Domínio Público


Se trabalha e estuda pode by Eduardo Simões

Já não é exatamente novidade um grupo de adolescentes de classe média-alta decidir se divertir queimando índios que suspeitem ser mendigos ou espancando empregadas domésticas. O que chocou no caso do espancamento de Sirlei Dias Carvalho Pinto é a leniência do pai de um dos agressores, que disse que as “crianças” que cometeram o crime –em tempo, eles também roubaram a bolsa da moça— não mereciam ficar presas, pois “trabalham e estudam”.

Opa, então espera aí, eu já trabalho há seis anos, então devo estar com um belo saldo para sair distribuindo sopapos pela rua. Quem sabe se meus alvos forem mendigos, travestis e prostitutas meu saldo seja equivalente a 12 anos de trabalho?

Sim, porque a justificativa dos jovens é que “pensaram” se tratar de uma prostituta. Ah, então não tem problema, meus queridos. O que houve foi apenas um mal-entendido. Da próxima vez, antes de começar o espancamento, perguntem se realmente se trata de uma mulher da vida, ok? Podem ir para casa tranqüilos. Ah, essas crianças de hoje em dia.

E, como diria o locutor da propaganda das facas Ginsu, não é só isso! O mesmo pai que defendeu a libertação das “crianças” farristas ao mandar uma mensagem “à sociedade” disse ainda que as marcas do espancamento que ficaram no rosto de Sirlei e que a impediram de exercer sua profissão temporariamente, sem falar do braço engessado, são conseqüência do fato de a vítima ser mulher e, por isso, mais frágil o que faz com que fique “roxa com apenas uma encostada”.

Ah, entendi. Isso certamente é um atenuante da maior relevância. Afinal, quem mandou essa pessoa nascer mulher, não usar roupa de freira –para que não seja confundida com uma prostituta—e ainda por cima ser frágil. Afinal, as “crianças” não têm culpa. Foram apenas algumas “encostadas” e nada mais. Culpa da vítima que, além de mulher, ainda por cima é frágil.

Aliás, devia estar na constituição ou no estatuto da criança e do adolescente. “Crianças entre 19 e 21 anos (!) têm o direito inalienável de surrar/queimar suspeitos de serem prostitutas ou mendigos para sua diversão. Essas crianças têm ainda o direito de ficarem livres de punições, mesmo que causem hematomas às vítimas, desde que fique provado que elas eram frágeis e, portanto, suscetíveis a ferimentos aparentemente graves após sofrerem uma mera encostada”.

Pronto, assim a Justiça seria restabelecida e esse absurdo de “crianças” que “trabalham e estudam” serem presas por crimes que cometeram seria abolido.

Não fosse eu um defensor da máxima de que é melhor ouvir merda do que ser surdo defenderia aqui a prisão desse pai pelas declarações escabrosas e pela flagrante apologia ao desrespeito às leis.

Não vou fazer isso. Afinal, imagino que ele esteja apenas tentando esconder seu retumbante fracasso como pai. Não ensinou ao filhote valores mínimos como o respeito ao próximo, não o ensinou a não ser um covarde, não ensinou a diferença entre certo e o errado, e que as pessoas têm de sofrer as conseqüências de seus atos.

Talvez por isso, por ter sido um pai que não ensinou essas coisas básicas, tente agora correr atrás do tempo perdido, indo a delegacias defender em mensagens enfáticas “à sociedade” o filhote já marmanjo.

Provavelmente, paizão, é tarde demais.

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O tempo passa! by Eduardo Simões
25 abril, 2007, 3:25 pm
Filed under: ambição, Eduardo Simões, família, mudanças, sociedade, tempo

Já ficou corriqueira a propaganda de um banco voltado aos correntistas com altos volumes de investimentos (pelo menos para os padrões brasileiros) em que um cara apanha no tênis “de um moleque”, mas fica feliz da vida de ter levado a surra porque se tratava “do seu moleque”.

Um reclame cheio de simbolismos que traz um cidadão bem-sucedido que já se encontra na meia idade, em plena forma física e bem financeiramente o bastante para se emocionar se sentir que a missão foi cumprida ao ver “o seu moleque” arrasando-o do lado da quadra. A moral da história, segundo o reclame, é que a passagem do tempo pode não ser uma coisa ruim.

Esses dias um amigo, dos tempos do colégio que a gente conhece há mais de 10 anos (ok, pode não ser muito tempo, mas para quem tem vinte e alguns é quase a metade da vida) assinou um contrato para começar a comprar seu apartamento. Vai financiar em não sei quantas parcelas, em não sei quantos anos e vai ter que, junto com a namorada, “apertar o cinto” para dar conta do compromisso assumido.

