Domínio Público


Nada de novo no front by Daniela Moreira
22 junho, 2007, 5:10 pm
Filed under: Daniela Moreira, jornalismo

Impaciente, ela rói um pãozinho de queijo sem-vergonha – os coffe breaks eram muito melhores na época das privatizações – e dá um gole no café preto, um gosto amargo na boca – sim, é preciso manter o peso, mas com adoçante é ruim de mais… Olha para o relógio e se irrita. Por que marcam a porcaria da coletiva de imprensa às 10h30 se só vai começar às 11h mesmo? Pensa consigo que é a última vez que chega no horário.

Senta na primeira fila – sentar é sempre uma vantagem para quem tem que calçar plataforma para atingir uma altura minimamente respeitável. De lá, poderá, mesmo com seu 1 metro e 57, traçar sua estratégia de ataque. Armada com seu bloco, sua caneta e seus óculos de armação de tartaruga, prepara a artilharia pesada.

Não, ela não vai perdoar nenhum vacilo, nenhuma frase mal amarrada, nenhum número mal explicado. Vai cair matando. “É hoje que aquela invejosa da Paula vai aprender quem entende pra valer dessa parada”. Os porta-vozes, malditos, que se cuidem. Vai espremer até a última gota do seu sangue imprestável.

Vão chegando as coleguinhas. Cumprimenta uma, duas, três, com beijinhos estalados no rosto. “Elas não perdem por esperar…”. Forma-se a mesa. Estão todos lá, os inimigos, lado a lado, prontos para serem abatidos.

De repente a relações públicas se levanta e faz a abertura. Repete, quase palavra por palavra o teor do e-mail convite: empresa tal anuncia o serviço tal com o objetivo de dobrar seus lucros e crescer 100% sua presença na região tal. Blá, blá, blá. Mas eles não perdem por esperar. É só uma questão de tempo.

Quinze minutos de papo-furado do vice-presidente e ela não se contém. Não vai esperar mais nenhum minuto. Vai quebrar tudo. “Fulano, afinal de contas, vocês são contra ou a favor das políticas governamentais para o setor?”. O estagiário sentado na cadeira ao lado não entende nada… Não era um serviço sem importância que estava sendo divulgado ali? De onde surgiu a explosão de fúria da colega ao lado? Pensa que precisa se empenhar mais em compreender o setor, deve estar por fora mesmo.

Surpreendido pelo tom agressivo da pergunta, quase uma ameaça de morte, o executivo balbucia alguma coisa. “Bem, ainda há um longo caminho a percorrer, mas estamos em um caminho interessante, e mais blá, blá blá”. E com um sorriso irônico no lábio, olhar de soslaio pra coleguinhas nas cadeiras ao lado, ela conseguiu sua manchete: “Empresa ataca governo e diz que mudanças são lentas e insuficientes”.

Quase como nos velhos tempos, dos escândalos das privatizações. Quase lá. Seu rosto agora brilha. Para as coleguinhas ao lado, invejosas de sua bravura, que agora também metralham o gorducho de paletó acuado na mesa – cada palavra pode render uma manchete, justificativas, repreensão da matriz, tudo perdido. Brilha para o estagiário, agora ainda mais confuso, sentindo-se menos um foca uma coletiva de imprensa e mais um recruta perdido em uma zona de combate, onde coronéis velhos disputam condecorações por bravura (ou braveza) e exibem suas patentes pomposos, orgulhosos de seus anos de estrada, do seu traquejo, sua malícia para conseguirem tudo que querem.

Mais um dia de emoção no front, mais uma manchete, mais uma notícia. Sim, é só botar os velhacos na parede que eles abrem o bico e soltam a notícia do dia. Cheia de si, ela levanta e segue feliz para a redação. Tarefa cumprida. Acabamos com eles!

