acordo com a igreja católica, o presidente disse que pretende “preservar e consolidar o Estado laico”. 

Uma grande notícia, nos dois casos.

Fundamentalistas religiosos sofrem uma pesada tentação pelo poder (embora estejam muito longe de ser os únicos a comer desse fruto). Mais do que o simples controle da máquina pública, há o cego desejo de se impor uma visão de mundo, considerada boa, perfeita e, portanto, não apenas desejável, mas necessária.

É uma tentação ideológica, muitas vezes compreensível. Que cristão mais fervoroso não gostaria de ver seu filho tendo aulas de religião na escola pública ou, pelo menos, ter a certeza de que a escola não vai colocar preservativos na mão de seu rebento? Se os professores de biologia lhe pouparem dor de cabeça e abrirem mão do evolucionismo no programa de aula, melhor ainda!

Poderiam se proibir também as cenas de sexo na TV, as bandas de rock de fazer apologia a isso ou àquilo, as drogas, o adultério, o casamento gay, a venda de bebidas alcoólicas, a mini-saia, o biquini, toda e qualquer forma de atentado ao pudor, à família e aos bons costumes.

“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança”, diz um salmo bíblico, a que se apegam muitos líderes cristãos – em especial de igrejas evangélicas, no caso brasileiro – para pedir apoio a irmãos de fé a cada eleição. 

Não percebem o quanto a relação entre fé e poder pode ser perigosa. Aliás, sempre que igreja e Estado se confundiram, houve derramamento de sangue, restrição das liberdades e atrasos imensuráveis nas ciências, nas artes e na filosofia.  Fecham-se as portas para o mundo, o ar fica rarefeito, viciado, empobrecido. Não à toa se chama a idade média de idade das trevas.

O grande problema de muitos religiosos é que do dualismo entre igreja e mundo parte a percepção de que um precisa necessariamente se impor sobre o outro, como em uma guerra entre bem e mal na qual os lados estão muito bem definidos. Ledo engano!

Como disse brilhantemente Leonardo Boff na Folha de ontem, “há bondade no mundo, como há maldade na Igreja”. “A Igreja que evangeliza deve ela mesma ser evangelizada por tudo aquilo que de bom, honesto, verdadeiro e sagrado puder ser identificado na história humana”, ensinou.  Para tanto, é preciso humildade e, sobretudo, tolerância – valores que encontram em um Estado livre o palco ideal para se desenvolver.  

O próprio Cristo deixou clara a separação entre igreja e Estado.  Certa vez, interpelado pelos fariseus se era lícito pagar impostos ao imperador César (Israel estava sob domínio do Império Romano), Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).

Depois, já no julgamento que levaria a sua morte, Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus” (João 18:36).

Por fim, “interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:20-21). Está dito!

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2 Comentários so far
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Uau…
É incrível como o poder pode mudar a cabeça das pessoas… Neste aspecto, vejo também que um estado laico nos evita de alguns males…

Comentário por Lemos

O discurso da Religião na Idade Média, o discurso do Estado na Idade Moderna e o Discurso do Mercado na Idade Contemporânea, em constante tensão, expressam o poder de saberes instituídos sob leis religiosas, jurídicas e de mercado. São monumentos da criatura humana, da ordem do impossível de governar, pois se encontram e se afastam do Saber infinito…

Comentário por Rosane




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