Domínio Público


O Boom Imobiliário by Eduardo Simões
5 novembro, 2007, 1:26 pm
Filed under: boom, dia-a-dia, economia, Eduardo Simões

Por Eduardo Simões

Nunca um boom em um setor da economia foi tão barulhento quanto a recente explosão na indústria imobiliária. Não só pelo ingresso de incorporadoras e construtoras em bolsas de valores, atraindo centenas de milhões de reais em investimentos. Não só pelas propagandas barulhentas e repetitivas que tomam de assalto rádio e TV ao som de clássicos da Música Popular Brasileira. Não só pelos panfletos distribuídos nas ruas que acabarão colaborando com a próxima enchente entupindo algum bueiro.

Por muito mais que isso, e para se ter certeza disso basta morar o lado de um desses empreendimentos em construção. A coisa começa pouco depois das sete da manhã com a colocação de estacas de fundação do edifício. De repente o cidadão se pega sonhando com um bombardeio na Terceira Guerra Mundial, acorda assustado e percebe que o barulho não é do sonho, é de um pesadelo real.

Bom, vá lá, há que se ter tolerância, afinal quando eles decidiram derrubar o velho casarão para abrir o terreno para o prédio você suportou, por que não suportar agora novamente?

O problema, e aí vem mais uma da série ‘se fosse em Lisboa era piada’, é que por volta de dez, onze da manhã, quando todo mundo já acordou, eles param com o barulho. Não seria mais sensato fazer a parte “não-barulhenta” às sete da matina e a parte barulhenta já perto do meio-dia?

Enfim, o importante é que de noite tudo estará mais calmo. Estará? Não é bem assim. Ora, o que se pode fazer se o caminhão que recolhe entulho não pode entrar na rua durante o dia? Simples, ele entra de madrugada e tira o entulho do terreno e o sono da vizinhança. Som e imagem agradáveis no pé da sua janela às duas da manhã, nada como morar num bairro tranqüilo, onde todos os terrenos já estão tomados, pena que alguém inventou a demolição.

E o pior, o boom imobiliário, com todas as conseqüências, principalmente sonoras, da palavra boom, também tem produzido preços escandalosos e barulhentos. Imaginem só um apartamento de meros 76 metros quadrados e dois dormitórios à bagatela de 330 mil reais. É o boom, meu caro, é o boom. Só que uma hora ele explode, mais cedo ou mais tarde, mas explode.

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Uma prece by Gerson Freitas Jr.
24 agosto, 2007, 2:31 pm
Filed under: dia-a-dia, , Gerson Freitas Jr., religião

Por Gerson Freitas Jr. 

Já eram quase nove da noite quando ela se sentou à minha frente no trem que relutava em partir. Levantei os olhos e, em três segundos, retornei-os à leitura. Foi tempo suficiente para perceber algo de especial naquela garota de vinte e poucos anos, pele morena, olhos grandes e expressivos.  Talvez tenha sido a correspondência do olhar que, apesar de breve, foi suficiente para me constranger. Talvez certa inquietação. Há quem diga que as pessoas carregam e transmitem energias perceptíveis, embora não compreendidas, pelos que estão ao redor.

Vai ver foi isso.  Seja o que for, algo captara minha atenção. Tanto que, alguns minutos depois, já com o trem em movimento, atreveram-se novamente meus olhos a fixá-la.  Descobriram lágrimas e um pulso cerrado, que apertava com visível força um pequeno terço e servia de apoio à fronte que às vezes declinava.  Ela rezava.

Rezava imersa e exprimia dor, alheia ao mundo externo, à minha observação, aos dois adolescentes que brincavam com um mini game ao meu lado, à senhora negra que pedia esmola e carregava um imenso saco de pano nas costas, enquanto disputava espaço no estreito corredor com o vendedor de amendoins, ao senhor de camisa amarela que dormia no banco ao lado, às duas mulheres que falavam sem parar da novela e ao estudante de boné e camisa pretos que ouvia música e olhava, catatônico, para o vazio.

Quantos universos ali juntos! Quantas vidas e histórias, com suas delícias e dores, ódios e amores, planos, medos, sonhos e desilusões, um infinito e conflituoso emaranhado de sentir e pensar. E solidão…meu Deus, quanta solidão entre toda essa gente junta! E quanta fé daquele espírito sofrido. Sim, somos corpo, alma e espírito, trinos como Deus, imagem e semelhança Dele.

