Domínio Público


Câncer by Daniela Moreira
14 junho, 2007, 7:19 pm
Filed under: Daniela Moreira

Junqueira entrou pela porta e o ar ficou rarefeito no escritório. Estivera fora uma semana, de licença paternidade – por absurdo que pareça alguém compactuar com o desejo de tal criatura de estender sua miséria ao legado da humanidade -, e nem mesmo a última semana do ano (aquela em que só trabalham os solitários, os sádicos e aqueles que trabalham para eles) fora tão tranqüila quanto a que terminara em um sexta tão alegre quanto aquela última, que tivera até happy hour em hora feliz: às seis em ponto.

Não é que nas outras sextas se tenha algo que realmente justifique enrolar à frente do computador até as oito da noite, horário em que o ânimo da tropa já foi pras cucuias e ninguém mais tem humor sequer para sentar à mesa e beber. É a presença de Junqueira, sempre ali asfixiante, sofrida, que oprime os subordinados e contagia os colegas e alimenta uma espécie de competição velada pelo título do funcionário mais deprimido e “atolado” do escritório.

Que fique bem claro, não se trata de produzir mais ou melhor. É um concurso de infelizes, que disputam quem é o mais flagelado pela triste rotina de vender copiadoras – que, aliás, não é a tarefa mais agradável da face da Terra, mas seria dez vezes menos sofrida não fosse embalada por esse espírito negro que Junqueira arrasta para dentro do escritório ao entrar todos os dias pela porta e que já se apoderou de uns e outros corpos dentro da divisão.

De vez em quando, Junqueira chega ao escritório de bom humor À primeira vista, todos desconfiam. Quando os colegas de baia ousam respirar aliviados diante da perspectiva de um dia mais leve, quiçá com um horário de almoço razoável e uma papo ameno no final da tarde, começam as ligações de clientes, um funcionário envia um e-mail com um ou dois erros de digitação, a planilha que o outro preencheu está fora dos padrões e pronto, tudo está perdido.

Junqueira distribui suas grosserias a granel, a quem quer que ouse cruzar seu atribulado caminho. É como se ninguém mais ali trabalhasse, um grande complô de incompetentes apenas tramando planos para testar sua paciência e sugar seu talento impar com erros e bobagens. Com semblante de mártir, Junqueira leva a mão testa e respira fundo, lamentando ter acordado mais um dia para viver essa vida medíocre e massacrante, essa terrível rotina povoada de inúteis.

Jorge, o chefe da área, finge que não vê. Não que os coices de Junqueira não sobrem para o seu lado também, mas com o patrão a patada é sempre mais leve, claro. Diplomático, prefere não arbitrar os conflitos e deixa os subordinados à própria sorte, “afinal todos são bem grandinhos e podem se defender”, ele deve pensar, como se a corda não arrebentasse sempre do lado mais fraco.

E Junqueira traz, afinal de contas, resultados para a companhia. Não é excepcional, mas é um bom vendedor. No mais, não é lá muito ambicioso, se contenta com o posto de subgerente de vendas que lhe deram quatro anos atrás, por isso, apesar do temperamento, é o funcionário perfeito para Jorge.

Assim sendo, Junqueira entra pela porta há 12 anos e há 12 anos o ar da empresa fica rarefeito, mas como acontece nas altitudes, o pulmão do escritório já se acostumou a respirar mesmo assim.

De vez em quando alguém leva a mão ao peito e acha que não vai suportar. Em seguida apalpa o bolso e então decide buscar um fôlego mais, que dure ao menos até o final do dia.

No mais, onde não há Junqueira, há Figueira, Pereira, Moreira e Barbosa, ou algum outro câncer qualquer.

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