Domínio Público


Tem coisas que é bom a gente nunca esquecer by Eduardo Simões

http://www.youtube.com/watch?v=bG89HhBqnig&eurl



Ufa! by Eduardo Simões
29 novembro, 2006, 1:50 pm
Filed under: Campeonato Brasileiro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Não é fácil ser torcedor da Portuguesa. Nunca foi, mas ultimamente tem piorado bastante. As chacotas não raramente viram piada de português que, também não raramente, perdem o senso de humor e se transformam em desrespeito a toda uma colônia. Acho que por isso é tão especial ser fanático pelo time do Canindé. Certamente a torcida lusa não é a mais numerosa, mas há de se convir que os poucos que acompanham o time com regularidade são, como diz meu colega de blog Gerson, provas de que ainda existe amor no futebol.

Seria fácil desistir. Seria fácil o clube acabar por absoluta e total ausência de torcedores nas arquibancadas. As sucessivas diretorias que passaram pelo clube na última década fizeram um esforço hercúleo para que isso acontecesse.

Fracassaram. Transformaram um time em ascensão em piada, mas fracassaram. Levaram o clube à falência, com jogadores bastante abaixo do mínimo exigido para empunhar a camisa rubro-verde, mas fracassaram. Alguns, poucos mas fiéis, torcedores seguem comparecendo, acompanhando as partidas, seja no estádio ou fora dele. Alguns poucos, mas fanáticos, ainda se importam e não se escondem, apesar dos vexames recentes e das inevitáveis gozações.

Seria fácil desistir. O que não é fácil é olhar para o Canindé e ver o estado em que anos de descaso o deixaram. É olhar para o parque aquático do clube, que já fez dele um dos campeões de associados de São Paulo, e ver que nem um suicida ousaria nadar naquelas águas. É olhar para o gramado onde já pisaram Dener, Zé Roberto, Zé Maria e Evair, só para ficar nos mais recentes, e ver alguns jogadores que, não por culpa deles, mas de quem os contratou, não estão à altura do que representa a Portuguesa.

Para muitos, que certamente não se preocupam em conhecer a história do futebol, a Portuguesa não representa muito. Assim como nomes como Djalma Santos, maior lateral-direito da história do futebol mundial, Zé Maria (o da Copa de 1970) e Jair da Costa, todos os três presentes nos três primeiros títulos mundiais do Brasil na mesma época em que defendiam as cores rubro-verdes. Isso sem falar em Julinho Botelho, segundo maior ponta-direita da história do futebol mundial e rei de Firenze, Brandãozinho, o Príncipe Ivair, o genial Enéas, o tricampeão mundial Félix, revelado nas categorias de base da Lusa, e tantos outros que injustamente deixo de citar para não fazer deste o maior post da curta história deste Domínio.

Não sabem ainda do esquadrão que a Portuguesa tinha na década de 1950, bicampeão do Rio-São Paulo, Campeonato Brasileiro da época, e base das seleções brasileiras campeã do Pan-Americano de 1952 e que disputou a Copa do Mundo de 1954. Desconhecem que a Lusa dos anos 1960 e 1970 rivalizava em campo com o Santos de Pelé e o Palmeiras da Academia (Ademir da Guia e cia.)

Mas quem vive de passado é museu, dirão os críticos. Ao que eu respondo: um povo sem passado não tem futuro.

E a direção da Lusa, ao longo dos anos, tem esquecido esse passado, tem apequenado o time e o clube. Por isso o passado recente da rubro-verde tem sido tão ruim. Por isso a vibração com um resultado aparentemente medíocre: a permanência na segunda divisão do Campeonato Brasileiro no último minuto da última rodada (com um pênalti legítimo, aliás, ao contrário dos muitos apitados contra a Portuguesa ao longo da história).

Permanência conquistada de forma épica, brigadora, digna da paródia com os Lusíadas e digna da Portuguesa, mas, ao mesmo tempo, muito pouco para esse clube e suas tradições.

