Domínio Público


Tem coisas que é bom a gente nunca esquecer by Eduardo Simões

http://www.youtube.com/watch?v=bG89HhBqnig&eurl



O Fantástico Mundo de Marco Aurélio Cunha by Eduardo Simões
17 março, 2008, 8:45 pm
Filed under: Campeonato Paulista, Choro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Ouvindo neste fim de semana o superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, reclamar pela enésima vez da arbitragem e das supostas perseguições sofridas pelo seu clube, me veio imediatamente à cabeça uma imagem da minha infância: o desenho animado “O Fantástico Mundo de Bobby”.

Imediatamente imaginei a figura barbuda e de baixa estatura de Marco Aurélio Cunha pedalando um triciclo enlouquecidamente pelos corredores do Morumbi, enquanto imagina conspirações de arbitragens e compila dados sobre há quantos jogos sua equipe não tem um pênalti marcado a seu favor.

Justo o São Paulo, que sempre se vangloriou da alta rotatividade da sua direção, da maneira profissional e serena que seus cartolas administram o clube. Justo o Marco Aurélio Cunha, que foi a imagem da seriedade e do planejamento no futebol. Os dois, o São Paulo e o Marco Aurélio, estão deixando a peteca cair e, em vez de correr para evitar que ela toque o chão, ficam esperneando e falando mais que a boca, o que não ajuda em nada o time do Morumbi.

O Marco Aurélio Cunha, que já foi considerado um cara ponderado, deve ter se assustado em cima de seu triciclo quando soube que, enquanto ele esperneava sem nenhuma razão contra a arbitragem após a goleada sofrida diante do Palmeiras, um indignado Deva Pascovicci, narrador da CBN, afirmava que “o que esse senhor fala não é mais relevante para mim” no ar.

Marco Aurélio Cunha chora, como Bobby choraria se lhe tirassem o triciclo. Um homem barbado, médico e parece o mais ignorante dos torcedores de arquibancada ao analisar uma partida. Não importa o que aconteceu, para ele todas as derrotas são-paulinas foram injustas.

Chegou a evocar a “moralidade no futebol” ao pedir a cabeça de Sálvio Spíndola após o empate com o Corinthians e a anulação de um gol de Adriano. O lance, em que o “imperador” disputa bola com William, foi tão difícil e discutível que chegou-se a recorrer às leis da física para embasar argumentos tanto para um lado quanto para outro. Mas não para Marco Aurélio Cunha, que imediatamente acusou o árbitro de perseguir sua equipe e questionou a honestidade do homem de preto.

Questionou sim. Ora, se ele “persegue” o Tricolor, ele tem que, para executar essa perseguição, prejudicar deliberadamente o time do Morumbi. Se ele o faz, então é desonesto. Eu não sou Sálvio Spinola, mas se fosse processaria o cartola.

Faltou ao outrora ponderado supervisor tricolor dizer que a partida foi igual, que seu time não esmagou o Corinthians como a lógica, se ela existisse no futebol, exigiria, já que estamos falando de um time recém-consagrado bicampeão brasileiro diante de uma equipe recém-rebaixada à segunda divisão.

No clássico de domingo, a mesma coisa. Marco Aurélio pedalou para valer em seu triciclo e esqueceu-se de olhar a partida. Três pênaltis escandalosos cometidos por seus jogadores, um deles absolutamente infantil cometido por Junior e um árbitro que teve coragem de aplicar a regra e anotar três penalidades máximas existentes contra uma equipe.

O resumo da goleada para Marco Aurélio? O São Paulo prejudicado mais uma vez, afinal, onde já se viu marcar três pênaltis em tão curto espaço de tempo! Além disso, um suposto pênalti em Adriano que, na hora, só ele viu (eu confesso que ainda estou procurando) e uma agressão do atacante Kleber contra o zagueiro André Dias, que na hora nem a TV mostrou e só a imagem mais tarde recuperada deu a idéia da deslealdade do jogador alviverde.

Esquece-se convenientemente o Marco Aurélio Cunha que o Santos também reclamou de erros da arbitragem na derrota para o São Paulo.

