Domínio Público


O Brasil e a Copa by Gerson Freitas Jr.
1 agosto, 2007, 2:35 am
Filed under: economia, esportes, futebol brasileiro, Gerson Freitas Jr., infra-estrutura, Pan

Mal terminaram os jogos pan-americanos do Rio de Janeiro, e o Brasil já se prepara para tentar (de novo) sediar as Olimpíadas, em 2016. Mais, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) acaba de oficializar a candidatura do país para realizar a Copa do Mundo, dois anos antes – tudo com entusiasmado apoio do presidente Lula.

A realização de megaeventos esportivos foi quase sempre monopólio dos países desenvolvidos, que, afinal, têm estrutura e bastante dinheiro para investir nisso. Aos mais pobres, como o Brasil, restava olhar resignadamente pela TV as grandes arenas, as pomposas cerimônias de abertura, a organização impecável. E vislumbrar a vida em lugares onde as coisas pareciam funcionar de verdade.

Sim, Olimpíadas e Copas do Mundo sempre tiveram algo a ver com uma determinada imagem que nós, subdesenvolvidos, nunca poderíamos ostentar. Daí a dizer que o Brasil jamais poderia realizar qualquer evento esportivo, porque nossas cidades são sujas e violentas, o trânsito é caótico, os estádios velhos e sucateados. Há, claro, grande verdade nisso, mas exacerbada por um complexo de inferioridade que nos persegue faz tempo.

O Pan-americano do Rio de Janeiro parece ter mudado um pouco esse sentimento, para o bem e para o mal. Apesar de alguns problemas (para não falar nas quase evidências de corrupção), a cidade conseguiu fazer a lição de casa. Organizou uma belíssima cerimônia de abertura (para quem apostava esculhambações carnavalescas), apresentou algumas belas arenas, quase sempre com bom público, e garantiu um mínimo de segurança a turistas e delegações.

O Pan não é uma Olimpíada e tampouco uma Copa do Mundo, que exigiriam esforços muito maiores, mas foi mais do que suficiente para que se mudasse a pergunta que sempre precedia o desejo brasileiro de sediar esses eventos. Em vez de “o Brasil pode fazer?”, a questão que fica é “por que fazer?”.

Ainda não se sabe (aliás, como não se sabe?) quanto custaria a Copa do Mundo brasileira. Japão e Coréia teriam gasto cerca de R$ 14 bilhões. A Alemanha, que já tinha praticamente toda sua estrutura montada, investiu cerca de R$ 6 bilhões. O Pan do Rio custou quase R$ 4 bilhões. Não seria exagero projetar um investimento na casa dos R$ 20 bilhões para a Copa-2014. Não é pouco, ainda mais para um país com tantas necessidades em infra-estrutura de saneamento, moradia, transporte e logística.

Então, por que fazer?

Porque muita gente vai ganhar dinheiro com isso, claro. Mas também porque o Brasil, esse mercado “emergente”, parece sofrer da mesma mania de ascensão que contamina muita gente da classe média, que gasta o que não tem para ostentar um padrão de vida que a torce aceita pelo andar de cima. Gente que quer mostrar ser o que não é, que come sardinha e arrota caviar.

E não é segredo que esse tipo de gente acaba endividada, quebrada e, muitas vezes, rejeitada pelo grupo de que tanto quis fazer parte. O Brasil, que vislumbra a possibilidade de um novo ciclo de prosperidade, começa a dar sinais de que vai fazer (de novo)  as opções erradas – e assistir a um filme que, de novo, não tem nada.

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5 Comentários so far
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“Quase sempre com bom público”? Você viu o mesmo Pan que eu, Gersão? O Maracanã só foi lotar na final do futebol feminino, as partidas das outras seleções foram feitas para as moscas.
“Sem esculhambações carnavalescas”? O excesso de batucadas da festa de abertura levou muita gente a dar razão para o cara da delegação norte-americana que escreveu na lousa da sala de imprensa “Welcome to Congo”.
No mais, tirando a qualidade das arenas esportivas que são realmente boas, mas que serão entregues à iniciativa privada e dificilmente a ´população fará uso, qual herança o Pan deixou para o Rio? Segurança? Na Eco 92 foi a mesma coisa. Colocaram o Exércuto na rua (agora foi a Força Nacional) e depois do evento voltou a ser tudo como era antes. Sou capaz de apostar contigo que o mesmo vai acontecer. A infra-estrutura da cidade não foi melhorada para receber os Jogos. A prometida ampliação do metrô não foi feita. O Engenhão foi construído em um lugar de difpicil acesso, não houve preocupação em construir uma infra-estrutura ao redor que aumentasse a viabilidade do Estádio após o Pan.
Em suma, pelo preço que custou a realização dos Jogos, considero que o saldo foi extremamente negativo. Serviu até mesmo para mostrar que a cultura da torcida brasileira (tudo é futebol) não cabe em uma Olimpíada. Foram marcantes as imagens de atletas reclamando com os braços que não conseguiam ouvir o tiro que dá a largada das corridas por causa das vaias, das vaias, puxadas por um ex-atleta, contra os ginastas de outros países como se a ginástica artística fosse um Brasil e Argentina em final de Copa do Mundo.
E, no mais, como você mesmo disse, temos tantos outros problemas que é melhor deixar esse tipo de evento para quem é realmente organizado. Se for para fazer Jogos que não trarão melhoria nenhuma de longo prazo –como transporte, revitalização de áreas deterioradas, ampliação de aeroportos (sim, o Pan poderia servir até para isso), etc– é melhor não fazer. O dinheiro público agradece.

Comentário por Eduardo Simões

Não defendi em nenhum momento a realização do Pan e, tampouco, de Olimpíadas e Copa do Mundo por aqui. O que eu disse é que o Rio, com todos os problemas que existiram, se virou relativamente bem, e que o Brasil tem condições de sediar o que quiser. Acho uma opção muito, muito errada, como deixei claro no texto. O Brasil tem, claramente, outras muitas prioridades. Nisso concordamos.

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Aí é que está, eu nao acho que o Brasil tem condições de sediar o que quiser. pergunte às belas moças do softbol o que elas acharam do Pan?
abs

Comentário por Eduardo Simões

Faço questão de perguntar, meu caro, faço toda questão. Quero os telefones! Todos!!!

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Cara, vocë pegou um fetiche lascado nessa história de softbol ein? Não sabia que gostava de uma japinha.
abs

Comentário por Lusa




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