Domínio Público


Sobre “Pensamentos Quase Póstumos” by Gerson Freitas Jr.

Por Gerson Freitas Jr. 

O assalto sofrido pelo apresentador global Luciano Huck e a polêmica que sucedeu seu artigo na Folha de S. Paulo, no começo do mês, serviram para evidenciar que a discussão sobre violência no Brasil é, sobretudo, uma discussão elitista, com seu moralismo peculiar.

O desabafo de Huck, enquanto desabafo, é compreensível. Sabem-no todos os que já estiveram sob a mira de uma arma, como este autor. A sensação de impotência e fragilidade assusta, revolta e, por fim, deprime.

Mas, nas páginas do principal jornal do país, sob uma seção intitulada “Tendências/Debates”, não é mais do que um objeto de crítica, sujeito ao julgamento dos que leram ali também uma visão de mundo.

A visão do cidadão que, jura, paga todos os impostos – “uma fortuna” –, que passa o dia “pensando em como deixar as pessoas mais felizes” e fazer este país “mais bacana” – por meio da TV, que “diverte”, e a ONG que preside, “um trabalho sério e eficiente em sua missão” – do homem cujo “prazer passa pelo bem-estar coletivo” (e não tem dúvidas disso), mas que, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebeu balas de chumbo na testa e viu seu rolex, presente da esposa grávida do segundo filho, levado por dois assaltantes em uma moto.

Seria “manchete do Jornal Nacional” e no caderno policial da Folha – “e, quem sabe, teria uma homenagem póstuma no caderno de cultura”. Não veria seu segundo filho. “Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio”.

Huck não apenas escancara a presunção de quem se atribui uma importância muito maior do que realmente tem para o país, como, desconfio, reflete a imagem meritocrática que toda a elite brasileira – inclui-se a classe média – tem de si mesma.

Aquela visão do burguês honesto, moço de bem, que paga corretamente seus impostos, acumula fortuna com seu próprio esforço, milita numa ONG  e, por isso, tem o direito de exigir do Estado proteção contra os marginais que, sobre duas rodas, apontam uma arma em sua direção e lhe sacam o relógio.

Sutilmente (ou escancaradamente), faz-se, sim, uma perniciosa distinção de classe. O relógio roubado causa indignação, mas a chacina, o tráfico, o abuso de poder e as balas perdidas que correm os céus da periferia passam ao largo da comoção público-midiática, como se legitimamente pertencessem ao cenário e à vida das pessoas daquele lugar, onde até se fale em violência, mas NUNCA em segurança.

Huck afirma: “Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade”. Correto, mas pergunto: a segurança de quem?

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1 Comentário so far
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nenhuma linha sobre a resposta do Ferréz?
abs

Comentário por Lusa




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