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Ravióli com almôndegas by Gerson Freitas Jr.
12 junho, 2007, 2:11 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, liberdade, privacidade

Ravióli com almôndegas. Foi o que comi em frente ao apartamento do presidente da República em um domingo de sol e calor. Literalmente em frente, digo, na rua mesmo, no canteiro central da Avenida Tiradentes, em São Bernardo do Campo, para ser bem preciso.

Sentado, equilibrando a frágil e quente marmitex de alumínio pouco acima dos joelhos e com garfo de plástico na mão, entre carros que iam e viam, fiz a principal refeição do dia em que cobri a estadia de Lula em sua residência.

Foi um almoço de peão, desses que trabalham na construção civil, carregando tijolos e mexendo cimento. Só não foi almoço de bóia-fria por que, a rigor, a bóia estava bem quente, como disse acima.

Queria, mas não palitei o dente porque nos esquecemos de pedir palitos onde compramos a comida. Caso contrário, seria apenas mais uma dessas tolas regras de etiqueta que ali, a cinco metros da porta do prédio do presidente, foram brutalmente violadas ou convenientemente esquecidas.

No final, um pequeno cochilo sobre a grama, com um jornal sobre o rosto apenas para protegê-lo do sol que, ao meio-dia, já castigava a pele.  Não havia muito com que se preocupar. O marasmo do dia apenas era quebrado por um ou outro motorista que, sabendo passar em frente de onde passava, colocava a cabeça para fora e gritava “Lulaaaaaa” ou, com menos educação, “vai tomar no cú, Lulaaaa”.
 
 – Imagino como estava isso aqui pouco antes das eleições de 2002, comento com um colega bem mais experiente e com muito mais dias de profissão dedicados a vigiar a casa do presidente.

 – Ah, era outra coisa. Ele descia sempre, cumprimentava os eleitores, dava entrevista, rendia boas fotos.

Os tempos são outros mesmo. Agora, o presidente fica dentro de casa. Nem uma ida à varanda, nem um aceno ao lado de Dona Marisa, nenhuma consideração com os jornalistas marmiteiros que estava ali queimando no domingo por causa dele.

Poderia, maldosamente, dizer que algumas pessoas passam a vida tentando alcançar a vida pública e depois, conseguindo, reclamam privacidade. Mas tenho de reconhecer que certos direitos são invioláveis. 

– O cara não pode nem levar a mulher dele num motel que tem carro de reportagem atrás. Essa vida pra mim eu não quero.

A triste constatação parte do motorista do carro de reportagem, também muito mais habituado com os longos finais de semana de plantão na Avenida Tiradentes. 

Ele, que levantara às 5h da matina em Barueri, dirigira 100 quilômetros até Ribeirão Pires, mais 25 quilômetros até a casa do presidente da República, que depois dirigiria mais 25 quilômetros de volta para Ribeirão Pires e, por fim, 100 quilômetros derradeiros até sua casa em Barueri, ele que almoçara em pé, no sol quente, com a marmitex em cima do carro, com garfo e copo de plástico, ele que teria de fazer o próprio jantar, abandonado que estava havia dois anos pela mulher e as duas filhas.

– Deus me livre essa vida de presidente.
 
Felizes são os que não se deixam vislumbrar, nem pelo poder, nem tampouco pela sensação de poder, que outrora seria mais do que suficiente para seduzir um jovem jornalista que, destacado para cobrir o presidente da República, agora segura a marmitex de alumínio e o garfo de plástico no canteiro central.

Ravióli com almôndegas, imersos em um gorduroso molho bolognesi. Acho que nunca vou me esquecer deste almoço com o presidente.



Joseph Ratzinger, no Brasil e na mídia by Gerson Freitas Jr.
8 maio, 2007, 6:05 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, religião, sociedade

Algo soa meio fora do lugar na maneira como a mídia cobre a visita de Joseph Alois Ratzinger, o Papa Bento XVI, ao Brasil. Parece haver um processo contido de catequização, uma cristianização do discurso, mesmo quando crítico. 