Acende-se uma esperança, pelo menos. Por isso o grito de alívio, o palavrão em forma de desabafo, o desassossego em frente ao televisor, o sofrimento, e a felicidade no final. Ainda não estamos no fundo do poço, o que não deveria ser motivo de comemoração, mas quem não comemoraria a notícia de que um ente querido escapou do coma, embora ainda permaneça na UTI?

Que venha 2007 e que a paciente Portuguesa de Desportos receba alta (para a primeira divisão do Paulista e do Brasileiro). È difícil? De fato, mas quem torce pela Lusa está acostumado com todo o tipo de obstáculo e, afinal de contas, sonhar não paga imposto.



O melhor goleiro do Brasil by Gerson Freitas Jr.
28 novembro, 2006, 4:13 pm
Filed under: Campeonato Brasileiro, futebol, Gerson Freitas Jr.

Não faz muito tempo que os jogadores de futebol beijavam o escudo do clube quando eram apresentados à torcida. Era um ritual de lealdade, uma espécie de declaração de amor. Gostava daquilo, ainda que, uma ou duas temporadas depois, diante de alguma proposta mais interessante, o jogador beijasse a camisa do time rival, às vezes do maior rival,  deixando o torcedor do antigo clube com cara de esposa traída.

Alguns jogadores ficaram famosos pela cara-de-pau com que trocaram de amores e refizeram seus juramentos. Luizão, por exemplo, jogou por Vasco, Flamengo e Botafogo, no Rio, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, em São Paulo. Reza a lenda que beijou todas as camisas e disse que “sempre sonhou em jogar com esta camisa” em todas as ocasiões.

Talvez por esses exemplos, o ritual perdeu força de um tempo para cá. A maior parte dos jogadores evita beijar a camisa, fazer promessas, dizer que vai jogar no time de infância. Agora, todos se assumem profissionais! E, no futebol profissional, o que vale é dinheiro no bolso. Há de se pensar na carreira, na família, nos contratos. O clube é apenas, bem, um clube nesse imenso negócio.

Acontece que o futebol profissional é chato, exceto no que diz respeito à organização. Aliás, o profissionalismo e a racionalidade vão de encontro à natureza do esporte. O que leva um torcedor a tomar chuva no estádio, perder o humor quando o time é derrotado e desfilar com sua camisa quando vence é a paixão. E o que eu quero, como torcedor apaixonado, é ver os jogadores fazendo juras de amor pelo meu clube, digladiando-se em campo, provocando o torcedor adversário, beijando a camisa quando faz o gol.

É isso que explica o verdadeiro caso de amor que a torcida do campeoníssimo tricolor paulista tem com seu goleiro-artilheiro Rogério Ceni. Ele não convence apenas pelas atuações abaixo da meta ou pelas excepcionais cobranças de falta que já decidiram muitos jogos complicados. Gols fazem apenas craques, mas não os tornam ídolos. É a paixão que demonstra pelo clube, há quase 10 anos como titular do time, que faz 70 mil torcedores gritarem incansáveis no Morumbi: “Puta que pariu! É o melhor goleiro do Brasil”.

***
Ele reclama de ser o mais citado neste Domínio, mas aproveito a incursão futebolística para homenagear e congratular Eduardo Simões pela vitória da Portuguesa de Desportos no último final de semana. Nosso querido Lusa é a demonstração de que, no futebol, o que vale ainda é o amor à camisa.



Viva os pontos corridos by Eduardo Simões
18 outubro, 2006, 2:25 pm
Filed under: Campeonato Brasileiro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Lembro daquele ano de 2003. Pela primeira vez em sua história o Campeonato Brasileiro era realizado no sistema de pontos corridos. Cronistas esportivos da velha guarda se levantavam contra a idéia ferozmente. Diziam que a fórmula resultaria no esvaziamento das arquibancadas e em desinteresse pelo torneio. Alguns, adotando uma abordagem um pouco mais ideológica bradavam que a “cultura do torcedor brasileiro” não permitia tal formato.