Impossível não pensar em quanto a dor e o sofrimento caminham juntos da fé e às vezes constroem pontes entre o homem e Deus, não por vontade Deste, mas por necessidade daquele. Não acredito, ao contrário de muitos cristãos, em um Deus maniqueísta, que controla os passos do homem, que a ele dá e tira, a um faz nascer pobre e ao outro rico, a um concede doença e a outro oferta saúde a fim de cumprir um propósito divino. Não acredito em carma, tampouco em destino. Caso contrário, teria de crer que Deus está por trás da fome, da violência e de toda forma de opressão. Impossível!

A humanidade é livre para fazer suas escolhas, e responsável pelos seus atos. De nada adianta bilhões de boas almas clamarem pelos famintos do mundo; há que se distribuir alimento e renda. Tampouco adianta rezar pela Terra; há que se cuidar dela. Deus não tem o menor compromisso em resolver os problemas que são do homem, por maiores sofrimentos e angústias que carreguem. 

Mas creio, de todo o coração, no efeito da fé individual, sincera, pura, desprovida de interesses, que move as montanhas que ninguém vê. A fé que não apenas aproxima o homem de Deus, mas é capaz de atraí-lo ao interior de um vagão de trem, entre mendigos e vendedores de amendoins, para simplesmente dar colo e conforto a quem chora por um pouco de paz…



Eu odeio o caminhão de morangos by Eduardo Simões
1 agosto, 2007, 1:22 pm
Filed under: caminhão de morangos, comportamento, dia-a-dia, Eduardo Simões, saco cheio

Dez horas da manhã de uma terça. Quem acorda esse horário só pode ser vagabundo. Só pode. A não ser que você trabalhe numa porcaria de horário e tenha chegado em casa já na alta madrugada.

“O caminhão de morangos está na sua rua. Venha aproveitar. Há outras pessoas esperando.” Quem diabos se importa? Vá para o inferno ver se lá alguém se interessa pelos seus morangos.

Eu odeio o caminhão de morangos com todas as minhas forças. Sei que o cara está apenas tentando conseguir um troco para sobreviver, que provavelmente deve ter mulher e filhos para sustentar, mas é mais forte –muito mais forte– do que eu. Além do mais, eu não odeio o cara do caminhão de morangos. Eu nutro um profundo ódio pela instituição “caminhão de morangos”.

Primeiro que eu sequer gosto de morango. Depois que, além de barulhento, o caminhão de morangos é arrogante, em que pese o risco que sei que estou correndo ao atribuir emoções ou sentimentos humanos a uma coisa inanimada como um caminhão de morangos. Espero que enfermeiros munidos de camisas-de-força não interrompam a elaboração desse texto no meio.

Mas ele (o caminhão) é, de fato, arrogante. Ele acredita que sua presença é uma luz na vida das pessoas, como se fosse um messias. “Eu sou seu Deus, o caminhão de morangos. Venha já ouvir a voz da salvação que eu tenho que pregar em outras ruas.”

Juro que não poderia me importar menos onde está o caminhão de morangos, desde que seja bem longe da minha casa. Mas não, ele insiste. “O caminhão de morangos está na sua rua, venha aproveitar. Outras pessoas estão esperando.” Ora, então vá atendê-las e me deixe em paz.

Se eu fosse um cara violento ou fundamentalista, proporia uma jihad contra os caminhões de morangos. Criaria caminhões-de-morango-bombas para destruir a credibilidade da instituição “caminhão de morangos”.

Prefiria muito mais o caminhão de pamonhas que, além de vender um produto muito mais gostoso, não era tão arrogante quanto o caminhão de morangos. Ele só dizia “Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas fresquinhas. Venha experimentar essa delícia.” Não uma mensagem como “Hoje é o seu dia de sorte. O caminhão de morangos está na sua rua. Aproveite esse fato espetacular na sua vidinha pacata, tediosa e inútil e venha comprar logo, afinal eu não tenho o dia todo e existem várias outras pessoas muito mais interessantes que você querendo os morangos.”

Não sei se o leitor conseguiu entender a minha bronca. Mas o caminhão de morangos se daria bem, sei lá, na Argentina. Poderíamos mudar aquela piada e dizer que o melhor negócio do mundo é comprar o caminhão de morangos pelo que ele realmente vale e vendê-lo, na seqüência, pelo que ele acha que vale.