Falta memória a esse senhor, que certamente fará campanha por severa punição a Kleber, para lembrar que Adriano tentou sim agredir Domingos no clássico San-São e que só não acertou uma cabeçada em cheio no zagueiro santista porque esse último desviou. E o que aconteceu no tribunal, hein Marco Aurélio? Dois joguinhos só de suspensão para “a principal contratação do futebol brasileiro nesta temporada”.

Esquece no alto de seu triciclo o “perseguido pelas arbitragens” que na partida entre São Paulo e Paraná Clube no Brasileiro do ano passado, a equipe curitibana teve negada uma vitória após ver anulado um gol legítimo em que seu ataque “enganou” a linha de impedimento tricolor. Basta lembrar, Marco Aurélio, que, se tivesse conseguido esses três pontos, o Paraná poderia ter evitado o rebaixamento, por exemplo.

Mas o “x” da questão não é só Marco Aurélio Cunha e seu mundo particular onde, se o São Paulo perde, há injustiça. Basta ver as mil razões que a própria imprensa arrumou para justificar a derrota tricolor diante da Portuguesa, jogo em que os atuais campeões nacionais não viram a cor da bola.

Disseram que o time estava cansado e esqueceram-se de lembrar que a temporada só está em seu segundo mês e que a longa viagem que o São Paulo fez no meio de semana pré-clássico foi ao seu Morumbi para receber o frágil e vulnerável Audax Italiano.

Alegaram o alto número de desfalques, mas esqueceram que Rogério Ceni, Miranda, Jorge Wágner, Adriano, Hernanes e companhia estavam em campo. Carlos Alberto estava à disposição e somente Richarlyson (suspenso) e Dagoberto (machucado) de fato desfalcavam o time. Esse argumento, aliás, é tão frágil e ridículo que, se verdadeiro, significa que a Lusa tem elenco melhor que o Tricolor.

Significa, senhoras e senhores, que Christian é melhor que Adriano, que Rogério é mais atacante que Borges, que Carlos Alberto é melhor volante que Hernanes e que Preto é melhor meio-campista que Jorge Wágner. Esqueceram de dizer que a Lusa estava sem seu melhor jogador, o jovem Diogo, machucado desde o início da competição, e sem poder atuar em seu estádio, o Canindé, onde os adversários sempre reconhecem ser difícil bater a rubro-verde.

Portanto, senhor Marco Aurélio Cunha, desça do alto de seu triciclo e admita que o planejamento, palavra da qual o São Paulo tanto usa e se gaba de ter, foi mal feito. Um monte de apostas incertas que vão embora no meio do ano e a crença que o Reffis –sigla para Reabilitação Esportiva Fisioterápica e Fisiológica—era na verdade o Reformatório de Ex-Craques Desajustados.

O primeiro passo você mesmo já deu, Marco Aurélio, quando disse à ESPN Brasil que “não creio que vamos ganhar” a Libertadores. Foi um bom primeiro passo, mas ainda falta muita humildade para descer desse triciclo e cair na real.



Fiquei feliz com o título de 94 by Eduardo Simões
25 julho, 2007, 2:28 pm
Filed under: Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Pronto. Falei. Sei que foi uma grosseria tão grande quanto arroto ou flatulência à mesa de um jantar em um restaurante chique cuidadosamente preparado para se apresentar aos pais da sua noiva. Mas vou fazer de novo. Fiquei feliz com o título da seleção brasileira de 1994. Tirem logo as crianças da sala, afinal, esse vai ser o tema desse texto. O título de 1994.

Tenho minhas razões para ter ficado feliz com o título de 94. Não é uma coisa gratuita, não é um arroto moleque ou uma bufa desafiadora. É daquelas coisas que você não consegue evitar, escapa. Fiquei feliz com o título de 94.