Quando ele chegou com a notícia em um churrasco entre amigos, foi rapidamente cercado. Era a mesma cena do primeiro cara da galera a tirar carteira de motorista que é rodeado pelos amigos ansiosos por detalhes da prova, ou como o primeiro cara a ir, levado certamente por primos mais velhos, a uma casa de tolerância. Alvo inevitável da curiosidade dos amigos. Um outro amigo, que está noivo e morando fora de São Paulo, anunciou que vai casar em menos de um ano.

Lembro de quando tinha acabado de sair do colégio e sempre existiam as especulações. Quem seria o primeiro a casar? Sempre tinha aquele favorito, não por ser o mais comprometido, mas por ter o maior potencial de engravidar uma namorada e ser forçado a ir ao altar.

Como estaremos daqui a 10 anos? Um colega de Domínio já foi morar sozinho e tem quem já esteja pagando seu próprio teto para ficar sobre a cabeça.

É engraçado como as culturas dos vários países são diferentes. Se eu fosse norte-americano e estivesse escrevendo isso, certamente os comentários aí embaixo sugeririam que ainda não saí das fraldas. Lá ir para a faculdade é sinônimo de sair da casa dos pais e, provavelmente, só revê-los em alguns fins-de-semana, Natais e Dias de Ação de Graças.

Por aqui, assim de bate-pronto, só consigo lembrar de três amigos da mesma idade que não moram mais com a família.

Mas como o reclame do banco indica, o tempo passa, senhoras e senhores. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, a hora de “largar as fraldas” chega. Tem quem faça piada com a coisa, sugerindo que os pais não vêem a hora de se livrar dos rebentos para finalmente construírem nos quartos vagos aquele tão sonhado centro de fitness. Tem os irmãos caçulas que juram que só saem de casa depois que os mais velhos o fizerem, afinal “a ordem natural das coisas” tem de ser respeitada.

De todo modo, ao ver o tempo passando a sua volta, os amigos casando e se mudando, tem quem não consiga não se sentir pressionado. Afinal, daqui a pouco vai ser convidado para ser padrinho ou madrinha de casamento ou até mesmo de crianças. Imagina aquele monte de criança suja de brigadeiro, devastando bolos com dedadas e etc? E um padrinho que se preze não pode se ausentar nesses eventos.

O problema é: será que todo mundo está fazendo hoje o que achou que estaria há 10 anos? Aliás, será que planejar o que se vai estar fazendo daqui a 10 anos tem alguma utilidade?

 

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Dedos by Eduardo Simões
28 março, 2007, 2:45 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões, família, pré-julgamentos, sociedade

– Tá vendo aquele cara ali?

– Tô.

– Dá uma sacada na pinta do sujeito. Certeza que deve tirar uns 50 mil o mês brincando, carro do ano, desfila com uma loira maravilhosa. Esse cara não tem do que reclamar da vida.

– É mesmo, acabou de ser promovido, vida de rei. Quem me dera ter a vida que esse cara tem, que me dera viver meia hora que fosse da vida desse cara.

– Pois é, o cara é um felizardo mesmo, sujeito de sorte.

Nisso, o “sujeito de sorte” passa, acena e entra no carro. Apesar de tudo de bom que parece ter à disposição, carrega um semblante preocupado. Apesar dos quase 50 mil mensais, do carro do ano, da “loira maravilhosa” que namora, algo parece preocupá-lo.

Mas como assim? Um cara que tem tudo isso vai se preocupar com o quê? Bom emprego, bom salário, namorada linda. O que mais ele quer?

O que poderia, por céus, preocupar um cara desse? É aquela história, o ser humano é um bicho ganancioso, quando consegue o dedo já não serve mais quer a mão. Mas já dizia a música, não existe na vida coisa mais feia do que gente que vive chorando de barriga cheia.

Sujeito de sorte. Podia pegar a namorada e aproveitar a sexta-feira, ir num bom restaurante assistir a uma boa peça de teatro, mas não. Foi para casa, desabou no sofá. Nem sequer foi ao extenso bar que tem na sala de estar de seu enorme apartamento para tomar uma dose de 12 anos e relaxar.

Parece ter muita coisa em mente. Otário! Eu no lugar dele ia aproveitar, afinal é noite de sexta-feira e há muitas coisas divertidas que um cara jovem, rico e bem-sucedido pode fazer em vez de ficar pensando na vida.