De todo modo, o resumo da ópera é esse. Eu odeio o caminhão de morango, mas eu sou normal. Há pessoas que odeiam o criado-mudo no qual topam com a canela todo dia ao acordar. Há outras que odeiam aquele poste maldito que insistiu em entrar no caminho do seu carro quando você dava marcha-ré. Eu também odeio uma coisa. O caminhão de morangos e tudo que ele representa: a arrogância moranguista.



Desconstrução by Eduardo Simões

Por que todo mundo diz que o Brasil perdeu a identidade com sua seleção de futebol se a Argentina –ok, vou falar bem deles—também tem uma maioria de atletas jogando na Europa, também só disputa amistosos na Europa, também vê seus craques saindo do campeonato local para a Europa cada vez mais novos e a gente não vê a imprensa Argentina dizendo que o time nacional não tem identidade com o país?

E essa história de direita ou esquerda, de destro e canhoto, de PT e PSDB, de DEM e de PSOL? Isso serve realmente para alguma coisa ou o inevitável e cruel destino é, depois de derrotas em três eleições presidenciais, a Heloísa Helena vencer o pleito de 2018, se tornar a primeira mulher presidente, todo mundo dizer que a mudança chegou e que a esperança venceu a medo para, logo no primeiro ano, todo mundo ver que era a mesma coisa?

Um Setúbal ou um Moreira Salles virar presidente do Banco Central, os “monetaristas” voltarem a triunfar sobre os “desenvolvimentistas”, os escândalos continuarem em profusão e uma ala de extrema esquerda do PSOL ser expulsa do partido para fundar uma nova legenda “guardiã do socialismo democrático” e propor CPIs e representações aos Conselhos de Ética aos milhões?

E a ação da Polícia e da Força Nacional de Segurança no Rio? Vai durar? Ou depois do Pan, todo mundo volta para casa e o morro volta ao controle dos traficantes? Não era mais fácil trocar ingressos na final do vôlei por uma trégua nos morros? Não morreria menos gente que não tem nada a ver com o tráfico?

E a atuação “republicana” e investigativa da Polícia Federal? Aliás, será que não estão banalizando a palavra “investigação”? Não seria melhor chamar de “grampeação”? Por que não mudamos a Constituição e não tornamos o grampo legal? Um órgão do governo ficaria encarregado de analisar os grampos de todos os brasileiro e por indiciar aqueles que são pegos no pulo. Desde o cidadão que admite que roubou um pãozinho até o mega corrupto usurpador dos cofres públicos. Seria a Grampobrás e, em seu estatuto, ficaria proibido a indicação de qualquer filiado do PMDB, o que diminuiria em 90 por cento as chances de ser loteada politicamente.

Aliás, e o Conselho de Ética? Quando vai ser merecedor do nome? Por que não, conselho de corporativismo? Ou esse nome deveria ser, na verdade, dado aos plenários das duas Casas do Parlamento?

E afinal, por que raios ainda discutimos a ditadura militar, os anos de chumbo? Por que mil demônios nos debatemos sobre quem foi bacana e quem foi feio, bobo, bocó e cara de fuinha naquele período, se aquele período já acabou há mais de 20 anos?

Se o caos nos aeroportos é o preço do sucesso, como disse o ministro da Fazenda, por que o “espetáculo do crescimento” não provocou um boom na venda de jatinhos?

Se o Catolicismo é a única maneira de salvação e a única religião de Cristo, como disse o papa, isso quer dizer que todo mundo que não for católico vai arder no inferno quando passar dessa para a pior (no caso, porque dizem que o inferno não é exatamente um lugar divertido)?

Será que não importa se você é uma pessoa correta, direita, honesta, cumpridora de seus deveres, ajuda o próximo quando pode, será que nada disso vale se você escolheu a religião errada? Quer dizer, se o cara é o santo na Terra e ele não escolheu “a única religião de Cristo”, ele vai arder nas chamas de Lúcifer?

Será que, além de ser honesto, não roubar, não matar, não cobiçar a mulher do próximo e todas essas coisas, o cara ainda tem que adivinhar qual a religião de Deus, qual a religião que Ele quer que sigamos? Se Deus é bom e misericordioso, por que todo mundo diz para as crianças: “se você não for um bom menino, Deus vai castigar”? Qual Deus é o da “verdadeira religião de Cristo”? O que multiplica os peixes para dar uma força para os pescadores, ou o que castiga as crianças que não se comportam direito?

