Domínio Público


Ocupantes by Daniela Moreira
24 maio, 2007, 7:41 pm
Filed under: Daniela Moreira

Confesso que quando ouvi as notícias da tal ocupação, achei molecagem. É o preço que se paga por envelhecer, já diria o nosso presidente. Essa gravidade que vai puxando a gente para a direita e nos deixando cada vez mais assustadoramente parecidos com nossos pais.

Tem a ver também com o fato de viver o clima Fefeléchi (como se pronuncia, carinhosamente, o acrônimo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo) todos os dias e conhecer de perto o “espírito revolucionário” que leva os companheiros fefelechianos – ou fefelechentos – a fazerem assembléia até pra decidir entre tomar cerveja na História ou na Química.

Pesam também as relações perigosas dos partidos canhotos (PSOL, PSTU, PCO e companhia) com o chamado movimento estudantil, que transformam líderes de grêmios em políticos de carreira. Pra não dizer que é papo de oposição, de alguma forma meu e-mail foi parar em um “Boletim da Ocupação” e, misteriosamente, hoje recebi na minha caixa de correio um spam do Partido da Causa Operária. Coincidência?

Pois bem, somando tudo, noves fora, confesso agora que achei molecagem mesmo – e digo com conhecimento de causa, de quem já vestiu nariz de palhaço em posse de reitor. Movimento sem pé nem cabeça, sem começo nem fim, sem agenda, sem pauta, meio assim, contra tudo e contra todos. Achei até que tinha mais a ver com arrumar um lugar novo pra fazer o churrasquinho de gato (não no sentido literal, pois quem transita pelos corredores da Fefeléchi sabe que os bichanos são muito bem tratados e têm até direito a moradia própria) que ultimamente andam promovendo na grama das Sociais.

Não que as demandas da “turma de estudantes” que a grande mídia, levianamente, classificou como “oportunistas” não sejam válidas. Que a universidade precisa de autonomia, não tem nem por onde começar a discutir. Quanto aos demais itens da pauta, que faltam professores, falta infra-estrutura, e, especialmente, falta verba para as “unidades amotinadas” – pois é, parece coisa de penitenciária – da USP, também é ponto pacífico.

Mas a despeito de tudo isso, o “movimento” me passava um feeling de Woodstock moderno, um ato meio vaidoso e intempestivo, mais pelo ato em si do que pelos fins. Os “companheiros” convidavam: “vamos dar um pulo na ocupação?”, como quem dá um pulo no boteco da esquina para dar alô para os amigos. Para ser muito honesta, nunca fui lá pra ver. Estava mesmo de má-vontade com os tais ocupantes, achando que há outras formas de fazer as coisas acontecerem.

Aí a coisa se prolongou demais, ganhou a grande mídia e veio o festival de bobagens. Entre gente dizendo que o nosso nobre governador “só quer transparência” e ordem judicial proibindo “atos ou protestos que causem transtornos e perturbações no campus” (sob pena de multa de mil pratas por dia), a velha “turma da moral e dos bons costumes” mostrou a cara.

É nessa hora, presidente, que o centro gravitacional se desloca e a gente – que não é presidente e tem só um quarto de século de vida – tem que dar uns passos mais à esquerda. Porque a demanda é antiga e persistente – e não oportunista -, deve se fazer ouvir, a despeito dos protocolos. Porque o ato pode ser atabalhoado, indeciso e um pouco impreciso, mas as razões, por múltiplas e dispersas que sejam, existem.

Quanto aos ocupantes, me redimo: quero acreditar que não são moleques que estão lá apenas por vaidade revolucionária, pra ter uma boa história pra contar. Que se lhes falta estratégia política, lhes sobra vontade de mudança. E que resta, apesar de tudo, bom senso.

Mas quero acreditar, principalmente, que saberão usar essa manobra um pouco desgovernada para fazer da ocupação um começo e não um fim.

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3 Comentários so far
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Dá uma força pra molecada, querida:-)

Comentário por Gerson

Dani…. se precisar acho que ainda tenho um nariz de palhaço em casa…. apesar de tudo.. da desorganização, da falta de tudo… foi uma noite única…..haha

Bjs

Comentário por Diego Bonel

Marmota querida….

Se precisar te empresto um nariz de palhaço que tenho guardado em casa…. Apesar de tudo, ou melhor, da falta de tudo, nossa manifestação foi uma noite única…. em que sentido não vem ao caso…haha

Bjs

Comentário por Diego Bonel




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