Domínio Público


Tem coisas que é bom a gente nunca esquecer by Eduardo Simões

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O Fantástico Mundo de Marco Aurélio Cunha by Eduardo Simões
17 março, 2008, 8:45 pm
Filed under: Campeonato Paulista, Choro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Ouvindo neste fim de semana o superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, reclamar pela enésima vez da arbitragem e das supostas perseguições sofridas pelo seu clube, me veio imediatamente à cabeça uma imagem da minha infância: o desenho animado “O Fantástico Mundo de Bobby”.

Imediatamente imaginei a figura barbuda e de baixa estatura de Marco Aurélio Cunha pedalando um triciclo enlouquecidamente pelos corredores do Morumbi, enquanto imagina conspirações de arbitragens e compila dados sobre há quantos jogos sua equipe não tem um pênalti marcado a seu favor.

Justo o São Paulo, que sempre se vangloriou da alta rotatividade da sua direção, da maneira profissional e serena que seus cartolas administram o clube. Justo o Marco Aurélio Cunha, que foi a imagem da seriedade e do planejamento no futebol. Os dois, o São Paulo e o Marco Aurélio, estão deixando a peteca cair e, em vez de correr para evitar que ela toque o chão, ficam esperneando e falando mais que a boca, o que não ajuda em nada o time do Morumbi.

O Marco Aurélio Cunha, que já foi considerado um cara ponderado, deve ter se assustado em cima de seu triciclo quando soube que, enquanto ele esperneava sem nenhuma razão contra a arbitragem após a goleada sofrida diante do Palmeiras, um indignado Deva Pascovicci, narrador da CBN, afirmava que “o que esse senhor fala não é mais relevante para mim” no ar.

Marco Aurélio Cunha chora, como Bobby choraria se lhe tirassem o triciclo. Um homem barbado, médico e parece o mais ignorante dos torcedores de arquibancada ao analisar uma partida. Não importa o que aconteceu, para ele todas as derrotas são-paulinas foram injustas.

Chegou a evocar a “moralidade no futebol” ao pedir a cabeça de Sálvio Spíndola após o empate com o Corinthians e a anulação de um gol de Adriano. O lance, em que o “imperador” disputa bola com William, foi tão difícil e discutível que chegou-se a recorrer às leis da física para embasar argumentos tanto para um lado quanto para outro. Mas não para Marco Aurélio Cunha, que imediatamente acusou o árbitro de perseguir sua equipe e questionou a honestidade do homem de preto.

Questionou sim. Ora, se ele “persegue” o Tricolor, ele tem que, para executar essa perseguição, prejudicar deliberadamente o time do Morumbi. Se ele o faz, então é desonesto. Eu não sou Sálvio Spinola, mas se fosse processaria o cartola.

Faltou ao outrora ponderado supervisor tricolor dizer que a partida foi igual, que seu time não esmagou o Corinthians como a lógica, se ela existisse no futebol, exigiria, já que estamos falando de um time recém-consagrado bicampeão brasileiro diante de uma equipe recém-rebaixada à segunda divisão.

No clássico de domingo, a mesma coisa. Marco Aurélio pedalou para valer em seu triciclo e esqueceu-se de olhar a partida. Três pênaltis escandalosos cometidos por seus jogadores, um deles absolutamente infantil cometido por Junior e um árbitro que teve coragem de aplicar a regra e anotar três penalidades máximas existentes contra uma equipe.

O resumo da goleada para Marco Aurélio? O São Paulo prejudicado mais uma vez, afinal, onde já se viu marcar três pênaltis em tão curto espaço de tempo! Além disso, um suposto pênalti em Adriano que, na hora, só ele viu (eu confesso que ainda estou procurando) e uma agressão do atacante Kleber contra o zagueiro André Dias, que na hora nem a TV mostrou e só a imagem mais tarde recuperada deu a idéia da deslealdade do jogador alviverde.

Esquece-se convenientemente o Marco Aurélio Cunha que o Santos também reclamou de erros da arbitragem na derrota para o São Paulo.

