Domínio Público


Espaço em branco by Daniela Moreira
23 agosto, 2007, 2:48 am
Filed under: Daniela Moreira, direitos humanos, internet

Por Daniela Moreira

Digite no espaço em branco: Andrômeda. Vupt. Num vôo suave você percorre a imensidão do espaço e se desloca anos-luz da Terra, até o ponto exato onde está localizada a constelação, logo ali ao lado de Pégasus.

É o Google Sky, mais uma cortesia da empresa do simpático logotipo de bolinhas coloridas, que nos brindou com algumas das invenções mais bacanas dos últimos tempos – a começar por aquela página toda em branco, com uma simples caixinha no meio, capaz de responder todas as suas perguntas, e que revolucionou a forma como 9,9 em cada dez seres humanos “conectados” se relacionam com todo e qualquer tipo de informação no seu dia.

Se pudesse digitar ali naquele espaço em branco uma única pergunta endereçada não aos tais robozinhos treinados para trazer sempre as melhores respostas – ou as mais convenientes -, mas aos dois garotos brilhantes que estão por trás dessa invenção genial que mudou tão radicalmente o sentido da expressão “navegar”, a pergunta seria “por quê?”.

Por que é tão fácil mapear todo o globo, com seus 6 bilhões de ocupantes, para falar só da vida humana, e – não satisfeitos – todo o espaço sideral, que sabe-se lá quanta vida abriga, mas ao mesmo tempo é tão difícil dar conta de um universo de pouco mais de 68 milhões de faces virtuais, cada qual com seu endereço IP, o cordão umbilical que liga o perispirito digital à gente de carne osso?

Por que, se o mapa está ali a dois ou três cliques, e se é possível até ver de perto o Cristo Redentor – uma das sete novas maravilhas do mundo moderno -, se até na terra da garoa vocês estiveram, vestindo a camisa da seleção canarinho e tudo, é tão difícil olhar por um instante para este país de dimensões continentais, onde a sua corporação de 161 bilhões de dólares, não por acaso, fincou bandeira em expedição comercial?

Por que é mais simples colocar a Lua, Marte, Vênus, sem contar 100 milhões de estrelas e 200 milhões de galáxias dentro dos nossos computadores do que responder a 233 apelos para prender gente da pior espécie, que estupra crianças de dois, três anos de idade, tortura animais a sangue frio e promove toda sorte de atos inescrupulosos, impiedosos e indignos de pertencer à categoria humana, e que anda livre por esse microcosmo que vocês brincaram de inventar?

Por que uma companhia que tem como filosofia “you can make money without doing evil” e que fatura 10 bilhões de dólares ao ano, precisa exibir links patrocinados de pet shops em comunidades de violência contra animais e propaganda de sexo barato em comunidades pedófilas?

Por que se, enquanto seres humanos, não somos dignos de um minuto da sua atenção, nem ao menos como estatística (potenciais clientes, para falar a língua dos cifrões) – 33 milhões de internautas, com recorde absoluto em horas navegadas, à frente dos norte-americanos, dos europeus ocidentais e até dos japoneses – merecemos ser ouvidos?

Finalmente, por que vocês – que colocam o universo ao alcance do nosso mouse – pensam que somos estúpidos o suficiente para acreditar que não há meios para impedir que conteúdos como estes sejam barrados, ou que somos ingênuos o suficiente para achar que alguém realmente está tentando?

Está certo, não é uma única pergunta. São muitas. Mas para quem supostamente tem todas as respostas, não deveria ser tão difícil dignar-se a dar uma ou outra de vez em quando.

Nota de rodapé: De janeiro de 2006 a julho deste ano, a ONG Safernet registrou 46 mil páginas brasileiras na internet acusadas de prática de crimes contra os direitos humanos, sendo que 94% delas estão no Orkut, rede social do Google. Quatro em cada dez destas páginas trazem conteúdo de pornografia infantil.

Há mais de dois anos, o Ministério Público Federal tenta obter a quebra de sigilo dos perfis e comunidades criminosas no Orkut sem sucesso. Embora o Google tenha subsidiária constituída no País, as informações devem ser solicitadas à matriz da empresa nos Estados Unidos, que freqüentemente envia dados incompletos e insuficientes, e falha em preservar registros, segundo o MPF.

De acordo com a sua assessoria de imprensa, o Google não se pronuncia sobre o assunto.

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5 Comentários so far
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Matador, Dani. Dispensa mais comentários…

Comentário por Gerson Freitas Jr.

chato, né??? 😦

Comentário por Silvia

Parabéns, Dani, coisa linda. Me emocionei… A gente tá tentando.

Marcelo, MPF-SP

Comentário por Marcelo Oliveira

[…] como bem observou uma colega de trabalho, como pode uma empresa que traz constelações distantes ao usuário dentro de um navegador ou […]

Pingback por carta capital: o google brasil entre as estrelas e a escória | Chá Quente

[…] Mas, como bem observou uma colega de trabalho, como pode uma empresa que traz constelações distantes ao usuário dentro de um navegador ou financia um concurso milionário para incentivar a corrida espacial não conseguir identificar e limar conteúdo criminoso (pornografia infantil, notoriamente) do Orkut, seu fenômeno social entre internautas brasileiros? […]

Pingback por Entre as estrelas e a escória « CartaCapital




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