Domínio Público


Respostas by Daniela Moreira
28 agosto, 2007, 6:49 pm
Filed under: Daniela Moreira, direitos humanos, internet

Por Daniela Moreira

Larry Page e Sergey Brin não ouviram meu apelo, mas Carlos Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google Brasil deu uma entrevista para o IDG Now! com algumas respostas às indagações do post passado. Pelo bem da imparcialidade neste Domínio, aqui vai um resumo das principais:

Sobre os links patrocinados em comunidades criminosas: “Vamos reavaliar a ferramenta, pois a idéia é que os anúncios só apareçam em comunidades relevantes e com conteúdos apropriados”. Por enquanto, o sistema, que estava em fase de testes, foi tirado do ar.

Sobre o combate aos crimes na rede: “Temos feitos todos os esforços possíveis. É uma questão que nos aflige moralmente”. De acordo com Ximenes, o Google emprega mais de 80 profissionais que falam português nos Estados Unidos para monitorar o Orkut e comunidades e perfis denunciados não ficam mais de 48 horas no ar.

Sobre os números de páginas criminosas: “É claro que nenhum número é satisfatório, tem que ser zero”. O Google diz, contudo, que os dados da Safernet são discrepantes com seus próprios – embora não tenha apresentado dados para rebater os da ONG até o fechamento deste post.

Sobre a não-responsabilização do Google Brasil no processo: Segundo o executivo, a subsidiária brasileira deve passar a fazer o meio de campo, atendendo uma demanda de longa data do Ministério Público Federal em São Paulo. “É o caminho natural”.

No mais, tenho que confessar que o porta-voz, que confessou ter filhos pequenos, me pareceu deveras tocado com a questão e concordou com a indignação da repórter que vos fala.

Ficaremos atentos aos próximos capítulos da novela.



Uma prece by Gerson Freitas Jr.
24 agosto, 2007, 2:31 pm
Filed under: dia-a-dia, , Gerson Freitas Jr., religião

Por Gerson Freitas Jr. 

Já eram quase nove da noite quando ela se sentou à minha frente no trem que relutava em partir. Levantei os olhos e, em três segundos, retornei-os à leitura. Foi tempo suficiente para perceber algo de especial naquela garota de vinte e poucos anos, pele morena, olhos grandes e expressivos.  Talvez tenha sido a correspondência do olhar que, apesar de breve, foi suficiente para me constranger. Talvez certa inquietação. Há quem diga que as pessoas carregam e transmitem energias perceptíveis, embora não compreendidas, pelos que estão ao redor.

Vai ver foi isso.  Seja o que for, algo captara minha atenção. Tanto que, alguns minutos depois, já com o trem em movimento, atreveram-se novamente meus olhos a fixá-la.  Descobriram lágrimas e um pulso cerrado, que apertava com visível força um pequeno terço e servia de apoio à fronte que às vezes declinava.  Ela rezava.

Rezava imersa e exprimia dor, alheia ao mundo externo, à minha observação, aos dois adolescentes que brincavam com um mini game ao meu lado, à senhora negra que pedia esmola e carregava um imenso saco de pano nas costas, enquanto disputava espaço no estreito corredor com o vendedor de amendoins, ao senhor de camisa amarela que dormia no banco ao lado, às duas mulheres que falavam sem parar da novela e ao estudante de boné e camisa pretos que ouvia música e olhava, catatônico, para o vazio.

Quantos universos ali juntos! Quantas vidas e histórias, com suas delícias e dores, ódios e amores, planos, medos, sonhos e desilusões, um infinito e conflituoso emaranhado de sentir e pensar. E solidão…meu Deus, quanta solidão entre toda essa gente junta! E quanta fé daquele espírito sofrido. Sim, somos corpo, alma e espírito, trinos como Deus, imagem e semelhança Dele.