Falta memória a esse senhor, que certamente fará campanha por severa punição a Kleber, para lembrar que Adriano tentou sim agredir Domingos no clássico San-São e que só não acertou uma cabeçada em cheio no zagueiro santista porque esse último desviou. E o que aconteceu no tribunal, hein Marco Aurélio? Dois joguinhos só de suspensão para “a principal contratação do futebol brasileiro nesta temporada”.

Esquece no alto de seu triciclo o “perseguido pelas arbitragens” que na partida entre São Paulo e Paraná Clube no Brasileiro do ano passado, a equipe curitibana teve negada uma vitória após ver anulado um gol legítimo em que seu ataque “enganou” a linha de impedimento tricolor. Basta lembrar, Marco Aurélio, que, se tivesse conseguido esses três pontos, o Paraná poderia ter evitado o rebaixamento, por exemplo.

Mas o “x” da questão não é só Marco Aurélio Cunha e seu mundo particular onde, se o São Paulo perde, há injustiça. Basta ver as mil razões que a própria imprensa arrumou para justificar a derrota tricolor diante da Portuguesa, jogo em que os atuais campeões nacionais não viram a cor da bola.

Disseram que o time estava cansado e esqueceram-se de lembrar que a temporada só está em seu segundo mês e que a longa viagem que o São Paulo fez no meio de semana pré-clássico foi ao seu Morumbi para receber o frágil e vulnerável Audax Italiano.

Alegaram o alto número de desfalques, mas esqueceram que Rogério Ceni, Miranda, Jorge Wágner, Adriano, Hernanes e companhia estavam em campo. Carlos Alberto estava à disposição e somente Richarlyson (suspenso) e Dagoberto (machucado) de fato desfalcavam o time. Esse argumento, aliás, é tão frágil e ridículo que, se verdadeiro, significa que a Lusa tem elenco melhor que o Tricolor.

Significa, senhoras e senhores, que Christian é melhor que Adriano, que Rogério é mais atacante que Borges, que Carlos Alberto é melhor volante que Hernanes e que Preto é melhor meio-campista que Jorge Wágner. Esqueceram de dizer que a Lusa estava sem seu melhor jogador, o jovem Diogo, machucado desde o início da competição, e sem poder atuar em seu estádio, o Canindé, onde os adversários sempre reconhecem ser difícil bater a rubro-verde.

Portanto, senhor Marco Aurélio Cunha, desça do alto de seu triciclo e admita que o planejamento, palavra da qual o São Paulo tanto usa e se gaba de ter, foi mal feito. Um monte de apostas incertas que vão embora no meio do ano e a crença que o Reffis –sigla para Reabilitação Esportiva Fisioterápica e Fisiológica—era na verdade o Reformatório de Ex-Craques Desajustados.

O primeiro passo você mesmo já deu, Marco Aurélio, quando disse à ESPN Brasil que “não creio que vamos ganhar” a Libertadores. Foi um bom primeiro passo, mas ainda falta muita humildade para descer desse triciclo e cair na real.



Começou by Gerson Freitas Jr.
3 dezembro, 2007, 1:14 am
Filed under: esportes, futebol brasileiro, Gerson Freitas Jr., infra-estrutura

Por Gerson Freitas Jr.  

Durou pouco a promessa de que não haveria dinheiro público na construção de estádios para a Copa do Mundo no Brasil. Na semana passada, o governo da Bahia anunciou a implosão do velho estádio da Fonte Nova e a sua reconstrução, com vistas para o evento de 2014.

A decisão foi tomada na esteira do desabamento de parte de uma arquibancada no fim de semana passado, quando sete torcedores do Bahia morreram.

O governador petista Jaques Wagner disse que a nova arena, orçada pela bagatela de R$ 350 milhões, será levantada em conjunto com a iniciativa privada. Mas também avisou que, se a parceria “não for possível”, “o Estado irá arcar com os custos dessa implantação”.

Tudo, claro, pensando em “proporcionar um estádio digno aos torcedores baianos” (que, certamente, já encontram essa dignidade nas escolas e hospitais do Estado).