Eu, no lugar dele, ia badalar. Um cara desse, se quiser, pode ter quantas mulheres quiser, independente de namorada. O cara tem tudo que é preciso para ser feliz e aproveitar a vida, mas fica lá sentado, pensando, olhando para o nada. Ah se fosse comigo. Por quê essas coisas não acontecem com as pessoas certas.

Não adianta, Paulo Henrique continua sentado no sofá com cara de preocupado e pensando o que fazer. Negar o empréstimo ao cunhado e provavelmente cortar relações com a irmã, ou emprestar o dinheiro ao cunhado e terminar o namorado e o noivado com a Bruna.

Escolha de Sofia que ninguém que olhasse as aparências e se apressasse em fazer julgamentos poderia imaginar.

É aquela velha história que todo mundo esquece. Quando você aponta o dedo para alguém, sequer percebe que outros três dedos apontam para você.



E são vocês que fazem piada by Eduardo Simões
15 março, 2007, 3:55 pm
Filed under: crime, direitos humanos, Eduardo Simões, falta de Estado, família, sociedade

– Alô?

– Aqui é o major Peçanha do Corpo de Bombeiros, houve um acidente aqui na avenida Brasil…

– Acidente? Como assim, acidente? O que aconteceu?

– Calma minha senhora. A senhora tem algum parente, amigo ou conhecido que esteja em trânsito neste momento?

– Sim, sim, meu marido, o Osvaldo, ele deve estar indo para o trabalho nesse horário.

– Ok, a senhora pode me fornecer o sobrenome dele e o nome da senhora?

– Meu nome é Vanda e o sobrenome é Fernandes, Osvaldo Fernandes.

– A senhora poderia nos passar um telefone de contato do seu Osvaldo?

– Sim, é 555-9678

– Ok, minha senhora, fique tranqüila. Segure na linha que em instantes vou lhe dar mais informações.

Enquanto isso.

-Alô?

– Seu Osvaldo?

-Ele mesmo.

– É o seguinte doutor, nós tamo aqui com a Dona Vanda, sua mulher, e queremos 10 mil para não matar ela, certo?

– Quem ta falando?

– Não interessa quem ta falando. E você não pergunta nada, quem pergunta aqui sou eu. O senhor vai fazer o seguinte, vai desligar seu celular e depositar essa grana na conta que eu te disser. Se fizer tudo direitinho a gente solta tua mulher na boa. Se eu só suspeitar que você chamou a polícia, ela morre. Ainda não matei ninguém nessa semana e já tô passando vontade.

Pronto, mais alguém caiu no golpe do falso seqüestro. Idéia de algum gênio do crime afinal, que mãe, pai, irmão, esposa ou marido não se apavoraria só de imaginar que um ente querido corre risco de vida.

Fruto também de uma sociedade tomada pelo medo, órfã de Estado. Quem pode garantir de pés juntos que, em tempos em que se anda na rua e pode-se ser engolido por um buraco, não ficaria com o coração na mão ao ouvir alguém do outro lado da linha dizendo “eu vou matar seu filho, me arruma logo esse dinheiro senão ele morre”?

Quem vai confiar na polícia quando, depois de depositar o dinheiro e descobrir o golpe, vai à polícia registrar ocorrência e descobre que o autor do golpe provavelmente está em algum presídio.

– Como assim? – reagiria o seu Osvaldo. – Quer dizer que até presos esses caras continuam cometendo crimes, apavorando as pessoas, extorquindo dinheiro?

Pois é seu Osvaldo. O senhor esqueceu de dizer que eles também comandam quadrilhas e decidem lá de dentro quem tem e quem não tem o direito de viver.

– Mas se eles estão presos, como eles conseguem isso?

Celular, seu Osvaldo, celular. Eles comandam tudo de dentro dos presídios, ligam para os comparsas que estão aqui fora e comandam tudo.

– Ué? Mas pode celular em presídio?

Poder não pode, seu Osvaldo, mas eles dão um jeitinho. Pode ser um suborno para o agente penitenciário ou então eles conseguem fazer entrar por meio do advogado, que não pode ser revistado quando vai visitar seu cliente.

– Ora pois, mas porque então não revistam os advogados e não se pune os agentes corruptos?

Não é tão simples assim, seu Osvaldo. Os advogados têm uma entidade de classe, a OAB, muito forte. Eles consideram um desrespeito submeter os colegas de categoria às revistas. Além do mais, os agentes penitenciários são muito mal remunerados e estão sempre com a vida em risco. Muitos que trabalham direito acabaram sendo mortos pelo crime organizado.