Impossível não pensar em quanto a dor e o sofrimento caminham juntos da fé e às vezes constroem pontes entre o homem e Deus, não por vontade Deste, mas por necessidade daquele. Não acredito, ao contrário de muitos cristãos, em um Deus maniqueísta, que controla os passos do homem, que a ele dá e tira, a um faz nascer pobre e ao outro rico, a um concede doença e a outro oferta saúde a fim de cumprir um propósito divino. Não acredito em carma, tampouco em destino. Caso contrário, teria de crer que Deus está por trás da fome, da violência e de toda forma de opressão. Impossível!

A humanidade é livre para fazer suas escolhas, e responsável pelos seus atos. De nada adianta bilhões de boas almas clamarem pelos famintos do mundo; há que se distribuir alimento e renda. Tampouco adianta rezar pela Terra; há que se cuidar dela. Deus não tem o menor compromisso em resolver os problemas que são do homem, por maiores sofrimentos e angústias que carreguem. 

Mas creio, de todo o coração, no efeito da fé individual, sincera, pura, desprovida de interesses, que move as montanhas que ninguém vê. A fé que não apenas aproxima o homem de Deus, mas é capaz de atraí-lo ao interior de um vagão de trem, entre mendigos e vendedores de amendoins, para simplesmente dar colo e conforto a quem chora por um pouco de paz…



Espaço em branco by Daniela Moreira
23 agosto, 2007, 2:48 am
Filed under: Daniela Moreira, direitos humanos, internet

Por Daniela Moreira

Digite no espaço em branco: Andrômeda. Vupt. Num vôo suave você percorre a imensidão do espaço e se desloca anos-luz da Terra, até o ponto exato onde está localizada a constelação, logo ali ao lado de Pégasus.

É o Google Sky, mais uma cortesia da empresa do simpático logotipo de bolinhas coloridas, que nos brindou com algumas das invenções mais bacanas dos últimos tempos – a começar por aquela página toda em branco, com uma simples caixinha no meio, capaz de responder todas as suas perguntas, e que revolucionou a forma como 9,9 em cada dez seres humanos “conectados” se relacionam com todo e qualquer tipo de informação no seu dia.

Se pudesse digitar ali naquele espaço em branco uma única pergunta endereçada não aos tais robozinhos treinados para trazer sempre as melhores respostas – ou as mais convenientes -, mas aos dois garotos brilhantes que estão por trás dessa invenção genial que mudou tão radicalmente o sentido da expressão “navegar”, a pergunta seria “por quê?”.

Por que é tão fácil mapear todo o globo, com seus 6 bilhões de ocupantes, para falar só da vida humana, e – não satisfeitos – todo o espaço sideral, que sabe-se lá quanta vida abriga, mas ao mesmo tempo é tão difícil dar conta de um universo de pouco mais de 68 milhões de faces virtuais, cada qual com seu endereço IP, o cordão umbilical que liga o perispirito digital à gente de carne osso?

Por que, se o mapa está ali a dois ou três cliques, e se é possível até ver de perto o Cristo Redentor – uma das sete novas maravilhas do mundo moderno -, se até na terra da garoa vocês estiveram, vestindo a camisa da seleção canarinho e tudo, é tão difícil olhar por um instante para este país de dimensões continentais, onde a sua corporação de 161 bilhões de dólares, não por acaso, fincou bandeira em expedição comercial?

Por que é mais simples colocar a Lua, Marte, Vênus, sem contar 100 milhões de estrelas e 200 milhões de galáxias dentro dos nossos computadores do que responder a 233 apelos para prender gente da pior espécie, que estupra crianças de dois, três anos de idade, tortura animais a sangue frio e promove toda sorte de atos inescrupulosos, impiedosos e indignos de pertencer à categoria humana, e que anda livre por esse microcosmo que vocês brincaram de inventar?

Por que uma companhia que tem como filosofia “you can make money without doing evil” e que fatura 10 bilhões de dólares ao ano, precisa exibir links patrocinados de pet shops em comunidades de violência contra animais e propaganda de sexo barato em comunidades pedófilas?

Por que se, enquanto seres humanos, não somos dignos de um minuto da sua atenção, nem ao menos como estatística (potenciais clientes, para falar a língua dos cifrões) – 33 milhões de internautas, com recorde absoluto em horas navegadas, à frente dos norte-americanos, dos europeus ocidentais e até dos japoneses – merecemos ser ouvidos?