Vibrei quando Roberto Baggio e seu cabelo ridículo mandaram a bola numa viagem só de ida de Los Angeles para Nova York. Vibrei de felicidade. Tinha 12 anos. Quando o desgraçado do Paolo Rossi mandou o Brasil para casa eu tinha alguns poucos meses de vida. Isso já é o bastante para eu achar o Paolo Rossi um desgraçado, mas não o suficiente para eu concordar com aqueles que não arrotam à mesa e dizem que a Copa de 94 foi aquela que ninguém quer ganhar.

Eu quis. E como. Lembro de cada jogo. Da estréia contra a Rússia, do gol de pênalti do Raí, lembro que ele perdeu a vaga na equipe titular para o Mazinho, que o Leonardo afundou a cara de um americano com o cotovelo, que o Branco salvou nossa pele contra a Holanda e que o Romário nos colocou na final com uma testada firme no meio de duas torres suecas.

Sou capaz de dizer de cabeça, com algum esforço, todos os placares do Brasil naquela campanha. De me recordar de onde estava e o que senti em determinados lances, de diálogos que tive ao longo das partidas e, até mesmo, da cadeirada que levei no tornozelo antes da cobrança do Baggio.

Enfim, guardo lembranças agradáveis daquele título. Foi a primeira vez que gritei “É Campeão!”.

E agora vem a heresia das heresias. Eu acho uma gigantesca hipocrisia dizer que a Copa de 94 é aquela que ninguém queria ganhar e acho um enorme absurdo colocar a seleção de 82 acima da de Romário, Bebeto, Taffarel e companhia. Pronto, novo arroto com direito a cheiro de mortadela na cara do cidadão que, há cinco minutos, seria meu futuro sogro.

Vi vídeos daquele time comandado por Telê Santana. Não os vi jogar, mas tenho as melhores referências sobre o futebol de Falcão, Zico, Sócrates, Cerezo, Junior. Oscar e tantos outros. Mas, se eles tinham várias qualidades que o time de 94 não tinha, o time do Parreira tinha uma coisa que eles não tinham, que foi o que levou ao primeiro título mundial em 24 anos.

Por isso, acho justo colocar esses dois times em patamar igual, afinal de contas, se eu decidisse que a de 94 está acima da de 82, só não seria pior do que vomitar no vestido novo da ex-futura sogra.

Por fim, os mesmos que hoje dizem que não gostaram do título de 94, há 13 anos pularam de alegria com a conquista. Eu me lembro bem, era um doente por programas esportivos naqueles tempos e não me recordo de um comentarista que seja afirmando: “Eu torci contra o Brasil. Acho que essa conquista foi um mal para o nosso futebol. Temos de resgatar o futebol-arte irreverente dos tempos de Falcão, Zico e Sócrates”.

Não tenho dúvida, ainda, que Falcão, Zico e Sócrates e até o Mestre Telê vibraram com a conquista daquele Mundial.

O ápice do golpe mortal na hipocrisia seria se Jô Soares pegasse o orelhão e gritasse a plenos pulmões: “Bota volante Parreira! Bota volante!”.



Desconstrução by Eduardo Simões

Por que todo mundo diz que o Brasil perdeu a identidade com sua seleção de futebol se a Argentina –ok, vou falar bem deles—também tem uma maioria de atletas jogando na Europa, também só disputa amistosos na Europa, também vê seus craques saindo do campeonato local para a Europa cada vez mais novos e a gente não vê a imprensa Argentina dizendo que o time nacional não tem identidade com o país?

E essa história de direita ou esquerda, de destro e canhoto, de PT e PSDB, de DEM e de PSOL? Isso serve realmente para alguma coisa ou o inevitável e cruel destino é, depois de derrotas em três eleições presidenciais, a Heloísa Helena vencer o pleito de 2018, se tornar a primeira mulher presidente, todo mundo dizer que a mudança chegou e que a esperança venceu a medo para, logo no primeiro ano, todo mundo ver que era a mesma coisa?

Um Setúbal ou um Moreira Salles virar presidente do Banco Central, os “monetaristas” voltarem a triunfar sobre os “desenvolvimentistas”, os escândalos continuarem em profusão e uma ala de extrema esquerda do PSOL ser expulsa do partido para fundar uma nova legenda “guardiã do socialismo democrático” e propor CPIs e representações aos Conselhos de Ética aos milhões?

