Domínio Público


Ensaio sobre o Gênesis – Domínio e Liberdade by Gerson Freitas Jr.
17 dezembro, 2007, 4:28 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., religião

Por Gerson Freitas Jr

O Gênesis narra a Origem do mundo e do Homem segundo a fé judaico-cristã. Para além de sua questionável autenticidade literal, militarmente defendida pela Igreja, há um vasto campo filosófico e teológico a se explorar nesse livro.

Muito acima dos meios pelos quais se deu a criação, ali descritos, o Princípio oferece pistas importantes sobre o significado da existência e a relação do Homem com a Terra e com seu Criador, de onde emergem duas palavras capitais para sua compreensão: Domínio e Liberdade.

Adão e Eva. Mabuse, Século XVI

Gênesis conta que o homem (no hebraico, Adam) foi criado com poder para dominar sobre a terra (Adamah) – embora fosse Adão formado a partir dela (daí a semelhança dos termos no idioma original).  “Domine ele sobre os peixes no mar, as aves no céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Encham e subjuguem a terra!”, ordenou Deus.

Ao homem são entregues as chaves do planeta recém-construído. Ele se torna o livre gestor dos recursos naturais e de toda a vida existente debaixo dos céus. Adão tem a supremacia sobre um sistema dinâmico e vivo, que lhe garante tudo que precisa para viver de forma independente e multiplicar-se. À humanidade é dada como presente toda a criação que lhe precedeu.

Lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimentos para vocês. E dou todos os vegetais como alimento e tudo o que tem em si fôlego de vida”.

“O Homem se torna o livre gestor dos recursos naturais e de toda a vida existente debaixo dos céus”  
A maior demonstração de que Deus não criou o homem para que fosse subserviente está representada na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Gênesis conta que o Criador cultivou no meio do Jardim do Éden uma árvore cujos frutos seriam capazes de “abrir os olhos” do homem para o mal, o pecado até então ignorado.

Deus estava ciente do risco que corria toda a Criação se Adão e Eva experimentassem daquela árvore. “No dia em que dela comerem, certamente morrerão”, alertou. Mesmo assim, Deus não negou à humanidade a liberdade para escolher seu caminho, ainda que o livre arbítrio provocasse um colapso e até mesmo condenasse ao fracasso Seu plano divino.

E foi justamente o que aconteceu. Incentivados pela Serpente, Adão e Eva experimentaram o fruto proibido e tiveram suas vendas tiradas, de forma que não apenas passaram a conhecer, como se sujeitaram ao mal. Foi o homem amaldiçoado – e com ele, toda a Terra, parte dele, matéria-prima de sua composição. E, assim, entrou em desequilíbrio junto com a natureza. “Maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas”.

“Martin Luther King dizia que roubar a liberdade do homem é tirar-lhe algo da própria imagem de Deus”
Alguém pode perguntar por que o Criador permitiu que o homem sentenciasse sua própria condenação. Talvez a resposta passe pela afirmação de que não há vida sem liberdade. Martin Luther King dizia que roubar a liberdade do homem é tirar-lhe algo da própria imagem de Deus. E o homem é “imagem e semelhança de Deus”.

A importância desta reflexão está em que o Cristianismo ocidental desenvolveu e tem feito prevalecer a esquizofrênica tese de que todos os acontecimentos são fruto da vontade direta ou de permissão divina para o cumprimento de um Propósito – o que outras tradições religiosas chamariam, como mais precisão, de Destino.

Sob tal crença, toda a angústia humana – da dor de dente às grandes epidemias, das desigualdades sociais às opressões tiranas – subsistem na vontade de Deus, seja para punir os maus, seja para sadicamente educar os bons. Sob tal crença, o próprio mal exerce um papel utilitário a Deus.

Sob tal crença, apenas Deus – e mais ninguém – pode ser condenado por uma criança que definha de fome na África Sub-saariana. Sob tal crença, a revolta dos profetas judeus contra as injustiças sociais de sua época encontra em Deus seu maior alvo. Sob tal crença, a compaixão e o amor de Cristo pelos pobres encontram no Pai seu limite.

Mas Gênesis existe para lembrar que o Criador deu à humanidade a responsabilidade de traçar seus caminhos e escrever a história. E fomos nós que optamos por escrevê-la com a tinta da fome na África, da escravidão e injustiça em toda parte, das mortes por falta de hospitais e remédios no Brasil, do genocídio de Ruanda, das guerras mundiais e da bomba atômica no Japão, dos colonialismos europeus e dos grandes impérios dominadores do Mundo.

São os frutos de quem escolheu conhecer o Bem e o Mal, em toda a sua plenitude.

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2 Comentários so far
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parabens, junior bela reflexao!!!!!
Deus continue te abencoando

Comentário por wagner

ótimo… vc me surpreende a kda momento…
parabéns! gondim gostaria do seu texto… 🙂

Comentário por Joelma




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