– Por que então não se combate o crime organizado?

É complicado seu Osvaldo. Eles têm ramificações em todos os setores. Até mesmo na política. Eles controlam bairros inteiros nos quais a polícia sequer consegue entrar. Decretam toques de recolher e ai de quem desrespeitar.

Seu Osvaldo desistiu de tentar entender. Depois do susto de pensar que tinham seqüestrado sua esposa e de perder 10 mil reais num estelionato, ele chegou à conclusão que o melhor a fazer era voltar para Portugal, sua terra. Lá pelo menos ele entendia o que se passava.

– E pensar que são vocês brasileiros que fazem piada de nós portugueses – disse seu Osvaldo após o abraço de despedida.



Crônica de um Domingo by Eduardo Simões
7 março, 2007, 4:12 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões, família, sociedade

– Fala PH, tranquilo?

– Tranqüilo, respondeu Paulo Henrique, imaginando se não havia maneira mais agradável de ser acordado num belo domingo de manhã.

– Então rapaz, tô precisando muito falar com você. Lembra aquela história que eu comentei contigo no aniversário da Marcinha? Então, vai rolar e olha, dessa vez vai dar certo.

Enquanto ouvia o cunhado, Paulo Henrique ia tateando pela parede do quarto em busca do interruptor. Limitava-se a breves e desanimados “Ahãs” como resposta, enquanto o cunhado continuava.

– Não tem como dar errado Paulão. Pô Paulão, todo mundo precisa comer. Um bar meu velho, como eu nunca pensei em um bar? Eu só preciso de uma ajuda inicial, um capital para começar o negócio. Depois que a coisa começar a andar tua irmã vai ter vida de rainha e tua sobrinha vai virar doutora.

Já era a quarta vez que Paulo Henrique escutava aquela conversa do cunhado. Com algumas poucas variáveis, é verdade. Ele já tinha achado que o negócio do momento era um estacionamento, depois chegou à conclusão que legal mesmo era uma lojinha de móveis num bairro da periferia. A bola da vez agora era um bar. Afinal, todo mundo precisa comer, um sanduíche chama uma cerveja e ali estava a chave do sucesso.

– Mas Tonhão, não é tão simples assim cara. E o ponto? Onde você quer montar esse bar. Existe bar pra cacete na cidade.

A voz do cunhado, de repente, foi tomada de irritação. – Porra PH! Você acha que eu sou idiota?! É lógico que o ponto é bom e eu tô cheio de idéias cara! O que vai ter no meu bar vai ser completamente novo, revolucionário. Você vai ver só, todo mundo vai querer copiar. Depois, eu não tô pedindo para você me dar nada não. Vai ter tudo de volta quando começar a sair ouro daquela mina. Pô Paulão, confia em mim. Alguma vez já te deixei na mão?

Paulo Henrique pensou em responder que sim, mas ficou quieto. Já não tinham sido poucas as vezes em que brigara com a namorada Bruna por causa dos vários empréstimos a fundo literalmente perdido ao cunhado. Respirava fundo, como que se preparando para escutar dela o já famoso: “Esse teu cunhado só te explora! Enquanto isso a burra aqui esperando para casar! Se você tivesse colocado todo o dinheiro que jogou pela janela emprestando para ele numa poupança que fosse, já daria para pagar o casamento, a festa, o enxoval e a lua-de-mel”.

Não adiantava explicar que aquele explorador era casado com sua irmã, que eles tinham uma filha linda que era sua sobrinha. Bruna não queria saber, só pensava em casamento e em dar filhos lindos a Paulo Henrique.

– Vamo fazer o seguinte Tonhão. Eu vou com você nesse fim de semana dar uma olhada nesse ponto que você diz ser um achado. Depois a gente conversa.

– Beleza PH! Você vai pirar no lugar, é sensacional. Vai até querer virar meu sócio. Tô sentindo que é agora Paulão, é agora;

Bom, telefone desligado, sono perdido. Agora o buraco ia ser ainda mais embaixo. Ia ter que convencer o cunhado que o negócio não é tão garantido como ele pensa e que o negócio mesmo é continuar atrás de emprego e acabar com aquela frescura de que “os meus chefes não têm capacidade de enxergar o meu potencial”.

– Mas espera aí. Puta merda! Eu tinha combinado com a Bruna de passar o fim de semana no sítio dos pais dela em Barra Bonita.

Pronto, seu domingo e todos os cinco dias que antecederiam o fim de semana seguinte estavam condenados. Não dava mais para desmarcar com o cunhado, nem queria, afinal quanto mais rápido o dissuadisse daquela idéia maluca melhor.