E a ação da Polícia e da Força Nacional de Segurança no Rio? Vai durar? Ou depois do Pan, todo mundo volta para casa e o morro volta ao controle dos traficantes? Não era mais fácil trocar ingressos na final do vôlei por uma trégua nos morros? Não morreria menos gente que não tem nada a ver com o tráfico?

E a atuação “republicana” e investigativa da Polícia Federal? Aliás, será que não estão banalizando a palavra “investigação”? Não seria melhor chamar de “grampeação”? Por que não mudamos a Constituição e não tornamos o grampo legal? Um órgão do governo ficaria encarregado de analisar os grampos de todos os brasileiro e por indiciar aqueles que são pegos no pulo. Desde o cidadão que admite que roubou um pãozinho até o mega corrupto usurpador dos cofres públicos. Seria a Grampobrás e, em seu estatuto, ficaria proibido a indicação de qualquer filiado do PMDB, o que diminuiria em 90 por cento as chances de ser loteada politicamente.

Aliás, e o Conselho de Ética? Quando vai ser merecedor do nome? Por que não, conselho de corporativismo? Ou esse nome deveria ser, na verdade, dado aos plenários das duas Casas do Parlamento?

E afinal, por que raios ainda discutimos a ditadura militar, os anos de chumbo? Por que mil demônios nos debatemos sobre quem foi bacana e quem foi feio, bobo, bocó e cara de fuinha naquele período, se aquele período já acabou há mais de 20 anos?

Se o caos nos aeroportos é o preço do sucesso, como disse o ministro da Fazenda, por que o “espetáculo do crescimento” não provocou um boom na venda de jatinhos?

Se o Catolicismo é a única maneira de salvação e a única religião de Cristo, como disse o papa, isso quer dizer que todo mundo que não for católico vai arder no inferno quando passar dessa para a pior (no caso, porque dizem que o inferno não é exatamente um lugar divertido)?

Será que não importa se você é uma pessoa correta, direita, honesta, cumpridora de seus deveres, ajuda o próximo quando pode, será que nada disso vale se você escolheu a religião errada? Quer dizer, se o cara é o santo na Terra e ele não escolheu “a única religião de Cristo”, ele vai arder nas chamas de Lúcifer?

Será que, além de ser honesto, não roubar, não matar, não cobiçar a mulher do próximo e todas essas coisas, o cara ainda tem que adivinhar qual a religião de Deus, qual a religião que Ele quer que sigamos? Se Deus é bom e misericordioso, por que todo mundo diz para as crianças: “se você não for um bom menino, Deus vai castigar”? Qual Deus é o da “verdadeira religião de Cristo”? O que multiplica os peixes para dar uma força para os pescadores, ou o que castiga as crianças que não se comportam direito?

Por que uma criança que morre ao nascer e, portanto não teve tempo de ser batizada, deve padecer o resto da eternidade no limbo? Que culpa ela tem por, ahn, vejamos, morrer ao nascer?

Por fim, será que um raio vai cair na minha cabeça nos próximos instantes, ou o chão vai se abrir sob meus pés ou terei o mesmo destino de Salman Rushdie ou José Saramago e serei condenado pelo que escrevi?

Se isso acontecer, vou fazer como Pedro. Não me sinto à altura de ser condenado à mesma coisa que esses caras muito mais legais, inteligentes e espertos do que eu. Crucifiquem-me de ponta cabeça.



Rompante Machista by Eduardo Simões
28 fevereiro, 2007, 3:17 pm
Filed under: Eduardo Simões, esportes, feminismo, futebol, igualdade, machismo, sexo, sociedade, tênis, vôlei

Por esses dias uma notícia provocou comemorações daqueles (e daquelas, principalmente) que defendem a igualdade entre os sexos. O tradicional torneio de tênis de Wimbledon, talvez o mais tradicional do mundo, decidiu finalmente igualar a premiação da campeã do torneio feminino ao do campeão do masculino.