Absurdo maior é que esse mesmo Estado negligenciou, por anos e anos, a manutenção da Fonte Nova, um patrimônio público pelo qual deveria zelar e prestar conta. Mas, agora, diante do desastroso resultado de sua incompetência e descaso, propõe simplesmente esquecer o passado, colocar tudo abaixo e construir um estádio novo – um desperdício que chega a ser imoral para um país como o Brasil e um Estado como a Bahia.

Tudo bem, pois quem paga a conta mesmo, os tais torcedores – e não torcedores – baianos, têm coração grande. Mas é bom que você, caro leitor, também prepare o coração e o bolso para a jornada 2014, que acaba de começar. Pois esteja certo: os baianos serão os primeiros, mas certamente não serão os únicos.



O Brasil e a Copa by Gerson Freitas Jr.
1 agosto, 2007, 2:35 am
Filed under: economia, esportes, futebol brasileiro, Gerson Freitas Jr., infra-estrutura, Pan

Mal terminaram os jogos pan-americanos do Rio de Janeiro, e o Brasil já se prepara para tentar (de novo) sediar as Olimpíadas, em 2016. Mais, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) acaba de oficializar a candidatura do país para realizar a Copa do Mundo, dois anos antes – tudo com entusiasmado apoio do presidente Lula.

A realização de megaeventos esportivos foi quase sempre monopólio dos países desenvolvidos, que, afinal, têm estrutura e bastante dinheiro para investir nisso. Aos mais pobres, como o Brasil, restava olhar resignadamente pela TV as grandes arenas, as pomposas cerimônias de abertura, a organização impecável. E vislumbrar a vida em lugares onde as coisas pareciam funcionar de verdade.

Sim, Olimpíadas e Copas do Mundo sempre tiveram algo a ver com uma determinada imagem que nós, subdesenvolvidos, nunca poderíamos ostentar. Daí a dizer que o Brasil jamais poderia realizar qualquer evento esportivo, porque nossas cidades são sujas e violentas, o trânsito é caótico, os estádios velhos e sucateados. Há, claro, grande verdade nisso, mas exacerbada por um complexo de inferioridade que nos persegue faz tempo.

O Pan-americano do Rio de Janeiro parece ter mudado um pouco esse sentimento, para o bem e para o mal. Apesar de alguns problemas (para não falar nas quase evidências de corrupção), a cidade conseguiu fazer a lição de casa. Organizou uma belíssima cerimônia de abertura (para quem apostava esculhambações carnavalescas), apresentou algumas belas arenas, quase sempre com bom público, e garantiu um mínimo de segurança a turistas e delegações.

O Pan não é uma Olimpíada e tampouco uma Copa do Mundo, que exigiriam esforços muito maiores, mas foi mais do que suficiente para que se mudasse a pergunta que sempre precedia o desejo brasileiro de sediar esses eventos. Em vez de “o Brasil pode fazer?”, a questão que fica é “por que fazer?”.

Ainda não se sabe (aliás, como não se sabe?) quanto custaria a Copa do Mundo brasileira. Japão e Coréia teriam gasto cerca de R$ 14 bilhões. A Alemanha, que já tinha praticamente toda sua estrutura montada, investiu cerca de R$ 6 bilhões. O Pan do Rio custou quase R$ 4 bilhões. Não seria exagero projetar um investimento na casa dos R$ 20 bilhões para a Copa-2014. Não é pouco, ainda mais para um país com tantas necessidades em infra-estrutura de saneamento, moradia, transporte e logística.

Então, por que fazer?

Porque muita gente vai ganhar dinheiro com isso, claro. Mas também porque o Brasil, esse mercado “emergente”, parece sofrer da mesma mania de ascensão que contamina muita gente da classe média, que gasta o que não tem para ostentar um padrão de vida que a torce aceita pelo andar de cima. Gente que quer mostrar ser o que não é, que come sardinha e arrota caviar.

E não é segredo que esse tipo de gente acaba endividada, quebrada e, muitas vezes, rejeitada pelo grupo de que tanto quis fazer parte. O Brasil, que vislumbra a possibilidade de um novo ciclo de prosperidade, começa a dar sinais de que vai fazer (de novo)  as opções erradas – e assistir a um filme que, de novo, não tem nada.



