Domínio Público


Meu primeiro acidente de avião by Daniela Moreira
20 julho, 2007, 6:18 pm
Filed under: Daniela Moreira

Era um dia de semana – lembro-me porque estava de uniforme azul royal, largada à sala, enrolando para fazer a lição de casa, como era de hábito naquela época. Tenho a sensação de que estava ao computador, mas não é bem uma certeza, embora meu pai tenha sido um dos primeiros a sucumbir aos encantos da maravilha digital.

De qualquer forma, estava fazendo qualquer outra coisa quando a trágica vinheta do Plantão da Globo, consagrada como single fúnebre – toda vez que toca, é porque alguém morreu – chamou minha atenção. Daquela vez eram 99. Era o Fokker 100 da TAM que tinha se espatifado no meio da vizinhança residencial que cerca o aeroporto de Congonhas, não muito longe da minha casa.

Não era a notícia propriamente dita – o acidente fora pela manhã, e se não me falha a memória, já na escola ficamos sabendo da fatalidade. Era uma lista. A lista de passageiros. À medida que a pessoa na TV lia os nomes uma a um, senti a garganta apertar e desabei a chorar, sozinha na sala.

Até hoje não sei direito o que foi. Acho que talvez tenha sido a primeira vez que tive a consciência da morte assim em bloco, em massa. Não que eu nunca tivesse ouvido falar em grandes tragédias, catástrofes e genocídios. Aos 15 anos, também já sabia que morria muito mais gente “a granel”, no trânsito, no dia-a-dia, pelas mãos da guerra urbana, do que nos desastres de avião. Mas ouvir os nomes repetidos um após o outro – e não apenas um número preciso, exato – me tocou de uma forma que nenhuma notícia antes tinha tocado.

Muitos anos e muitas tragédias depois, recebi a notícia do acidente com o Airbus, nesta semana, sem muito sobressalto, confesso. Em meio a um grupo de estudo, em uma quase deserta USP, a voz ao celular me informava que um avião tinha cruzado a avenida Washington Luiz – ponto de passagem no meu caminho de volta pra casa – e atingido um depósito da TAM.

– Alguém se machucou?, perguntei.

– Claro, a voz respondeu. Provavelmente ninguém sobreviveu.

Relatei o ocorrido aos colegas e, menos de dois minutos depois, voltamos aos infindáveis textos que ainda tínhamos que revisar para a prova do dia seguinte. Ao sair, mudei de caminho, tomando o cuidado de evitar a rota da colisão.

Em casa, liguei imediatamente o computador e comecei a navegar pelas capas dos principais portais na internet. Infográficos explicando a mecânica do acidente, fotos e comentários enviados por usuários, as primeiras hipóteses precipitadas sobre as causas do acidente, as providências do governo – tudo muito bem organizado, avaliei.

Desliguei o computador e deitei na cama, acompanhando a edição do Jornal da Globo inteiramente dedicada ao desastre – as mesmas informações em um pacote novo, audiovisual. Imagens áreas e terrestres do local do acidente, de vários ângulos, entradas ao vivo dos repórteres com chamas e cauda do avião com o logo da TAM ao fundo e os primeiros takes dos parentes consternados.

Tudo corria bem, até que lá para o final da edição um sóbrio William Waack sacou a lista com a confirmação dos primeiros nomes das vítimas. Eram poucos, seis ou sete, se não me engano, os primeiros em ordem alfabética.

Ao ouvi-lo pronunciando os nomes, um a um, com um silêncio impenetrável ao fundo, senti de novo aquele nó na garganta – o mesmo daquela tarde em 1996. Sozinha no meu quarto, desabei a chorar.

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1 Comentário so far
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Comovente, mesmo, Dani, tanto o acidente quanto o seu texto…. bjs

Comentário por Silvia




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