Está certo que a comemoração foi discreta, ninguém saiu ateando fogo em sutiãs nem nada, mas foi uma notícia que agradou, foi tida como uma conquista daqueles que lutam pela igualdade dos sexos.

Pois eu lhes afirmo que foi uma conquista das mulheres, não uma conquista da igualdade entre homens e mulheres, mas um benefício para as mulheres, um benefício que dá a elas uma vantagem sobre eles.

Isso mesmo. O fato de Wimbledon ter seguido o exemplo já adotado pelos outros torneios de Grand Slam coloca a mulherada do tênis com um benefício que a marmanjada não tem. Nada contra Sharapovas, Kournikovas, Hantuchovas e outras belas das quadras. Nada contra outras menos dotadas nesse quesito como Mauresmos, Davenports e Navratilovas (aliás, é impressionante a proliferação de Ovas nesse esporte, mas isso é outra história).

O problema é que um tenista, para vencer uma única partida de um torneio de Grand Slam, precisa derrotar o oponente em três sets, enquanto as tenistas conquistam a vitória se vencerem dois sets. Isso significa que, em um jogo duro do masculino decidido em cinco sets, pode chegar a quatro horas, às vezes até mais. Enquanto que um duelo de titãs no feminino, na melhor (ou pior) das hipóteses chega na casa das três horas.

Essa é a diferença. É óbvio que assim a regra determina porque –e isto é cientificamente comprovado—homens e mulheres têm diferenças biológicas entre si. Por mais que a tenista francesa Amelie Mauresmo tenha um canhão no seu saque, o canhão dela vira bala de festim se comparado ao poderoso saque de um Andy Roddick, por exemplo; Por isso não faria sentido colocar a mulherada para jogar o mesmo número de sets que os barbados disputam. Por isso que a bola do basquete feminino é mais leve que a do masculino, a cesta menos alta e etc.

O único esporte em que as regras e medidas são idênticas para meninos e meninas é o futebol e, venhamos e convenhamos, a diferença não só técnica como de espetáculo entre o masculino e o feminino é avassaladora. Por isso que eu sou favorável a adaptações no futebol das meninas, como campo menor, bola mais leve, etc.

Voltando ao assunto inicial, não é questão de defender que os atletas masculinos devem receber mais só por terem nascido com um pinto. A questão é simples, fria e calculista. Nos Grand Slams eles têm que vencer mais sets que elas para triunfar. Questão de justiça. No vôlei, por exemplo, sou totalmente favorável à remuneração igualitária. Homens e mulheres disputam partidas em melhor de cinco sets, a premiação deve ser a mesma.

Além do mais a natureza, ou –para os que acreditam em Deus como eu– aquele que a criou, é sábia. Existem esportes em que as garotas dão um pau nos meninos. É muito mais bonito ver uma apresentação da Daiane dos Santos do que uma do Diego Hypólito, por exemplo. No próprio tênis e no vôlei as versões femininas são uma alternativa bastante interessante para quem já está de saco cheio de porrada no saque e voleio e pontos que não duram mais de trinta segundos com cortadas na casa da centena de quilômetros por hora.

Por fim, eu sou favorável à igualdade de sexos, não àquela hipocrisia de “a mulher tem que ganhar o mesmo que um homem que esteja na mesma posição, mas se sairmos para jantar e ele resolver dividir a conta, não é cavalheiro”.

Ou então, “eu sou mulher, mas sou mais macho que muito homem então não me trate como um ser frágil, mas se quiser passar em casa depois para abrir uma lata de ervilha ou trocar uma lâmpada será bem-vindo”.

“Eu sou uma mulher completamente independente, tenho minha vida e quero que você respeite meu espaço, mas prepara-se para ser acordado de madrugada para vir trocar o pneu do meu carro ou ir comigo ao mecânico para ele não tentar me enganar.”

“Nós não nascemos grudados, eu respeito o seu espaço e você o meu, mas se você resolver ir tomar uma cerveja com seus amigos no dia do aniversário da minha tia Alberta está tudo acabado entre nós.”