Fiquei feliz com o título de 94 by Eduardo Simões
25 julho, 2007, 2:28 pm
Filed under: Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Pronto. Falei. Sei que foi uma grosseria tão grande quanto arroto ou flatulência à mesa de um jantar em um restaurante chique cuidadosamente preparado para se apresentar aos pais da sua noiva. Mas vou fazer de novo. Fiquei feliz com o título da seleção brasileira de 1994. Tirem logo as crianças da sala, afinal, esse vai ser o tema desse texto. O título de 1994.

Tenho minhas razões para ter ficado feliz com o título de 94. Não é uma coisa gratuita, não é um arroto moleque ou uma bufa desafiadora. É daquelas coisas que você não consegue evitar, escapa. Fiquei feliz com o título de 94.

Vibrei quando Roberto Baggio e seu cabelo ridículo mandaram a bola numa viagem só de ida de Los Angeles para Nova York. Vibrei de felicidade. Tinha 12 anos. Quando o desgraçado do Paolo Rossi mandou o Brasil para casa eu tinha alguns poucos meses de vida. Isso já é o bastante para eu achar o Paolo Rossi um desgraçado, mas não o suficiente para eu concordar com aqueles que não arrotam à mesa e dizem que a Copa de 94 foi aquela que ninguém quer ganhar.

Eu quis. E como. Lembro de cada jogo. Da estréia contra a Rússia, do gol de pênalti do Raí, lembro que ele perdeu a vaga na equipe titular para o Mazinho, que o Leonardo afundou a cara de um americano com o cotovelo, que o Branco salvou nossa pele contra a Holanda e que o Romário nos colocou na final com uma testada firme no meio de duas torres suecas.

Sou capaz de dizer de cabeça, com algum esforço, todos os placares do Brasil naquela campanha. De me recordar de onde estava e o que senti em determinados lances, de diálogos que tive ao longo das partidas e, até mesmo, da cadeirada que levei no tornozelo antes da cobrança do Baggio.

Enfim, guardo lembranças agradáveis daquele título. Foi a primeira vez que gritei “É Campeão!”.

E agora vem a heresia das heresias. Eu acho uma gigantesca hipocrisia dizer que a Copa de 94 é aquela que ninguém queria ganhar e acho um enorme absurdo colocar a seleção de 82 acima da de Romário, Bebeto, Taffarel e companhia. Pronto, novo arroto com direito a cheiro de mortadela na cara do cidadão que, há cinco minutos, seria meu futuro sogro.

Vi vídeos daquele time comandado por Telê Santana. Não os vi jogar, mas tenho as melhores referências sobre o futebol de Falcão, Zico, Sócrates, Cerezo, Junior. Oscar e tantos outros. Mas, se eles tinham várias qualidades que o time de 94 não tinha, o time do Parreira tinha uma coisa que eles não tinham, que foi o que levou ao primeiro título mundial em 24 anos.

Por isso, acho justo colocar esses dois times em patamar igual, afinal de contas, se eu decidisse que a de 94 está acima da de 82, só não seria pior do que vomitar no vestido novo da ex-futura sogra.

Por fim, os mesmos que hoje dizem que não gostaram do título de 94, há 13 anos pularam de alegria com a conquista. Eu me lembro bem, era um doente por programas esportivos naqueles tempos e não me recordo de um comentarista que seja afirmando: “Eu torci contra o Brasil. Acho que essa conquista foi um mal para o nosso futebol. Temos de resgatar o futebol-arte irreverente dos tempos de Falcão, Zico e Sócrates”.

Não tenho dúvida, ainda, que Falcão, Zico e Sócrates e até o Mestre Telê vibraram com a conquista daquele Mundial.

O ápice do golpe mortal na hipocrisia seria se Jô Soares pegasse o orelhão e gritasse a plenos pulmões: “Bota volante Parreira! Bota volante!”.



Desconstrução by Eduardo Simões

Por que todo mundo diz que o Brasil perdeu a identidade com sua seleção de futebol se a Argentina –ok, vou falar bem deles—também tem uma maioria de atletas jogando na Europa, também só disputa amistosos na Europa, também vê seus craques saindo do campeonato local para a Europa cada vez mais novos e a gente não vê a imprensa Argentina dizendo que o time nacional não tem identidade com o país?