Por que uma criança que morre ao nascer e, portanto não teve tempo de ser batizada, deve padecer o resto da eternidade no limbo? Que culpa ela tem por, ahn, vejamos, morrer ao nascer?

Por fim, será que um raio vai cair na minha cabeça nos próximos instantes, ou o chão vai se abrir sob meus pés ou terei o mesmo destino de Salman Rushdie ou José Saramago e serei condenado pelo que escrevi?

Se isso acontecer, vou fazer como Pedro. Não me sinto à altura de ser condenado à mesma coisa que esses caras muito mais legais, inteligentes e espertos do que eu. Crucifiquem-me de ponta cabeça.



Nem Vavá, nem USP, nem Parada Gay by Eduardo Simões
13 junho, 2007, 2:45 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões, escrever, saco cheio

Pois é leitor que eu sequer sei se existe. Cá estou após duas semanas de ausência para receber minha justa punição e para dar minhas injustificáveis desculpas por abandoná-lo nesses 15 dias.

Faltei com minha obrigação de deixar aqui alguma reflexão, pensamento ou simplesmente algo sem a menor utilidade todas as quartas-feiras. Ocorre, prezado leitor, que minha credibilidade e minha criatividade estão tão em baixa que, esses dias, ao recomendar a um amigo o filme “Os Infiltrados”, recebi um olhar de desprezo, pois ele achou que eu estava a sugerir a ele um filme pornográfico na frente de sua namorada.

E olha que não abandonei você, leitor que eu sequer sei se existe, por falta de assunto. Podia falar da ocupação da USP, podia falar que essa história de esquerda e de direita é uma mentira, fruto da necessidade das pessoas de encontrarem rótulos. Poderia ainda dissertar sobre a má fase da minha Lusa, ou sobre o fato de, em meio à ebulição de protestos vivida pelo país, não haver sequer um que se levante contra as várias evidências de corrupção em todas as esferas da República. Podia dizer que não se fazem mais movimentos em prol do bem comum, como as Diretas Já, mas apenas movimentos em prol do bem das minorias. Coisas corporativistas.

Podia gerar polêmica e dizer que a Parada Gay devia sair da Paulista, ser acusado injustamente de homofobia só por defender que uma das principais vias públicas de São Paulo fique livre e desimpedida na volta de um feriado prolongado. Quem sabe poderiam até insinuar que sou um gay enrustido por defender que a Parada ocorra no Sambódromo.

Podia ainda falar do irmão do Lula, do compadre do Lula ou do amigo do compadre do Lula. Em vez disso, leitor que eu suponho existir, calei. Não publiquei, não discuti, não debati.

Talvez por receio que você confundisse “Os Infiltrados” com uma produção pornô barata, ou que achasse que, se for para reclamar do seu time, faça isso na barraca de bolinho de bacalhau em frente do Canindé, não na tela do meu computador.

A verdade, leitor virtual, a mais pura e inconfessável verdade, é que eu estava sem saco. Sentava para escrever e perdia a vontade. Sei lá se a culpa é sua, como disse um colega deste blog certa vez, ou se ela é minha. O fato é que vários fatores, a esmagadora maioria sem nenhum nexo com este Domínio, me deixaram de saco cheio. E quem pagou a conta (ou foi beneficiado) foi você, suposto leitor.

Pode considerar um desrespeito, pode me xingar. Eu mereço mesmo. Pelo menos eu fui sincero com você. Dizem que o mundo seria melhor se as pessoas fossem francas umas com as outras. Vai saber.



Tic Tac* by Eduardo Simões
19 maio, 2007, 11:58 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões

Tic Tac

 

Algo lhe perturba. Desperta, olha para trás onde está o rádio relógio e vê que tem ainda pouco mais de 20 minutos de sono. Mas não dorme. Revira-se na cama tentando entender o que raios aconteceu para que despertasse antes mesmo do relógio. Quando começa a criar a terceira hipótese para o fenômeno, o relógio toca.

Reluta alguns minutos, reclama, está cansado. Bate o olho no relógio e ele lhe afirma: tem de levantar, já se passaram dez minutos da hora que já devia estar debaixo do chuveiro. Pragueja novamente, pega a toalha e vai pra debaixo d’água. Tenta tomar um banho rápido, passa o sabonete no corpo, lava o cabelo, se enxágua e pronto. Deve ter gasto uns dez, quinze minutos, pensa. Sai do banheiro e descobre que meia-hora se passou, já está atrasado e, pior, o banho não lhe bastou para tirar a sensação de cansaço.