Bom, é isso, podem descer a lenha agora meninas, peço só para preservarem minha mãezinha querida que, afinal, é mulher como vocês.



Garota eu vou pra Califórnia by Eduardo Simões
24 janeiro, 2007, 3:46 pm
Filed under: celebridades, Eduardo Simões, esportes, futebol, sociedade

Que sonho hein? Em vez de uma aposentadoria convencional em que o cidadão pára de trabalhar e fica em casa vendo os filhos crescerem, uma pré-aposentadoria em que o camarada continua trabalhando com um nível de exigência muito menor, um salário bastante generoso e badalação, badalação e badalação –quem sabe até uma nova carreira no show business após o abandono definitivo da profissão.

Espetacular hein? Quem não gostaria? Só um maluco, ou um workaholic que morre aos 35 anos de infarto fulminante e uma vida recheada de stress.

Por isso não acho que dê para criticar o David Beckham. Afinal, de bola para valer o cara não está mais a fim, não está mais com saco de torcida cobrando resultado, de Fabio Capello pedindo raça e determinação. O que ele quer agora é pegar sua linda esposa e ir para a terra das celebridades e, unindo o útil ao agradável, ele arrumou um time que vai pagar uma bela grana para que ele cobre umas faltas, mostre um pouco de sua habilidade e pronto. Depois, badalação, badalação e badalação.

É só olhar as notícias. Das que eu achei, apenas uma fala de futebol e mesmo essa mostra que o Los Angeles Galaxy não está realmente preocupado em reforçar seu meio-campo com um jogador que passa bem e é um exímio cobrador de falta, mas sim reforçar seu caixa com um sujeito que traz um retorno financeiro fenomenal, retorno cuja ausência até mesmo o Real Madrid, que agora se despede do astro, deve sentir.

É um dizendo que a Spice-Esposa do meia recebeu oferta do rei do pop para comprar seu tenebroso rancho na Terra do Nunca, outro falando que o mais novo mais badalado casal de Hollywood deve ir à festa do coelhão Hefner e até mesmo os que garantem que a apimentada cônjuge de Beckham deve enfrentar ciumeiras das namoradas e esposas de seus colegas de time.

Futebol que é bom nada. Mas também, que bando de caras chatos esses críticos. Deixa o cara curtir a vida. Futebol para quê? Quem se importa com um bando de marmanjo correndo atrás de um negócio redondo?

Legal mesmo é viver entre as celebridades. Logo cedo, café-da-manhã com o amigo Tom Cruise, depois um almoço informal com Will Smith, Spielberg e Britney (que pode até mesmo estar sem a roupa íntima). À tarde, passeio com as crianças e a patroa na Dysneylândia, de noite alguma balada com bastante câmeras e o merecido sono lá pelas cinco da manhã.

 Treino? Como assim treino? Você sabe com quem está falando “professor”? Eu sou o Beckham! Conseguiu ser o principal astro da seleção do meu país sem nunca ter ganho nenhum título pelo English Team e fui contratado por uma das equipes mais badaladas do mundo e nunca ganhei nada de muito importante por lá também, então, “coach”, vai ver se eu estou em Neverland.

Afinal de contas, futebol para quê? Como diz a música: garota eu vou pra Califórnia, vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star.



Glória do desporto nacional by Eduardo Simões
20 dezembro, 2006, 3:09 pm
Filed under: Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro, jornalismo

Há quem queira desmerecer o título mundial conquistado pelo Inter no último fim de semana antes das festas de fim de ano. Há, inclusive, quem queira desmerecer até mesmo o tetracampeonato mundial conquistado pela Itália.

Mas isso é normal, o saudosismo. Aquele sentimento de querer que as coisas parem no tempo porque, àquela altura, tudo parece maravilhoso e tudo que se deseja é que o tempo pare para que aquilo nunca mude.

Só que os movimentos de rotação e translação da Terra seguem em andamento, e os saudosistas, muitos deles com microfones na lapela e letras em colunas de grandes jornais, resistem.

