Domínio Público


Passagem gloriosa by Gerson Freitas Jr.
26 janeiro, 2008, 3:34 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., internacional, justiça, liberdade, religião

Por Gerson Freitas Jr.

Os judeus crêem que há cerca de 3.500 anos o povo de Israel cruzou em terra seca o Mar Vermelho. Javé, comovido com o clamor dos hebreus, sob opressão do Egito havia quatro séculos, lhes prometeu seu próprio território, uma lugar onde manava “leite e mel”.

Do compromisso divino assumido com Moisés por meio de uma sarça em chamas à saída do Egito foram-se diversas ameaças e dez pragas. Os egípcios viram gafanhotos devorarem suas plantações, os rios transformados em sangue e seus primogênitos ceifados pelo anjo da morte.

Quando os israelenses já caminhavam pelo deserto rumo à terra prometida, o Faraó enviou seu exército e encurralou os ex-escravos contra as águas do Bahr el-Ahma. Conta a Torá que o mar então abriu-se milagrosamente para que os israelenses passassem. Em seguida, fechou-se sobre os egípcios, que morreram afogados.  

Gosto de pensar que as imagens da faixa de Gaza que correram o mundo nesta semana recontam, ao menos no plano simbólico, essa história: a de que não se pode oprimir ou confinar qualquer povo sob os olhos de Deus e de que toda dominação um dia sucumbe ao milagre da libertação. Pena que justamente Israel ainda não tenha aprendido.

Saiba mais: 350 mil palestinos de Gaza invadem o Egito para comprar suprimentos  

Milhares de palestinos destroem muro e invadem o Egito 

                 

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A equação das bocas by Gerson Freitas Jr.
21 janeiro, 2008, 6:15 pm
Filed under: educação, Gerson Freitas Jr., política, sociedade

Wagner Montes, pré-candidato a prefeito do Rio de Janeiro e líder nas pesquisas de intenção de voto, defendeu na semana passada a restauração dos velhos Cieps, as escolas de tempo integral criadas por Leonel Brizola nos anos 1980. Mas o que Montes conseguiu mesmo, com toda sua crueza de raciocínio, foi explicar em poucas linhas o porquê do desastre educacional brasileiro.

 

* O Estado de S. Paulo, 21/01/2007

Na cabeça do favorito para ocupar a cadeira de prefeito da segunda maior cidade do País, criança (criança pobre, é claro) é resumida à condição de boca mesmo quando o assunto é a sua educação. A discussão sobre a formação do caráter, os meios de estimular habilidades intelectuais e artísticas e o preparo adequado para o mercado de trabalho dá lugar a uma simplória equação de bocas, como se elas precisassem apenas de comida. 

A desgraça é que essa concepção utilitarista permeia o pensamento da maioria dos políticos destas bandas. Em seu discurso, a escola é sempre mostrada como o meio de garantir um assistencialismo qualquer, tempo para que as mães trabalhem ou mesmo uma pretensa proteção das crianças contra os “tentáculos da criminalidade”. Mas, nunca, como o espaço formador por excelência de cidadãos pensantes.

O Brasil vive um período de conveniente e escancarado desprezo coletivo pelo conhecimento, o que fica demonstrado não apenas nos péssimos resultados obtidos nas avaliações internacionais, mas na ascensão de políticos boçais como Montes, que prometem o manjado “livro pra comida, prato pra educação”. Mais um sinal de atraso no país do futuro: ser um país de muitas bocas e poucos cérebros.



Votos para 2008 by Gerson Freitas Jr.
5 janeiro, 2008, 5:01 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., justiça, liberdade, sociedade

Por Gerson Freitas Jr

O ano começa com o correio eletrônico cheio de mensagens que desejam basicamente paz, saúde e prosperidade. É a receita trina da felicidade e da completude, além do diagnóstico de uma certa estiagem criativa. Nada contra que me desejem um 2008 com “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”, mas eu particularmente acho pouco.

Sinto como se houvesse uma mediocrização das expectativas, dos sonhos e, por extensão, da própria vida. Nos tornamos mais limitados, insípidos…meio sem graça mesmo.

Parece ser mesmo o sintoma de uma era amaldiçoada pelo comodismo, mais pela incapacidade de enxergar alternativas do que pela satisfação presente. As ideologias sucumbiram ao pragmatismo, e as relações humanas banalizaram-se diante da egoísta busca pela satisfação pessoal. Não há espaço para as utopias e nem utilidade nelas. Vivemos num mundo em que nada sobrevive se não servir a uma finalidade boçal.

Não ampliamos horizontes, pois é mais funcional não pensar.  Não apuramos os sentidos, pois importa que nos habituemos com o trânsito caótico, o ar carregado, o mau cheiro dos rios, a poluição das praias, a propaganda dos outdoors, a música pasteurizada e o lixo da TV.

Perdemos a essência e inflamos o ego, que bate à porta dos templos da auto-ajuda em busca de pseudo-espiritualidade e fundamentalismo para dar sentido à bagunça do cotidiano. Desaprendemos a nos indignar e manifestar indignação, pois esses são tempos em que mais importa se emoldurar.

O que eu desejo para este ano, cada dia? Que degustemos a vida, as pessoas e a natureza, sem pressa nem ambições. Que prefiramos a frugalidade do momento que se vive às preocupações com o futuro.

Que possamos nos encantar com a música de Chico Buarque e a poesia de Vinicius de Moraes, experimentar a visceralidade de Cazuza e a espiritualidade do Sermão da Montanha. Que sonhemos os sonhos de Luther King e sintamos sua sede e fome de justiça. É disso que eu preciso – me embriagar de vida e me inconformar com este mundo.