Coloca a roupa às pressas, engole ferozmente um pão de forma com presunto e queijo e um copo de chá, vai ficar com aquilo até bem depois do meio-dia. Sai de casa dez minutos depois do que deveria e torcendo para que, ao olhar para os pés, não descubra que colocou um pé de cada par do sapato ou meias diferentes. Sente um alívio, não errou.

Entra no elevador e, enquanto desce lembra que precisa comprar um sapato, aquele já está quase se desintegrando, não cai bem ir trabalhar todo mulambento. Antes de chegar à garagem o elevador pára no primeiro andar, entra uma mulher com quem encontra todos os dias, mas não sabe o nome. Acena com a cabeça como quem diz bom dia, ela devolve o aceno e, como acontece todos os dias, enquanto um olha para o teto, a outra olha para o chão.

Ela desce no térreo, e ele começa a pensar que encontra aquela pessoa todos os dias há mais de dois anos e não sabe absolutamente nada da vida dela. Começa a imaginar como vive aquela mulher se é sozinha, se tem namorado, se mora com a mãe. De repente toma um susto. Enquanto divagava fora desperto pela buzina de uma motocicleta. Quando volta ao mundo real, numa das marginais mais movimentadas de São Paulo, toma outro susto. Um motoboy passa ao seu lado xingando e dizendo palavrões aos quais acabara de ser apresentado.

Se refaz do susto. O trânsito está parado e ele sabe, não há milagre que o fará estar sentado em sua mesa em cinco minutos, como deveria. O rádio que toca notícia também não lhe dá perspectivas muito boas.

Chega ao escritório mais cansado do que quando saiu de casa. Mal senta já começa a trabalhar, em ritmo frenético, não pára um minuto. A moça do elevador, o motoboy mal-educado, o cansaço, nada parece lhe incomodar agora. Não há tempo nem para o cafezinho, somente o barulho frenéticos dos dedos batendo no teclado.

Quando pensa no barulho pára por um instante. Sempre lhe chamaram de “catador de milho” pela maneira pouco ágil e até violenta com que bate nas teclas. Sorri. Uma voz o traz de volta à rotina. Essa voz lhe pergunta –com cara de quem quer saber se você pretende terminar a tarefa ainda antes do fim do expediente– se já terminara o trabalho. Ainda não, responde, antes de resmungar para si mesmo. Havia esquecido que uma pausa, mesmo que de cinco minutos, podia ser interpretada como vagabundagem ou dispersão. Num último pensamento antes de remergulhar nas letras, aspas e vírgulas, lamenta o ritmo frenético do trabalho.

Chega a hora do almoço e o corpo há tempos já reclamava alimento. Sutilmente é informado que, dessa vez, não poderá gozar da uma hora de almoço a que tem direito, pois o dia está corrido. Cansado e com fome, não tem forças para reclamar nem para si mesmo. Novidade será o dia em que puder fazer uma hora de almoço, pensa.

Na mesa do refeitório senta-se ao lado de um colega com mais tempo de casa. Reclama do ritmo, dos almoços de pouco mais de meia hora e da impossibilidade de levantar, às vezes, sequer para ir ao banheiro. O colega escuta atento, concorda, mas lhe afirma, não há do que se queixar, há gente em situação muito pior. De fato, pensa, há gente que sequer emprego tem. Então, imitando o poeta, se cala com a boca de feijão sem antes deixar de pensar que, talvez não devesse reclamar, mas devia se conformar?

Entre garfadas e pensamentos seu almoço demorara pouco menos que cinqüenta minutos. Chega á sua mesa, senta e, ao perceber o olhar condenatório de alguns, decide começar a trabalhar imediatamente deixando a higiene bucal para mais tarde.

A correria recomeça, não se lembrava mais da moça do elevador, da bronca com o despertador, do motoboy mal-educado, da velocidade com que bate no teclado, da carne mal passada do refeitório, de que não devia se queixar da vida e, nem mesmo, do gosto de alho que ainda carrega na boca.

O fim do dia se aproxima e o ritmo não se arrefece. Uma colega levanta, se despede e vai embora ás cinco da tarde em ponto. Novos olhares condenatórios e pequenos buchichos sugerindo a falta de comprometimento de quem sai no horário.