Reclamam do Inter porque ele venceu as estrelas do Barcelona graças a sua aplicação defensiva, o que, ao contrário do que pensam, não significa retranca. Os saudosistas lembram-se com nostalgia de Garrincha, Pelé, Zico e chegam a olhar com menosprezo para Ceará, Fabiano Heller e Iarley. Esquecem-se, no entanto, que o futebol é um esporte coletivo e, como em todo esporte coletivo, aquele que apresentar o melhor conjunto no período da disputa, os famosos 90 minutos, vence.

E foi isso que o Inter fez, enfrentou o Barcelona de igual para igual. Sim, enfrentou sim, assim como o time catalão, o Colorado colocou em campo o que tem de melhor e aliou marcação com força ofensiva nos contra-ataques. Basta p leitor rever a partida e verá que, do meio-campo, lugar de onde saiu o gol do Inter, o Colorado teve pelo menos outras quatro ou cinco jogadas perigosas no contragolpe rechaçadas pela defesa espanhola.

Foi uma vitória importante para a compreensão do esporte. Acabou com aquele clichê de que time bom é aquele que joga, mas também deixa jogar. Não, time bom é aquele que joga e também não deixa o adversário jogar, e foi isso que o Inter conseguiu fazer, não em toda, mas em boa parte da final.

Outra alegação dos que sentem falta dos tempos românticos: o título mundial da Itália é um retrocesso para o futebol. Qual a razão? Apenas porque a Itália sabe usar a seu favor seu melhor trunfo, a qualidade defensiva? Retrocesso para o futebol seria, como em 1978 e 1966, se o campeão mundial tivesse sido beneficiado por jogadas extra-campo.

Há até mesmo os que afirmam que o título mundial de 1994 foi “aquele que ninguém gostaria de ter ganho”. Opa! Deixem-me fora dessa. Eu adorei ver o Brasil campeão em cima da Itália nos pênaltis e levantar o Mundial 24 anos depois. Confesso, devo ser a escória da sociedade porque adorei ver os lançamentos do Dunga para Bebeto e Romário e não me importei muito com o fato daquele time não ser malabarista, mas objetivo e eficiente.

Apesar dos pesares, esse conceito de que futebol bem jogado é futebol eficiente, que marca forte, sem violência (como fez o Inter) e que sabe surpreender os adversários no contragolpe, é o futebol tático, que deixa a arrogância de lado e se arma conforme o adversário, tem crescido na crônica esportiva. Tanto é assim que a reação dos saudosistas, uma tentativa de desqualificar aqueles que têm opinião contrária às suas, já aconteceu.

Ventilou-se pouco depois da Copa do Mundo que o jornalismo esportivo brasileiro vivia uma “Era Dunga” porque os colegas mais jovens questionavam o excesso de atacantes na equipe.

Ora, foi-se o tempo do WM, do 4-2-4. O preparo físico evoluiu muito e isso não devia ser uma coisa ruim. Ou seria ruim os tempos campeões dos 100 metros rasos caírem substancialmente ao longo das décadas?

Concordo que a seleção brasileira não deva temer os adversários, mas isso não significa que jogaremos com apenas um volante, dois laterais subindo todo o tempo e massacraremos os mais fortes adversários com goleadas históricas, que podemos sofrer três ou quatro gols sem problemas porque sempre marcaremos sete ou oito.

Todas as equipes de sucesso jogam com a maioria de seus atletas atrás da linha da bola quando perdem a posse da redonda, por isso que o Inter teve apenas uma oportunidade cara-a-cara com o goleiro catalão. Mérito colorado, a única chance foi desfrutada.

Não me entendam mal, não estou cuspindo na história do futebol. Estrelas do passado têm de ser reverenciadas, não questionadas. As mudanças táticas e físicas –até mesmo pequenas alterações na regra—fazem do futebol um esporte quase diferente do que era há algumas décadas.

Penso que não cabe a discussão sobre se Pelé teria espaço no futebol de hoje. Isso não levaria a lugar algum, mas só para constar, penso que genialidade não tem época nem tempo. Isso vale tanto para um gênio do passado quanto para um do presente.