Finalmente, por que vocês – que colocam o universo ao alcance do nosso mouse – pensam que somos estúpidos o suficiente para acreditar que não há meios para impedir que conteúdos como estes sejam barrados, ou que somos ingênuos o suficiente para achar que alguém realmente está tentando?

Está certo, não é uma única pergunta. São muitas. Mas para quem supostamente tem todas as respostas, não deveria ser tão difícil dignar-se a dar uma ou outra de vez em quando.

Nota de rodapé: De janeiro de 2006 a julho deste ano, a ONG Safernet registrou 46 mil páginas brasileiras na internet acusadas de prática de crimes contra os direitos humanos, sendo que 94% delas estão no Orkut, rede social do Google. Quatro em cada dez destas páginas trazem conteúdo de pornografia infantil.

Há mais de dois anos, o Ministério Público Federal tenta obter a quebra de sigilo dos perfis e comunidades criminosas no Orkut sem sucesso. Embora o Google tenha subsidiária constituída no País, as informações devem ser solicitadas à matriz da empresa nos Estados Unidos, que freqüentemente envia dados incompletos e insuficientes, e falha em preservar registros, segundo o MPF.

De acordo com a sua assessoria de imprensa, o Google não se pronuncia sobre o assunto.



Uuuuuuuuuu by Eduardo Simões
21 agosto, 2007, 3:29 pm
Filed under: comportamento, Eduardo Simões, golpe de Estado, política, sociedade, vaia

 Por Eduardo Simões

A vaia entrou na moda. Primeiro a polêmica gerada pela vaia para o Lula no Maracanã em plena abertura do Pan, que provocou até um breve e silencioso golpe de Estado.

Depois, teve gente que se cansou e começou a espalhar seu grito, um tanto golpista, de “Fora Lula” em algumas manifestações, acompanhadas de mais vaias.

O barbudo não gostou, é lógico. Disse que ficou triste com as vaias do Pan e, quando foi visitar uma certa terra de Garotinhos e Garotinhas, novos “abucheos”, como dizem os espanhóis. Mas desta vez o amigão e anfitrião Sérgio Cabral saiu em defesa do companheiro.

Sem pestanejar lançou um “seus pequenos burgueses” para a molecada que usava nariz de palhaço e puxou um “uuuuuuu” quase hilariante para cima dos manifestantes. Nunca antes na história desse país um governador lançou uma vaia tão engraçada. Do alto de sua experiência na vida pública, Lula ordenou que o amigo “nunca mais” se zangasse com essa coisa de vaia, afinal os apupos vinham de gente tão nova e “desprovida de consciência política”. Foi bom, não com a inspiração do “vaia de bêbado não vale” do João Gilberto, mas foi uma desqualificação do crítico quase tão boa quanto.

Nunca antes na história desse país vaias ganharam tamanha proporção. Se vocês querem saber, eu acho essa coisa de vaia um avanço na democracia brasileira. Há pouco tempo o descontentamento era demonstrado com ovos em ministros, agressões a governadores que tentavam furar bloqueios no acesso a secretarias e tortas na cara de dirigentes partidários em eventos públicos.

Por isso, eu concordo com o poeta concreto Augusto de Campos: Viva Vaia



Aniversário by Gerson Freitas Jr.
17 agosto, 2007, 3:12 am
Filed under: Uncategorized

Descobri meio que por acaso, mas vale o registro: o Domínio Público completa hoje um ano desde seu primeiro post. Foram 182 no total, com 364 comentários e pouco mais de 21 mil page views – números que estão longe de ser impressionantes, diga-se.

Mas tudo bem. Apesar dos poucos leitores e, muitas vezes, da falta de inspiração e de um certo saco cheio, escrever aqui todas as semanas continua sendo motivo de responsabilidade e, perdoem a contradição, grande prazer.

E, no final das contas, é arte, porra!



Endireita? by Gerson Freitas Jr.
17 agosto, 2007, 2:37 am
Filed under: Cansei, democracia, Gerson Freitas Jr., política

Por  Gerson Freitas Jr.