Na telinha, a repórter anuncia, em tom de virgem vestal, os passos de sua santidade antes da viagem à América do Sul. Outra relata milagres e mistérios em envolvem Frei Galvão, que nesta semana se torna o primeiro santo brasileiro. Tudo ocorre de forma lúdica, mística, envolta em renovada fé católica.

Que não se despreze ser Ratzinger o líder da maior instituição religiosa do mundo, com alguma influência sobre a fé de pelo menos 20% da humanidade. A igreja católica é também a organização mais antiga de que se tem notícia, com quase dois milênios de história e papel determinante na construção dos valores ocidentais – do que ainda lhe resta uma nada desprezível influência política.  Por isso, o papa é notícia. Não se discute. 

Mas com sua habilidade de se apropriar e transformar qualquer coisa em um espetáculo vendível, a mídia despe-se do espírito laico e adentra o átrio religioso. Capitaliza sobre a fé coletiva relega ao segundo plano a posição crítica que deveria motivá-la.

A grande pergunta a ser feita é o que Bento XVI tem a dizer aos brasileiros católicos (e não-católicos, se for a pretensão). Será que a imensa maioria está realmente preocupada em relação à proibição do uso da camisinha e de outros métodos contraceptivos? Será que os casais vão parar de transar antes do casamento? Será que vão parar de se divorciar e casar de novo sem as bênçãos do padre?

Parece muito, mas muito improvável mesmo.

Na verdade, ao homem do século 21, brasileiro incluso, a religião importa muito pouco nas decisões mais elementares, que envolvam aspectos morais e costumes. Em uma sociedade tão hedonista, a crença em Deus tem espaço apenas se não confrontada com o desejo de consumo, a busca pelo prazer e a realização das vontades individuais sobre as coletivas – algo que Ratzinger, bem como a igreja católica, já sacou muito bem. (Daí a pressão generalizada para se mudarem alguns pensamentos da igreja, quando caberia à igreja mudar o comportamento das pessoas – como defende, aliás, Bento XVI.)

O triunfo dos valores iluministas, traduzidos na ascensão da liberdade, da ciência e da razão sobre o obscurantismo totalitário da igreja, talvez a principal conquista da humanidade dos últimos séculos, emancipou o homem da igreja. Ao mesmo tempo, deu liberdade a todo e qualquer cristão para se manter sob o julgo da igreja, com seus ensinamentos e tradições, que não devem ser questionados sob a luz da razão, mas da fé, pessoal e intocável.

E, por isso, soa tão atrasada a postura momentânea e desonestamente católica dos meios de comunicação, concessões públicas na maioria, de transformar dogmas religiosos em objetos de discussão pública, como se estivéssemos todos (Estado incluso) sob tutela de um papa que, à luz da razão, tem posições arcaicas sobre temas tão importantes como o controle de natalidade em países pobres.

A não ser, é claro, que ele tenha coisas mais importantes a dizer em um país tão doente, desigual, violento e corrupto como o Brasil. Os microfones já estão esperando. Com a palavra, Joseph Ratzinger.



A violência é outra – II by Gerson Freitas Jr.
27 março, 2007, 4:46 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, violência

“Ando cansada de espreitar da janela de meu carro para ver se o carro vizinho me aponta a metralhadora ou se é apenas um conhecido me cumprimentando”, Lya Luft, em VEJA.

A violência é hoje a maior preocupação dos brasileiros e o ponto mais fraco do governo Lula, segundo pesquisa divulgada neste final de semana pelo Datafolha. Mais do que a miséria, mais do que o desemprego, mais do que a estagnação econômica, é a violência que desassossega.

Em tese, nada mais justo. Da garantia à segurança parte a concepção da formação do Estado, capaz de garantir a preservação da vida, a liberdade de ir e vir e o direito à inviolabilidade da propriedade e de assegurar para si o monopólio da violência. Se o Estado não consegue cumprir esses preceitos, perde legitimidade como tal. E é aí em que reside a importância dessa pesquisa.