E essa história de direita ou esquerda, de destro e canhoto, de PT e PSDB, de DEM e de PSOL? Isso serve realmente para alguma coisa ou o inevitável e cruel destino é, depois de derrotas em três eleições presidenciais, a Heloísa Helena vencer o pleito de 2018, se tornar a primeira mulher presidente, todo mundo dizer que a mudança chegou e que a esperança venceu a medo para, logo no primeiro ano, todo mundo ver que era a mesma coisa?

Um Setúbal ou um Moreira Salles virar presidente do Banco Central, os “monetaristas” voltarem a triunfar sobre os “desenvolvimentistas”, os escândalos continuarem em profusão e uma ala de extrema esquerda do PSOL ser expulsa do partido para fundar uma nova legenda “guardiã do socialismo democrático” e propor CPIs e representações aos Conselhos de Ética aos milhões?

E a ação da Polícia e da Força Nacional de Segurança no Rio? Vai durar? Ou depois do Pan, todo mundo volta para casa e o morro volta ao controle dos traficantes? Não era mais fácil trocar ingressos na final do vôlei por uma trégua nos morros? Não morreria menos gente que não tem nada a ver com o tráfico?

E a atuação “republicana” e investigativa da Polícia Federal? Aliás, será que não estão banalizando a palavra “investigação”? Não seria melhor chamar de “grampeação”? Por que não mudamos a Constituição e não tornamos o grampo legal? Um órgão do governo ficaria encarregado de analisar os grampos de todos os brasileiro e por indiciar aqueles que são pegos no pulo. Desde o cidadão que admite que roubou um pãozinho até o mega corrupto usurpador dos cofres públicos. Seria a Grampobrás e, em seu estatuto, ficaria proibido a indicação de qualquer filiado do PMDB, o que diminuiria em 90 por cento as chances de ser loteada politicamente.

Aliás, e o Conselho de Ética? Quando vai ser merecedor do nome? Por que não, conselho de corporativismo? Ou esse nome deveria ser, na verdade, dado aos plenários das duas Casas do Parlamento?

E afinal, por que raios ainda discutimos a ditadura militar, os anos de chumbo? Por que mil demônios nos debatemos sobre quem foi bacana e quem foi feio, bobo, bocó e cara de fuinha naquele período, se aquele período já acabou há mais de 20 anos?

Se o caos nos aeroportos é o preço do sucesso, como disse o ministro da Fazenda, por que o “espetáculo do crescimento” não provocou um boom na venda de jatinhos?

Se o Catolicismo é a única maneira de salvação e a única religião de Cristo, como disse o papa, isso quer dizer que todo mundo que não for católico vai arder no inferno quando passar dessa para a pior (no caso, porque dizem que o inferno não é exatamente um lugar divertido)?

Será que não importa se você é uma pessoa correta, direita, honesta, cumpridora de seus deveres, ajuda o próximo quando pode, será que nada disso vale se você escolheu a religião errada? Quer dizer, se o cara é o santo na Terra e ele não escolheu “a única religião de Cristo”, ele vai arder nas chamas de Lúcifer?

Será que, além de ser honesto, não roubar, não matar, não cobiçar a mulher do próximo e todas essas coisas, o cara ainda tem que adivinhar qual a religião de Deus, qual a religião que Ele quer que sigamos? Se Deus é bom e misericordioso, por que todo mundo diz para as crianças: “se você não for um bom menino, Deus vai castigar”? Qual Deus é o da “verdadeira religião de Cristo”? O que multiplica os peixes para dar uma força para os pescadores, ou o que castiga as crianças que não se comportam direito?

Por que uma criança que morre ao nascer e, portanto não teve tempo de ser batizada, deve padecer o resto da eternidade no limbo? Que culpa ela tem por, ahn, vejamos, morrer ao nascer?

