Domínio Público


E tudo acabou em calorosos abraços by Eduardo Simões
11 março, 2008, 11:33 pm
Filed under: América Latina, Chávez, Eduardo Simões, Farc, guerra, internacional

Por Eduardo Simões 

Palhaçada. É o mínimo que dá para dizer sobre o pastelão mexicano de uma semana armado por Chávez, Uribe, Correa e Ortega. Começaram a quebrar o pau verbalmente no sábado. Acusações aparentemente duras como “terrorista”, “mentiroso” e “boneco do imperialismo”, que não se espera num diálogo entre chefes de Estado, ganharam contornos infantis, como se aqueles marmanjos tivessem se xingado de “feio”, “bobo”, “chato” e “cara de fuinha”.

Que fique claro que este que vos escreve não estava animado com o cheiro de “sangre hermano” que ameaçava começar a pairar no ar. Basta ver meu post anterior, eu nunca achei que “as trombetas da guerra”, como disse Fidel, fossem soar por estas bandas. Mas venhamos e convenhamos que o desfecho desta crise mostra bem o caráter do típico líder latino-americano. Verborrágico, canastrão e viciado em holofotes e frases de efeito.

Basta dizer que, minutos antes do gesto quase bipolar de Correa de dar a questão por encerrada, ele e seu colega colombiano usaram palavras duras e ironias durante uma aparentemente pesada sessão de ataques pessoais. O presidente equatoriano, em tom de chacota, chegou a alertar o anfitrião da reunião do Grupo do Rio, o presidente dominicano Leonel Fernández, que se, por um acaso, Uribe suspeitasse que há membros das Farc em terras dominicanas, ele não hesitaria em bombardear o país.

Uribe respondeu dizendo que contaria com o apoio de Santo Domingo na caça aos guerrilheiros, o que não ocorreu com o governo de Correa em mais uma acusação de que o Equador apóia as Farc.

Todo esse duelo verbal, ameaça de processos internacionais, rompimento de relações diplomáticas e expulsão de embaixador para quê? Para tudo acabar na sexta-feira? Se um cara me chama de mentiroso e de assassino, ainda mais publicamente, eu vou querer que ele prove o que disse ou se retrate da mesma forma que fez a acusação: publicamente. Não esperar cinco minutos até que ele mude de idéia para então abraçá-lo e apertar sua mão.

Mas parece que no caso desses líderes latino-americanos o bacana é aparecer nos jornais, é ter a foto estampada no New York Times e no El Pais adornada por manchetes alarmistas prenunciando um conflito armado do lado de baixo da linha do Equador.

É por isso que eu concordo com quem fez o título da análise publicada no dia 11 de março pela Reuters: Chávez, o cão que ladra mas não morde. Correa, Uribe e Ortega podem se juntar a ele tranquilos.

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Guerra sul-americana. Será? by Eduardo Simões
3 março, 2008, 11:38 pm
Filed under: Chávez, Eduardo Simões, Farc, guerra, internacional, política externa

Por Eduardo Simões 

Eu duvido. Duvido mesmo que o Chávez vá levar adiante essa história de briga com a Colômbia ao lado do Equador e duvido também que uma guerra nos países vizinhos seja iminente. Até agora, em se tratando de ameaças na seara da política externa, o homem de vermelho mais falou do que agiu efetivamente.

Quantas vezes já não o ouvimos prometer que não venderá seu precioso petróleo para o Império do Norte? Várias. E quantas vezes ele foi até o fim com a ameaça? Nenhuma.  Parece-me que o lance de Chávez aí é outro. Para ele é bacana dar uma desestabilizada na já instável Colômbia. Ele não gosta do Uribe e o Uribe não gosta dele, mas daí a falar em ações militares, guerra continental, é ir um pouco além da conta.

Na verdade a incursão de militares colombianos em território equatoriano –vejam bem, equatoriano, não venezuelano– deve ter sido comemorada com fogos de artifício por Chávez. Esse fato lhe deu a chance de apontar publicamente o dedo na cara do desafeto e dizer que seu governo violou uma lei internacional. E de fato violou. Não se entra com o Exército em território de outro país sem a devida autorização.

O incidente também lhe dá a chance de fazer barulho. Anunciar a retirada de embaixador, a expulsão de diplomatas, o deslocamento de tropas. Tudo jogo de cena. Quantas vezes o ex-pára-quedista já chamou seu embaixador de volta de algum lugar? Da Colômbia não é a primeira vez e me lembro bem de um entrevero com o Peru quando Chávez chamou o então candidato e hoje presidente Alan García, que tinha o apoio do governo vigente, de “ladrón, corrupto, sin verguenza”.

Chávez já brigou até com o Senado brasileiro. Se tivesse que apostar diria que sua retórica é mais destrutiva do que as aeronaves militares russas Sukhoi que adquiriu recentemente.

Além do mais, pensem nas conseqüências. O combate à guerrilha por parte do governo colombiano tem o apoio aberto e expressivo dos Estados Unidos. Mexer com a Colômbia seria mexer com o homem que, por enquanto, ainda dá as cartas em Washington.  Para um lado ou para o outro, a França também é parte interessada nessa história, afinal, a principal refém nas mãos das Farc tem cidadania francesa e o presidente deste país já veio para a América do Sul tratar do assunto pessoalmente. Basta dizer que o homem morto pelas forças colombianas na incursão ilegal ao Equador era o contato do governo francês nas negociações para a libertação da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt.

Mas alguém pode dizer: “Pera lá, a coisa é séria. O Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia. É caso sério”. Ora, Bolívia e Chile também não mantêm relações diplomáticas formais entre si por causa da briga por uma saída para o mar no século retrasado. Isso não impediu encontros bastante amistosos entre o presidente boliviano Evo Morales e sua colega chilena Michelle Bachelet.

A única coisa que vejo nessa história toda que pode azedar o caldo e fazer a coisa ir além da retórica é esse documento que a Colômbia diz ter comprovando que Chávez mandou 300 milhões de dólares para as Farc. Isso pode tornar as coisas um pouco mais graves caso esse documento realmente exista. Se for fato não será a primeira rasteira que Chávez toma de Uribe. Basta lembrar o caso do menino Emanuel, filho concebido e parido pela política Clara Rojas quando era mantida refém pelas Farc. A guerrilha disse que tinha o garoto em seu poder, Chávez disse que conseguiria sua libertação e batizou a operação de resgate com o nome da criança. Mico total. A entrega não aconteceu na data combinada e Emanuel apareceu em um orfanato do governo colombiano.

Agora, essa é a briga do lobo contra o lobo ao quadrado. Uribe invadiu um país vizinho para caçar guerrilheiros que lutam contra o governo chefiado por ele. A pergunta difícil que vi pouca gente fazer é: o que guerrilheiros contrários ao governo colombiano estavam fazendo no Equador? Por que o governo equatoriano não demonstrou a mesma indignação com a presença de rebeldes que querem derrubar o governo de um país vizinho, com o qual tinha relações diplomáticas, em seu território? Por que não enviou os mesmos militares que agora vão fortalecer essa fronteira para combater essa presença?

E Chávez? Será que financiou mesmo um movimento armado em um país vizinho? O que ele fez para ser tão próximo das lideranças das Farc a ponto de fazer apelos públicos ao chefe da guerrilha? Por que se apressou em uma votação no Congresso venezuelano, comandado por ele, para retirar o status de “terrorista” de um grupo que seqüestra civis e os mantém sem tratamento médico adequado e acorrentados?