A corrida da violência ao topo das preocupações dos brasileiros serviu de convite para buscar estatísticas sobre o crime no País. E, para minha surpresa, me deparei com relatórios oficiais – que julgo minimamente confiáveis – que apontam não para o aumento, mas para a queda da criminalidade, pelo menos no eixo Rio-São Paulo.

Um exemplo. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a taxa anual de homicídios dolosos caiu de 58,6 por 100 mil habitantes, em 1991, para 42,1, em 2005. Trata-se de uma redução de 28,15% em relação ao que víamos há 15 anos! Conclusão: não estamos vivendo nada que não tenhamos vivido pior há quase duas décadas.

Isso não ameniza o fato de que os índices de violência e, particularmente, os de assassinatos, ainda são extremamente altos, entre os maiores do mundo. A questão não é essa, mas sim a disparidade entre violência e percepção da violência. Os gráficos do crime caem, morosamente, mas caem. Os do medo disparam.

Impossível não achar pelo menos parte da resposta para tamanha contradição no trato sensacionalista que mídia tem dado à cobertura de alguns casos, em especial a do garoto João Hélio, barbaramente morto há pouco mais de um mês. 

Não que assassinatos, balas perdidas, estupros e toda a sorte de mazela desse tipo devam ser omitidos. Nunca. Eles precisam, sim, ser denunciados, tais como a enorme ineficiência do Estado na área de segurança pública. O problema é transformar a violência em um espetáculo grotesco, construído sobre a audiência de uma população amedrontada todos os dias pelo que lê e assiste.

Na jornalismo de marketing, pautado pela expectativa do leitor/consumidor e pelos índices de audiência, não importa que a violência esteja caindo. Mais importância têm dados como os publicados pelo Datafolha neste final de semana, um prenúncio de que mais sangue vai jorrar daqui para frente – pelo menos nos tubos de TV e páginas de jornais. Afinal, o show tem que continuar.



Nossos pequenos grandes feitos by Gerson Freitas Jr.
21 março, 2007, 3:10 pm
Filed under: escrever, Gerson Freitas Jr., jornalismo

Nesses meus teimosos dias dedicados a revirar gavetas do passado distante, das primeiras memórias, comecei a agrupar alguns arquivos em uma pasta a que carinhosamente chamei de “pequenos grandes feitos”.

Lá deixei alguns momentos em que, por uma razão ou por outra, me senti mais forte, mais alto, de peito cheio e ego suspenso. São momentos de glória, únicos, dos que marcam e por vezes transformaram. Com um dos raros dias em que salvei o time de futebol, as sempre impecáveis participações teatrais ou os recitais de natal em que tanto me destacara.

Alguns 10 dos quais não consigo esquecer, seguidos de rasgados elogios da professora e olhares invejosos querendo devorar aquele pequeno ser de óculos que, queria voltar lá e ver, devia exprimir um sorrisinho vaidoso e, por que não dizer, arrogante diante de seus frustrados colegas. Pequenos grandes feitos!

Inevitavelmente, diga-se, surgiram também os “pequenos grandes fracassos”, momentos dos quais e nos quais senti vergonha, quis fazer a terra abrir e me enterrar. E, posso garantir ao caro leitor, foram muito superiores aos de glória, pelo que desisto aqui de enumerá-los. Além do mais, não são eles o assunto de hoje.

Naqueles tenros momentos, ainda não conhecia o significado da palavra relevância e, de carona, seu antônimo. Não, aqueles fatos que tanto me orgulhavam não eram irrelevantes. Tal preocupação viria a surgir nos anos seguintes, quando nos contaminamos do idealismo colegial, quando acreditamos que podemos de alguma forma mudar o mundo, contaminando as pessoas com nossos sonhos e nosso trabalho.  

Aí escalamos montanhas, atravessamos o céu e mar, descobrimos novos planetas, pisamos na Lua e terminamos com a pergunta que resume bem o cinismo dos nossos tempos: e daí, para quê serve isso tudo?