Por fim, será que um raio vai cair na minha cabeça nos próximos instantes, ou o chão vai se abrir sob meus pés ou terei o mesmo destino de Salman Rushdie ou José Saramago e serei condenado pelo que escrevi?

Se isso acontecer, vou fazer como Pedro. Não me sinto à altura de ser condenado à mesma coisa que esses caras muito mais legais, inteligentes e espertos do que eu. Crucifiquem-me de ponta cabeça.



O Brasil sem o Brasil by Gerson Freitas Jr.
10 julho, 2007, 11:48 am
Filed under: esportes, futebol brasileiro, Gerson Freitas Jr., mudanças, sociedade, softbol

Corre a tese de que o Brasil não nutre mais o amor de antes pela Seleção de futebol. Seleção com “S” maiúsculo, porque nunca precisou de complemento.  “Seleção” sempre foi, afinal, a seleção brasileira de futebol, nunca a de vôlei, basquete, tampouco a de softbol – mesmo sendo esta uma senhora seleção.

Enfim, pude comprovar que, de fato, as pessoas não estão se lixando muito para o time que veste a amarelinha.

Era sábado à noite, estava em um bar lotado onde havia um grande telão ligado no jogo da Seleção contra o Chile, partida das quartas-de-final da Copa América, e cerveja, muita cerveja – cenário aparentemente ideal para curtir um jogo do Brasil.

O que chamou a atenção, todavia, foi a total indiferença de 99% do público com o jogo. 

Não houve qualquer comemoração em nenhum dos seis gols do Brasil contra o fraco e etílico selecionado chileno. Tenho a impressão que boa parte sequer sabia do que se tratava aquele jogo.

A exceção, o 1% restante, foi representada por uns três ou quatro amigos que gritaram, pularam e se abraçaram em cada uma das vezes em que o Brasil balançou a rede adversária. Pondero, contudo, que eles assim reagiram, talvez com ainda mais entusiasmo, quando foi o Chile quem vazou o sofrível Doni. Eles comemorariam qualquer coisa…

Não faltam bons motivos para explicar o crescente desinteresse do brasileiro com a Seleção. Para começar, nunca a camisa amarela vestiu um número tão grande de jogadores “estrangeiros”, ilustres desconhecidos dos campos daqui e que, sabe lá Deus como, chamaram a atenção em campos espanhóis, italianos, holandeses, russos, ucranianos, gregos…

As razões são muitas mais e já foram fartamente expostas pela ala séria da crítica esportiva. A conclusão é que a Seleção é cada vez menos “a pátria de chuteiras” e mais “o time da CBF”, como a ela se refere Juca Kfouri. O Brasil não se sente mais representado pelo Brasil.

E, como bem observou Matthew Shirts em sua coluna do Estadão semana passada, isso pode ser um problema. Afinal, este é o país da música, do carnaval e do FUTEBOL.  Este esporte e, em especial, a Seleção fazem parte da identidade cultural do brasileiro. Gostem ou não, é o símbolo do talento, da criatividade, do improviso e do jeito malandro de ser que tanto representam o ser brasileiro.

Daí a nossa intolerância com times que se enchem de volantes brucutus em detrimento de talentosos “camisas 10”, que priorizam essa idéia tão européia de organização tática em vez da habilidade e a técnica refinada. Daí amarmos tanto a seleção de 82, que a rigor não ganhou nada, e repudiarmos o time campeão de 94.

Talvez não mais queiramos cultivar essa auto-imagem marcada pelo talento improvisado e estejamos em busca de algo mais sólido, com mais consistência social e política, principalmente em tempos tão marcados por escândalos políticos e morais.

Talvez precisemos de novos heróis, pelés e garrinchas de fora do campo, novos símbolos e valores mais produtivos do ponto de vista da construção do País.

Se for isso, a desmistificação da camisa amarela terá contribuído para algo, ainda que com alguma tristeza e resignação – vai-se a magia, fica a realidade.

O problema é que crises de identidade podem ser sucedidas também por um grande vazio existencial. Meu temor é que, desfeitos os símbolos e laços que nos unem (ou uniam), nada haja para ser colocado no lugar. E que a nossa já esmagada auto-estima seja definitivamente jogada no lixo.