Os anos passaram e estamos na quarta edição seguida de Brasileirão em pontos corridos. Ao término da primeira edição com a nova fórmula, aqueles mesmos críticos decretavam triunfantes sua vitória. Afinal, em 2003 o Cruzeiro foi infinitamente superior aos adversários, chegou aos 100 pontos, levou o título com rodadas e rodadas de antecedência e fechou anos-luz (13 pontos) à frente do vice-campeão Santos.

Mas nada como o tempo para abaixar o topete dos detratores dos pontos corridos. Os anos seguintes tiveram disputas emocionantes, decididas apenas na última rodada e, como um castelo de cartas, todos os mitos negativos sobre a disputa em turno e returno caíram, um a um.

Ficou provado que toda partida vale e os primeiros a entender isso foram os torcedores. Ficou provado que o campeonato em pontos corridos dá a chance de recuperação na tabela ao longo da competição. Atestou-se que, apesar do futebol ser uma “caixinha de surpresa”, organização e planejamento de longo prazo são capazes de levar uma equipe ao topo da tabela. Caiu o tabu de que equipes consideradas tradicionais têm de ser protegidas da segunda divisão.

E a maturidade parece ter sido atingida agora, na quarta vez em que o Nacional é disputado na mais justa das fórmulas de competição. Embora o que se avizinhe seja uma conquista tranqüila do São Paulo, ainda antes da última rodada do torneio, as disputas por vagas em torneios continentais e para escapar do fantasma da Série B ganham contornos cada vez mais dramáticos o que, apesar do desconforto e da violência, têm levado os torcedores ao estádio.

Com pelo menos duas vitórias de folga em relação aos adversários mais próximos, o São Paulo conseguiu o recorde de público do Brasileirão no fim de semana. Cinqüenta e cinco mil pessoas assistiram a goleada sobre o Juventude. Venhamos e convenhamos, se tivesse perdido a partida, ainda assim, o tricolor teria vantagem confortável sobre os rivais. Apesar disso, o público foi similar a da primeira partida da final do Brasileiro de 2002, entre Santos e Corinthians, disputada no mesmo Morumbi. E estamos falando de um jogo da 29ª rodada, de um total de 38.

Ainda há ajustes a serem feitos. Digo, na fórmula de disputa, não vou entrar na questão da organização e estruturação do esporte no país senão provoco superaquecimento e derretimento da placa-mãe do computador e não encerro o assunto.

A Copa Sul-Americana, por exemplo, precisa ganhar mais importância, ser disputada ao longo de todo o ano, junto com a Libertadores. A fórmula precisa ser a mesma da Liga dos Campeões e da Copa da Uefa. Torneios disputados paralelamente e ao longo de toda a temporada. Assim, você valoriza mais a disputa e abre espaço no calendário para que todos possam participar da Copa do Brasil, inclusive as equipes com vaga garantida na Libertadores.

A Copa do Brasil, aliás, deveria englobar todas as equipes das três divisões do Campeonato Brasileiro, como acontece na Inglaterra, Espanha, França, etc, etc, etc. E por que não pensar em um torneio de clubes com países das três Américas? Faz-se como na Liga dos Campeões. Fases preliminares para os campeões nacionais de países com menos força no esporte e com os quartos, quintos, sextos colocados de Brasil e Argentina. Aqueles que forem derrotados vão sendo “rebaixados” para a Copa Sul-Americana, que seria o genérico da Copa da Uefa, até que se conheça, ao fim da temporada, os vencedores dos dois torneios e, no início da temporada seguinte, o campeão da SuperCopa das Américas em partida única, assim como nas finais da Libertadores e da Sul-Americana.

E os estaduais? Eles podem ser o equivalente aos Ramon de Carranza e Tereza Herrera da Europa. Campeonatos eliminatórios e de tiro curto cuja única finalidade é ser preparatório para a temporada que se aproxima.

Resumindo, é uma idéia meia Simon Bolívar, meia “vamos copiar o que fazem os europeus”. E que só os competentes e bem organizados sobrevivam no futebol brasileiro, por mais que me doa no coração essa idéia, assim é a vida, pelo bem do esporte.