Domínio Público


Não-notícias by Gerson Freitas Jr.
3 julho, 2007, 4:21 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., política, violência

Descobri que não sou eu que estou passando por uma crise criativa. É o País que não tem assunto, que se obscurece no vazio das idéias, razão pela qual, semana sim, semana não, falto com os leitores deste Domínio. Afinal, qual é o grande tema em discussão hoje no Brasil, quais são os projetos de futuro nos campos político, econômico e social?

Desafio os leitores, poucos mas fiéis, e os companheiros de DP a apresentar alguma idéia, qualquer uma, em discussão no Congresso, na Mídia, na Mesa do Bar. Adianto que não aceito violência e corrupção, que mais parecem não-assuntos do que assuntos propriamente ditos, tão grande sua desutilidade. 

Matéria de violência e corrupção no Brasil é como cobertura de enchente no verão paulistano ou atentado terrorista no Oriente Médio. No início, choca, comove, impressiona, causa indignação. Depois, explorada à exaustão, cauteriza, deprime, desassombra, torna indiferente quem assiste.

Na editoria dos “escândalos políticos”, fala-se de Renan Calheiros e Joaquim Roriz. Há algumas semanas, eram o irmão do presidente Lula e o ministro das Minas e Energia, que renunciou. Meses atrás, eram os “aloprados” do dossiê contra Geraldo Alckmin que ocupavam as páginas dos jornais. Antes, passaram por lá José Dirceu, Luiz Gushiken,  José Genoíno,  Antônio Palocci, Silvio Pereira. 

E quantos outros, de tantos partidos e correntes, não monopolizaram os holofotes apenas por fazer o que não deviam ter feito, por destruir ao invés de construir, de negociar em vez de discutir?

Destaque para a atuação Polícia Federal: Operação Xeque-Mate, Navalha, Hurricane, Anaconda, Bingo, Caça-Níqueis, Dominó e aquela que resume o estado de espírito nacional – Decadência Total. Aliás, vale a pena dar uma passadinha no sítio da PF e ver a lista completa com calma.  

No noticiário sobre violência, ainda nos comovem casos como o dos pais assassinados na frente do filho de sete anos no Morumbi, da empregada doméstica agredida por “crianças” de classe média alta ou do menino João Hélio, arrastado também da memória e do centro da indignação coletiva para dar lugar a novos mártires – sangue novo aos lobos que deles sobrevivem. 

Já os inocentes mortos pela polícia no complexo do alemão parecem provocar menos protestos. Afinal, a maioria era mesmo suspeita! Aliás, temo que se a presunção de culpa que vale para preto e favelado fosse aplicada no Congresso, teríamos uma chacina “jamais vista na história deste país”.

Violência e corrupção, sem um debate sério sobre suas soluções, são não-assuntos, que em doses cavalares deixam a sociedade em estado catatônico, alienada ao mundo exterior, sem condições de deliberar sobre o próprio futuro. E essa sim é uma notícia, péssima por sinal, principalmente para quem se considerava o país do futuro.

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