Entende o recado e, mais uma vez, como faz todos os dias, fica até mais tarde no escritório. Poderia ao menos ganhar hora extra, pensa, mas lembra que não deve se queixar.

Se despede, pega a mala e entra no carro. Sente o gosto de alho na boca e lembra que sequer escovou os dentes. Sente um nojo momentâneo de si mesmo, mas lembra que precisa comprar um sapato, que o que está usando já está em processo de desintegração. Decide rumar para um shopping ali perto.

Se afunda no trânsito caótico, chega no shopping faltando meia hora para ele fechar. Depois de quinze minutos tentando encontrar um lugar para estacionar desiste. Ainda assim tem que pegar o estacionamento, coisa de quatro reais. Se afunda de novo no trânsito caótico e volta para casa.

Exausto, está exausto. E ainda é só segunda-feira. Deita na cama e dorme. Seus sonhos? Não consegue mais sonhar, todos eles têm como personagens os colegas de trabalho, a música frenética dos dedos batendo nos teclados, o sapato que deveria ter comprado. Gostaria ao menos de poder sonhar com a moça do primeiro andar que ele sequer sabe o nome, mas não consegue. Amanhã, quando acordar, só vai lembrar da existência dela quando ela entrar pela porta adentro.

Não tem mais raiva do motoboy mal-educado, não tem mais nojo da sujeira nos dentes, com a qual foi dormir, aliás. Sequer se lembra de sua maldita mania de acordar antes do relógio mandar. Foi tudo tão corrido que só o que ficou foi o cansaço. E amanhã tem mais.

 

* Este post foi republicado pois havia apagado por causa da ação de um spammer. Um  recado aos spammers: Caiam mortos!



Marca, qual você persegue? by Eduardo Simões
12 abril, 2007, 1:44 am
Filed under: ambição, comportamento, dia-a-dia, Eduardo Simões, sociedade

Romário quer fazer mil gols, Michael Phelps quer ser o recordista de medalhas de ouro em uma única Olimpíada e Maradona quer bater Keith Richards no quesito “homem que viveu mais tempo curtindo a vida adoidado”. Todo mundo tem uma marca a ser buscada e, com alguma sorte, alcançada.

Homer Simpson e Barney Gumble disputam quem esvazia mais latinhas de Duff por minuto no desenho animado, enquanto, na vida real que mais parece piada, os parlamentares brasileiros brigam para ocuparem a profissão em que menos se trabalha no mundo.

Todo mundo, ou quase, busca uma meta, um recorde, um patamar. Tem aqueles que almejam atingir o nível de economias necessário para finalmente comprar um apartamento, tem outros cuja disputa de marcas é com a balança e tem ainda os que têm como meta passar menos tempo no escritório e mais com a família.

Tem as moças que juram que estarão casadas até os 28 anos e os rapazes que prometem continuar solteirões e “ativos no mercado” depois dos 35.

Todo mundo tem uma marca a ser perseguida. Qual é a sua? Nenhuma? Impossível! O que raios você quer da vida, sem metas, sem objetivos? Todo mundo tem um desejo, o maior sonho, qual é o seu?

Não existe quem não busque o sucesso profissional, pessoal, emocional, moral ou tantos outros “als” que você quiser e puder imaginar. Enfim, qualquer pessoa que se preze tem uma ambição. Somos todos ambiciosos. Uns mais, outros menos.

Existem aqueles cuja ambição é ter o bastante para levar uma vida honesta e tranqüila, e outros que têm no céu o limite de seus desejos, mas todo mundo tem ambição e ponto final.

Tem gente que diz que ambição demais é ruim, tem quem diz que sem ela você não vai pra frente, não evolui, que ela é necessária ao desenvolvimento da espécie. Aliás, Darwin era ambicioso?

Vai ver é a natureza do ser humano. Vai ver isso começou lá atrás quando homens conquistavam as mulheres a pancadas de tacape na cabeça, quando alguém teve a brilhante idéia de “vou pegar isso aqui que sobrou para mim”. Há quem diga que isso foi pior para a humanidade do que Eva morder o fruto proibido.

Eu tenho minhas dúvidas, para mim soa divertido morar no paraíso, mas será que até lá as pessoas teriam ambições, recordes a serem batidos, marcas a serem perseguidas?

Sei lá, só quem sabe isso é Adão, Eva e a maldita cobra que ofereceu o tal do fruto. Mas o que eu sei é que por aqui tem sim. Por isso eu ínsito em insistir: qual marca você persegue?

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