Domínio Público


O meu tipo de zoológico by vinacherobino

Todos são explorados. Seria triste se houvesse alguma resistência. Não há resistentes. Eles podem sair duas vezes por dia, no máximo. Quando saem para comer e quando saem para voltar para a jaula, talvez tomem um sol, depende muito do dia, talvez comuniquem-se no idioma dos animais. De qualquer jeito, o tempo não é muito e eles não têm lá uma cara de quem está morrendo de prazer. Mas – tampouco – não parecem que caminham para a morte.

No resto do dia passam em observação pública. Restritos a uns poucos metros de espaço – um cubículo de metro e meio por uns setenta centímetros – mal andam, ficam a maior parte do tempo sentados, a cabecear, olhando para frente. O máximo de exercício possível está em mexer os dedos, ora lentamente, ora avidamente. Nas patas traseiras, umas sobem por cima da outra em uma atitude que um escritor barato chamaria de emulação do sentimento latente de fuga. Fuga que, diga-se, nunca se realiza.

Ficam em grupos, pelo menos, entre os deles. Mas como em todos os grupos de animais, há a criação de grupos menores e as suas subdivisões. Naturalmente, rivais das outras e com conflitos que – mal nascidos – já contam com histórias de séculos. Histórias mais baseadas em silêncios do que em ação, há pouco espaço até para ação nesse lugar. Mas, o escritor barato assopraria, nada mais do que uma ferramenta para manter a vida minimamente interessante. A esperança de cravar as presas no inimigo sempre é interessante, por mais que estes dentes arredondados não saiam da papinha cotidiana.

A pouca alegria reside no final do dia. Ah, a volta para a jaula. Educados, organizados, diria o barato escritor, uma boa e bela manada. Nenhum desastre na mão, só aqueles que foram concatenados durante o dia, que serão debatidos nos grunhidos do idioma animal na jaula, para entrarem nas histórias de séculos do dia seguinte. Mas, isso não importa, eles já passaram, já se encaminham para a jaula. Roteiro sagrado.

Não, escritor barato, agora não. Me larga. Está na minha hora, eu preciso ir para a minha aula. Não vejo a hora de ir hoje, vai demorar um pouco mais para eu voltar.

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1 Comentário so far
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Jaula.. aula… cubículos… a vida corporativa é uma selva, mas os espécimes já estão “domesticados”…

Comentário por Silvia




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