O homem, ser finito, de limitadas possibilidades, se vê cercado por infinidades, no macro e no micro, na ciência e na filosofia, de modo que se vê nadando e atravessando os tempos sem que vá de verdade ao longe. E é isso que torna tão árdua e enfadonha a existência humana sobre a terra. Nos vemos, a despeito de todo o avanço de que tanto nos orgulhamos, cercados pelos mesmos problemas que aprisionaram o homem pelos séculos: guerra, dominação, pobreza, fome, doença. De forma que todos os grandes feitos do homem são tão pequenos quanto os eram aqueles que marcaram nossas infâncias.

A diferença é que não temos mais 10 anos, nós queremos mudar o mundo, nós queremos que as pessoas nos leiam, nos entendam e, de certa forme, reajam. Pretensão inútil! Talvez queiramos ainda mudar a nós mesmos, mas nem mesmo esse grande pequeno feito tenhamos conseguido, e isso resume nosso mar de incompletudes.

Não significa que devamos parar o que começamos, enterrar os sonhos, aposentar as canetas e assistir incólumes ao andar da imensa carruagem que nos guia.

De minha parte, sigo a corrida e canto, resignado, após cada pequeno grande feito: “I still haven’t found What I’m looking for…”



Falta de atualização? A culpa é sua by vinacherobino
20 março, 2007, 6:32 pm
Filed under: internet, jornalismo, saber a hora de parar, sociedade, Vinícius Cherobino

Faz algum tempo apareci com o papinho de que isso nunca tinha me acontecido antes, que estava envergonhado e tralálá. Mas como aconteceu novamente -outra segunda em que Vinícius Cherobino dá as caras, mas não traz textos- acabou-se meu álibi. Portanto, vai a verdade (pare de ler se for chorar): Leitor, a culpa é sua!

Portanto, parei. Quase que pingo uma exclamação, mas ficaria ululante demais. Parei por sua causa, leitor. É isso mesmo. Leitor, minha cara entidade misteriosa que me lê (o ótimo é que eu tenho relatórios que comprovam que ele me lê, a entidade), você não entende porra nenhuma do que eu escrevo. Nunca. É impressionante, leitor, porra nenhuma!

Tento alertar sobre o absurdo, falar da festa que estão fazendo com o sangue de um pobre menininho que já havia se espalhado o suficiente pelas ruas. Mas não! Acharam que a tal revolução que eu propunha era verdadeira, que –no final- a Voz era eu. Não era. A Voz era a Veja, a voz da classe média revoltada e pronta para se indignar, reclamar do governo e esquecer. Ironizei a espera nas portarias, o afã de atender os celulares, falei do nojo de ir para o mesmo lugar de protesto que os proletários. E aí? Aí nada, você – Leitor- nem viu. E toca mais uma leva de políticos po(u)sando do lado dos pobres pais e outra indignação que –notaram?- já passou.

Tá certo que meu texto não é dos mais quadrados, respeitadores aos valores defendidos por tantos e tantos adoradores da micagem que é a sintaxe padrão do Brasil (esses putos nunca se deram o trabalho de estudar como isso foi formado. IDIOTAS capitais). Guardo isso para minhas obrigações profissionais de gravata e café ao lado do teclado. Quando escrevo para cá, leitor, dominiopublicamente falando, é pra colocar o que eu penso. Introduzir as minhas opiniões. Penetrar meus questionamentos. Foder com o acordo. Rir e chorar.

Mas não… Não é só blogar no deserto. É escrever e não entenderem porra nenhuma. Falei da primeira vez em que andei (e caí) de bicicleta. O que leram? A minha primeira experiência naquele veículo que fez tantas infâncias felizes. Porra, não tava falando só disso. Leitor, lê de novo. Tava falando também de pé na bunda, de sexo, de sofrimento, de relacionamento. Porra, escuridão úmida não tá claro o suficiente???

Leitor, caralho, presta atenção. Não caia em tudo do que estão te dizendo, porra. Um ponto de exclamação pode ser, também, um pinto. Pense nisso!

