Domínio Público


Fiquei feliz com o título de 94 by Eduardo Simões
25 julho, 2007, 2:28 pm
Filed under: Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Pronto. Falei. Sei que foi uma grosseria tão grande quanto arroto ou flatulência à mesa de um jantar em um restaurante chique cuidadosamente preparado para se apresentar aos pais da sua noiva. Mas vou fazer de novo. Fiquei feliz com o título da seleção brasileira de 1994. Tirem logo as crianças da sala, afinal, esse vai ser o tema desse texto. O título de 1994.

Tenho minhas razões para ter ficado feliz com o título de 94. Não é uma coisa gratuita, não é um arroto moleque ou uma bufa desafiadora. É daquelas coisas que você não consegue evitar, escapa. Fiquei feliz com o título de 94.

Vibrei quando Roberto Baggio e seu cabelo ridículo mandaram a bola numa viagem só de ida de Los Angeles para Nova York. Vibrei de felicidade. Tinha 12 anos. Quando o desgraçado do Paolo Rossi mandou o Brasil para casa eu tinha alguns poucos meses de vida. Isso já é o bastante para eu achar o Paolo Rossi um desgraçado, mas não o suficiente para eu concordar com aqueles que não arrotam à mesa e dizem que a Copa de 94 foi aquela que ninguém quer ganhar.

Eu quis. E como. Lembro de cada jogo. Da estréia contra a Rússia, do gol de pênalti do Raí, lembro que ele perdeu a vaga na equipe titular para o Mazinho, que o Leonardo afundou a cara de um americano com o cotovelo, que o Branco salvou nossa pele contra a Holanda e que o Romário nos colocou na final com uma testada firme no meio de duas torres suecas.

Sou capaz de dizer de cabeça, com algum esforço, todos os placares do Brasil naquela campanha. De me recordar de onde estava e o que senti em determinados lances, de diálogos que tive ao longo das partidas e, até mesmo, da cadeirada que levei no tornozelo antes da cobrança do Baggio.

Enfim, guardo lembranças agradáveis daquele título. Foi a primeira vez que gritei “É Campeão!”.

E agora vem a heresia das heresias. Eu acho uma gigantesca hipocrisia dizer que a Copa de 94 é aquela que ninguém queria ganhar e acho um enorme absurdo colocar a seleção de 82 acima da de Romário, Bebeto, Taffarel e companhia. Pronto, novo arroto com direito a cheiro de mortadela na cara do cidadão que, há cinco minutos, seria meu futuro sogro.

Vi vídeos daquele time comandado por Telê Santana. Não os vi jogar, mas tenho as melhores referências sobre o futebol de Falcão, Zico, Sócrates, Cerezo, Junior. Oscar e tantos outros. Mas, se eles tinham várias qualidades que o time de 94 não tinha, o time do Parreira tinha uma coisa que eles não tinham, que foi o que levou ao primeiro título mundial em 24 anos.

Por isso, acho justo colocar esses dois times em patamar igual, afinal de contas, se eu decidisse que a de 94 está acima da de 82, só não seria pior do que vomitar no vestido novo da ex-futura sogra.

Por fim, os mesmos que hoje dizem que não gostaram do título de 94, há 13 anos pularam de alegria com a conquista. Eu me lembro bem, era um doente por programas esportivos naqueles tempos e não me recordo de um comentarista que seja afirmando: “Eu torci contra o Brasil. Acho que essa conquista foi um mal para o nosso futebol. Temos de resgatar o futebol-arte irreverente dos tempos de Falcão, Zico e Sócrates”.

Não tenho dúvida, ainda, que Falcão, Zico e Sócrates e até o Mestre Telê vibraram com a conquista daquele Mundial.

O ápice do golpe mortal na hipocrisia seria se Jô Soares pegasse o orelhão e gritasse a plenos pulmões: “Bota volante Parreira! Bota volante!”.

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1 Comentário so far
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Foi a vitória da produtividade sobre a arte, do jogo (em que importa ganhar) sobre o espetáculo. De todo modo, o futebol mudou uma enormidade nos 12 anos que separaram as duas copas, o que torna impossível dizer qual seleção (82 ou 94) era melhor. Mas ganhar é sempre bom e quase sempre melhor do que perder, jogando bonito ou feio. Também me recordo de cada momento da copa de 94, mais que das disputas seguintes. Mas que era difícil torcer por Taffarel, Jorginho, Aldair e Márcio Santos, Leornardo (Branco), Dunga, Zinho, Mauro Silva e Raí (Mazinho), Romário e Bebeto, isso era!!!

Comentário por Gerson Freitas Jr.




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