Mas dar um bolo na Bruna? Depois de ela ter avisado com uns dois meses de antecedência que os avôs iam comemorar as bodas de ouro. Cinqüenta anos de casados, o que seria motivo para a namorada lembrar que já podiam estar casados a uns cinco e com pelo menos um filho na bagagem.

– Bom, não tem jeito. Ela vai entender. Ela é a primeira a defender que eu não empreste dinheiro pro meu cunhado. Ela vai entender que é uma missão necessária;

Doce ilusão;

– Eu não acredito Paulo Henrique! Toda a minha família vai estar lá, minhas tias, meus primos. Meus pais, Paulo Henrique! O que eles vão pensar se eu apareço lá sem o meu noivo?

– Mas Bruninha…

Nisso ela começou a chorar. Paulo Henrique odiava quando a namorada chorava. Aquilo o irritava profundamente. Era praticamente o argumento definitivo que o sentenciava como um monstro insensível digno de viver em meio aos ogros.

– Olha só, não tem mais coisíssima nenhuma. Ou você vai nesse aniversário ou não precisa mais olhar na minha cara. Cansei, encara a tua irmã e teu cunhado e diz que a fonte secou. Se você não se preocupa com o nosso futuro então eu prefiro que não exista mais ‘nós’.

E desligou o telefone em meio aos soluços.

Já era tarde de domingo e Paulo Henrique começou a se perguntar se tudo podia piorar. A campainha tocou. Abriu a porta, era o cunhado, a irmã e a sobrinha.

Recebeu um efusivo abraço do cunhado e, antes que pudesse cumprimentar a irmã e a sobrinha, já sentia algo gelado na nuca. Como de costume Tonhão “tomara a liberdade” e pegara uma cerveja para si e outra para o cunhado.

– PH, é o seguinte, o negócio é quente. Tanto é que o dono me ligou hoje, dizendo que tem gente interessada em fechar nesta semana. Não vai dar para esperar. Eu preciso entregar 50 mangos na mão do cara como sinal até amanhã ao meio-dia. Eu tentei te ligar mas o telefone só dava ocupado.

Respirou fundo, contou até dez e começou.

– Pô Tonhão, não é assim cara. Você acha que 50 mil nasce em árvore? É muita grana para arrumar assim de uma hora para outra.

– Ah, qualé Paulão, vai começar a negar miséria? Até parece que você não tem esse dinheiro! Olha o teu carro, esse apartamento. Que é que é, vai começar a negar ajuda para os parentes pô? Além do mais, todo mundo sabe que você ganha bem para cacete, que viaja com a patroa todo carnaval. Pra viajar e comer em restaurante chique tem, para ajudar os parentes que tão precisando não?

– Porra Tonhão, o que eu tenho ou não tenho não é da tua conta, e uma coisa é ajudar, a outra é sustentar.

– Então pega essa merda desse dinheiro e enfia no rabo! Vai tomar no cú!

Definitivamente o clima tinha ficado tenso. Paulo Henrique só agradeceu que a sobrinha, somente com um ano e sete meses, não tivesse a capacidade de entender o que acontecia em frente aos seus olhos.

Tonhão saíra chutando tudo, Marcinha, a irmã, ficara.

– O que está acontecendo Paulinho? Você nunca foi de usar esses termos com o Marco Antonio

Paulo Henrique começou a explicar da briga e do ultimato que tivera com a namorada. Que, afinal de contas, as empreitadas do cunhando nunca tinham tido muito sucesso, que ele precisava cair na real, procurar um emprego e parar de sonhar. Que a namorada tinha razão, ele precisava começar a pensar em ter sua própria família, etc, etc. etc.

– Como assim ter sua própria família. Você já tem sua família. Eu, o Marco Antonio e a Leilinha aqui. É isso que a família faz, ajuda uns aos outros. Se a Bruna quer entrar para a família, ela devia pensar nisso. Eu sempre senti que essa menina é muito arrogante, sempre se achou melhor que a gente. Paulinho, lembra do que papai e mamãe ensinaram. A gente tem que estar sempre junto, sempre.

O domingo já atingia a noite. E tudo que Paulo Henrique tinha pela frente era uma semana que prometia ser desgastante. De um lado, o cunhado inconseqüente e lunático e a irmã egoísta e chantagista emocional. Do outro, a namorada obcecada pelo casamento e inflexível.

Nessa hora Paulo Henrique só conseguiu cair de novo na cama e lembrar Raul: Pare o mundo que eu quero descer!