Domínio Público


Tic Tac* by Eduardo Simões
19 maio, 2007, 11:58 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões

Tic Tac

 

Algo lhe perturba. Desperta, olha para trás onde está o rádio relógio e vê que tem ainda pouco mais de 20 minutos de sono. Mas não dorme. Revira-se na cama tentando entender o que raios aconteceu para que despertasse antes mesmo do relógio. Quando começa a criar a terceira hipótese para o fenômeno, o relógio toca.

Reluta alguns minutos, reclama, está cansado. Bate o olho no relógio e ele lhe afirma: tem de levantar, já se passaram dez minutos da hora que já devia estar debaixo do chuveiro. Pragueja novamente, pega a toalha e vai pra debaixo d’água. Tenta tomar um banho rápido, passa o sabonete no corpo, lava o cabelo, se enxágua e pronto. Deve ter gasto uns dez, quinze minutos, pensa. Sai do banheiro e descobre que meia-hora se passou, já está atrasado e, pior, o banho não lhe bastou para tirar a sensação de cansaço.

Coloca a roupa às pressas, engole ferozmente um pão de forma com presunto e queijo e um copo de chá, vai ficar com aquilo até bem depois do meio-dia. Sai de casa dez minutos depois do que deveria e torcendo para que, ao olhar para os pés, não descubra que colocou um pé de cada par do sapato ou meias diferentes. Sente um alívio, não errou.

Entra no elevador e, enquanto desce lembra que precisa comprar um sapato, aquele já está quase se desintegrando, não cai bem ir trabalhar todo mulambento. Antes de chegar à garagem o elevador pára no primeiro andar, entra uma mulher com quem encontra todos os dias, mas não sabe o nome. Acena com a cabeça como quem diz bom dia, ela devolve o aceno e, como acontece todos os dias, enquanto um olha para o teto, a outra olha para o chão.

Ela desce no térreo, e ele começa a pensar que encontra aquela pessoa todos os dias há mais de dois anos e não sabe absolutamente nada da vida dela. Começa a imaginar como vive aquela mulher se é sozinha, se tem namorado, se mora com a mãe. De repente toma um susto. Enquanto divagava fora desperto pela buzina de uma motocicleta. Quando volta ao mundo real, numa das marginais mais movimentadas de São Paulo, toma outro susto. Um motoboy passa ao seu lado xingando e dizendo palavrões aos quais acabara de ser apresentado.

Se refaz do susto. O trânsito está parado e ele sabe, não há milagre que o fará estar sentado em sua mesa em cinco minutos, como deveria. O rádio que toca notícia também não lhe dá perspectivas muito boas.

Chega ao escritório mais cansado do que quando saiu de casa. Mal senta já começa a trabalhar, em ritmo frenético, não pára um minuto. A moça do elevador, o motoboy mal-educado, o cansaço, nada parece lhe incomodar agora. Não há tempo nem para o cafezinho, somente o barulho frenéticos dos dedos batendo no teclado.

Quando pensa no barulho pára por um instante. Sempre lhe chamaram de “catador de milho” pela maneira pouco ágil e até violenta com que bate nas teclas. Sorri. Uma voz o traz de volta à rotina. Essa voz lhe pergunta –com cara de quem quer saber se você pretende terminar a tarefa ainda antes do fim do expediente– se já terminara o trabalho. Ainda não, responde, antes de resmungar para si mesmo. Havia esquecido que uma pausa, mesmo que de cinco minutos, podia ser interpretada como vagabundagem ou dispersão. Num último pensamento antes de remergulhar nas letras, aspas e vírgulas, lamenta o ritmo frenético do trabalho.

Chega a hora do almoço e o corpo há tempos já reclamava alimento. Sutilmente é informado que, dessa vez, não poderá gozar da uma hora de almoço a que tem direito, pois o dia está corrido. Cansado e com fome, não tem forças para reclamar nem para si mesmo. Novidade será o dia em que puder fazer uma hora de almoço, pensa.

Na mesa do refeitório senta-se ao lado de um colega com mais tempo de casa. Reclama do ritmo, dos almoços de pouco mais de meia hora e da impossibilidade de levantar, às vezes, sequer para ir ao banheiro. O colega escuta atento, concorda, mas lhe afirma, não há do que se queixar, há gente em situação muito pior. De fato, pensa, há gente que sequer emprego tem. Então, imitando o poeta, se cala com a boca de feijão sem antes deixar de pensar que, talvez não devesse reclamar, mas devia se conformar?

Entre garfadas e pensamentos seu almoço demorara pouco menos que cinqüenta minutos. Chega á sua mesa, senta e, ao perceber o olhar condenatório de alguns, decide começar a trabalhar imediatamente deixando a higiene bucal para mais tarde.

A correria recomeça, não se lembrava mais da moça do elevador, da bronca com o despertador, do motoboy mal-educado, da velocidade com que bate no teclado, da carne mal passada do refeitório, de que não devia se queixar da vida e, nem mesmo, do gosto de alho que ainda carrega na boca.

O fim do dia se aproxima e o ritmo não se arrefece. Uma colega levanta, se despede e vai embora ás cinco da tarde em ponto. Novos olhares condenatórios e pequenos buchichos sugerindo a falta de comprometimento de quem sai no horário.

Entende o recado e, mais uma vez, como faz todos os dias, fica até mais tarde no escritório. Poderia ao menos ganhar hora extra, pensa, mas lembra que não deve se queixar.

Se despede, pega a mala e entra no carro. Sente o gosto de alho na boca e lembra que sequer escovou os dentes. Sente um nojo momentâneo de si mesmo, mas lembra que precisa comprar um sapato, que o que está usando já está em processo de desintegração. Decide rumar para um shopping ali perto.

Se afunda no trânsito caótico, chega no shopping faltando meia hora para ele fechar. Depois de quinze minutos tentando encontrar um lugar para estacionar desiste. Ainda assim tem que pegar o estacionamento, coisa de quatro reais. Se afunda de novo no trânsito caótico e volta para casa.

Exausto, está exausto. E ainda é só segunda-feira. Deita na cama e dorme. Seus sonhos? Não consegue mais sonhar, todos eles têm como personagens os colegas de trabalho, a música frenética dos dedos batendo nos teclados, o sapato que deveria ter comprado. Gostaria ao menos de poder sonhar com a moça do primeiro andar que ele sequer sabe o nome, mas não consegue. Amanhã, quando acordar, só vai lembrar da existência dela quando ela entrar pela porta adentro.

Não tem mais raiva do motoboy mal-educado, não tem mais nojo da sujeira nos dentes, com a qual foi dormir, aliás. Sequer se lembra de sua maldita mania de acordar antes do relógio mandar. Foi tudo tão corrido que só o que ficou foi o cansaço. E amanhã tem mais.

 

* Este post foi republicado pois havia apagado por causa da ação de um spammer. Um  recado aos spammers: Caiam mortos!

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