“Coloque asas numa estrela vermelha e você terá um tucano”, do blog do Movimento Endireita Brasil

O debatedor pergunta na TV: o Cansei (Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros) é legítimo? É, e não se discute. Em uma democracia, todos têm o direito de se cansar do que quer que seja e, é claro, de manifestar os motivos do cansaço. E não importa se os cansados são os representantes do que Cláudio Lembo um dia chamou de “elite branca”. 

A questão aqui passa a ser: o que o Cansei propõe para o País? Até o momento, nada. O Cansei soa mais como um desabafo, um grito contra “tudo o que está aí” – o que não é pouca coisa. Parece mais uma explosão emotiva diante do desastre aéreo do mês passado do que um movimento político organizado, ainda que tenha lá suas predileções político-partidárias fortemente contrárias ao governo Lula.

Está longe, portanto, de ser um movimento golpista, como acusaram membros do governo e o próprio presidente Lula. Se peca, peca pela superficialidade, a mesma que condena movimentos e protestos contra a violência ou a favor do meio-ambiente à total falta de efetividade.

Parece claro, contudo, que uma nova direita parece emergir na esteira dos últimos protestos contra o governo. Nova direita que, em si (seus princípios políticos, sociais e econômicos), não tem nada de nova, mas que se diferencia daquela que habita o debate político-partidário (e, desde sempre, o poder) por assumir-se como é. 

Desde a redemocratização, o discurso dominante nos governos e nos partidos que dele fizeram parte está mais próximo da esquerda do que da direita, por absurdo que possa parecer aos mais radicais.

Houve, é verdade, uma forte retórica liberalizante no início dos anos 90, especialmente nos governos Collor e FHC-1. Algumas reformas pró-mercado e privatizações dele brotaram, mas com alto preço político – tanto que, nas últimas eleições, Alckmin não conseguiu se defender quando Lula o ligou às privatizações da era FHC, como se acusado de algum crime sem defesa.

Por isso, chama a atenção quando surge um movimento como o Endireita Brasil, cujo porta-voz é um advogado de apenas 32 anos, candidato derrotado para deputado federal nas últimas eleições pelo antigo PFL.

Movimento que defende, para começo de conversa, “a primazia das liberdades individuais sobre o interesse coletivo” e “sólidos valores morais e éticos” . Em outras palavras, põe fim ao enfadonho discurso “do social” e coloca as cartas na mesa.

Para o bem, acredite, porque elucida o debate… E só.



Saia justa by Daniela Moreira
16 agosto, 2007, 3:29 pm
Filed under: comportamento, Daniela Moreira

Por Daniela Moreira

É o pesadelo de qualquer pai. Posso imaginar o sujeito chegando para a sua filinha de quatro anos para tomar sua boneca preferida.

– Então, filinha, a Rebeca vai ter que ir embora.

– Pra onde, papai?

– É que ela está doente e vai ter que ir pro hospital dos brinquedos – como explicar para uma criança de quatro anos o que é um recall – ainda por cima de briquedos?

A menina examina a boneca de todos os ângulos. Não se convence.

– Não tá não.

O pai muda de estratégia e resolve empurrar a explicação oficial.

– Filha, sabe as roupinhas, os chapeuzinhos e os sapatinhos da Rebeca? O pessoal que faz eles descobriu que eles podem machucar você.

– Mentira. A Rebeca nunca ia me machucar. Ela é minha amiga.

– É verdade, saiu até no jornal.

– Mas você sempre fala que o jornal só diz mentira.

– Mas nesse caso é verdade.

– Não. A Rebeca é minha. O Papai Noel que trouxe pra mim.

– Vamos fazer o seguinte: o papai compra outra pra você. Que tal?

– Não, eu gosto da Rebeca.

– Outra Rebeca, igualzinha.

– Não quero outra Rebeca. Quero essa Rebeca.

Sem opções, o pai confisca a boneca e ouve-se berreiro. Tirar brinquedo de criança é canalhice da grossa.