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Literatismo (Os idiotas II) by Daniela Moreira
27 fevereiro, 2007, 4:13 pm
Filed under: Daniela Moreira, internet, jornalismo

Relutei em voltar ao tema. Podem dizer por aí que pintou um bloqueio, que estou me repetindo, o que seria um duríssimo golpe na moral já por demais abalada deste Domínio graças aos seus desmedidos resvalos no “literatismo” – ao leitor desavisado, segue a definição do pai dos burros: “literatura medíocre, de má qualidade; literatice”.

Mas voltemos ao foco – o objetivo deste post não é defender o “literatismo”, a “literatice” nem sequer a “literatura de má qualidade” aqui praticada, pois o Domínio é público, mas as decisões, felizmente, são privadas.

Posto isso, voltemos agora de fato ao objeto que se repete: o idiota. Justifico: repete-se o tema porque se repetem os idiotas, aqui e acolá – embora já tivesse deixado bem claro que, aqui, a idiotice não era bem vinda. Enfim, há sempre um idiota que pode ter passado batido pelo alerta – comportamento muito natural para um idiota.

Em minha defesa e para manter o interesse do leitor, já adianto: repete-se o objeto, mas o viés é outro. Um outro tipo de idiota. A rigor, talvez seja até o mesmo. Mas ressalta-se aqui uma faceta específica do idiota, talvez a que mais me amedronta: o idiota letrado.

Antes que saiam dizendo por aí que estou defendo certas idiotices, idiotice é idiotice e pronto, acabou. Mas se há um tipo de idiota que é realmente indefensável, é o idiota que o é porque quer.

Explico: tem gente que vive muito feliz por aí, ignorante da sua idiotice. Gente que nunca abriu um livro na vida além da cartilha Caminho Suave, gente que teve pouco ou nenhum contato com uma carteira de escola, gente que aprendeu a ver o mundo apenas pelas dicotomias cultivadas para dentro da porta da sua casa. Gente que não lê jornal e que tem à sua disposição tão somente a cosmologia do Domingão do Faustão para decifrar o mundo. Vá lá…

O que realmente me assusta é o idiota da cadeira ao lado. O idiota que divide a mesma mesa do bar em que me sento, que cursou o ensino médio particular e bem pago que freqüentei e que esteve na universidade privada em que me formei (me eximo aqui de entrar no mérito pra lá de questionável da tal universidade neste momento).

Gente que leu (e se não leu foi porque não quis), gente que estudou, gente que teve noções mínimas de história, de filosofia, e quiçá, um pouco de retórica. Gente, que assim como eu e meus três colegas de Domínio (dos quais, para evitar de antemão as intrigas, por mais que discorde, não questionei nunca a inteligência e a sensatez), teve acesso a informação, cultura e educação formal, para dizer o mínimo. Teve de tudo para desenvolver um mínimo de senso crítico e discernimento. Mesmo assim, não se dá ao trabalho de avaliar, ponderar e argumentar – prefere ofender. Não é capaz de extrapolar os preconceitos e tabus herdados dos seus tataravôs.

O que me assusta mesmo é o idiota que chega a este Domínio, internauta, privilegiado digital, certamente letrado, e, quiçá, até jornalista, já que por aqui grande parte o é. Que chega aqui, lê tudo que escrevemos – se comenta, presumimos que lê – e, claramente, não entende lhufas. Esse idiota, não há como negar, teve todas as chances de não sê-lo.

Acho, ademais, um grandessíssimo desperdício. Dos livros na prateleira, dos superfaturados bancos da universidade, e das árvores – tantas árvores – gastas em diplomas de papel… Mais que tudo, um desperdício – tanta gente capaz de pensar sem livros, cadeiras e diplomas. E eles aqui e acolá, formados, premiados, celebrados, respeitados. Os idiotas.

Sob o risco de praticar a mais hedionda “literatice” aqui já registrada e revelar, mais um vez, minha faceta mais radical e, quiçá, até arrogante, ouso assim mesmo parodiar o paradoxo machadiano. Por que idiota, se letrado? Por que letrado, se idiota?