Domínio Público


Passagem gloriosa by Gerson Freitas Jr.
26 janeiro, 2008, 3:34 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., internacional, justiça, liberdade, religião

Por Gerson Freitas Jr.

Os judeus crêem que há cerca de 3.500 anos o povo de Israel cruzou em terra seca o Mar Vermelho. Javé, comovido com o clamor dos hebreus, sob opressão do Egito havia quatro séculos, lhes prometeu seu próprio território, uma lugar onde manava “leite e mel”.

Do compromisso divino assumido com Moisés por meio de uma sarça em chamas à saída do Egito foram-se diversas ameaças e dez pragas. Os egípcios viram gafanhotos devorarem suas plantações, os rios transformados em sangue e seus primogênitos ceifados pelo anjo da morte.

Quando os israelenses já caminhavam pelo deserto rumo à terra prometida, o Faraó enviou seu exército e encurralou os ex-escravos contra as águas do Bahr el-Ahma. Conta a Torá que o mar então abriu-se milagrosamente para que os israelenses passassem. Em seguida, fechou-se sobre os egípcios, que morreram afogados.  

Gosto de pensar que as imagens da faixa de Gaza que correram o mundo nesta semana recontam, ao menos no plano simbólico, essa história: a de que não se pode oprimir ou confinar qualquer povo sob os olhos de Deus e de que toda dominação um dia sucumbe ao milagre da libertação. Pena que justamente Israel ainda não tenha aprendido.

Saiba mais: 350 mil palestinos de Gaza invadem o Egito para comprar suprimentos  

Milhares de palestinos destroem muro e invadem o Egito 

                 

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Votos para 2008 by Gerson Freitas Jr.
5 janeiro, 2008, 5:01 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., justiça, liberdade, sociedade

Por Gerson Freitas Jr

O ano começa com o correio eletrônico cheio de mensagens que desejam basicamente paz, saúde e prosperidade. É a receita trina da felicidade e da completude, além do diagnóstico de uma certa estiagem criativa. Nada contra que me desejem um 2008 com “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”, mas eu particularmente acho pouco.

Sinto como se houvesse uma mediocrização das expectativas, dos sonhos e, por extensão, da própria vida. Nos tornamos mais limitados, insípidos…meio sem graça mesmo.

Parece ser mesmo o sintoma de uma era amaldiçoada pelo comodismo, mais pela incapacidade de enxergar alternativas do que pela satisfação presente. As ideologias sucumbiram ao pragmatismo, e as relações humanas banalizaram-se diante da egoísta busca pela satisfação pessoal. Não há espaço para as utopias e nem utilidade nelas. Vivemos num mundo em que nada sobrevive se não servir a uma finalidade boçal.

Não ampliamos horizontes, pois é mais funcional não pensar.  Não apuramos os sentidos, pois importa que nos habituemos com o trânsito caótico, o ar carregado, o mau cheiro dos rios, a poluição das praias, a propaganda dos outdoors, a música pasteurizada e o lixo da TV.

Perdemos a essência e inflamos o ego, que bate à porta dos templos da auto-ajuda em busca de pseudo-espiritualidade e fundamentalismo para dar sentido à bagunça do cotidiano. Desaprendemos a nos indignar e manifestar indignação, pois esses são tempos em que mais importa se emoldurar.

O que eu desejo para este ano, cada dia? Que degustemos a vida, as pessoas e a natureza, sem pressa nem ambições. Que prefiramos a frugalidade do momento que se vive às preocupações com o futuro.

Que possamos nos encantar com a música de Chico Buarque e a poesia de Vinicius de Moraes, experimentar a visceralidade de Cazuza e a espiritualidade do Sermão da Montanha. Que sonhemos os sonhos de Luther King e sintamos sua sede e fome de justiça. É disso que eu preciso – me embriagar de vida e me inconformar com este mundo.



Nosso atraso by Gerson Freitas Jr.

Por Gerson Freitas Jr. 

É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.

O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.

E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.

Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.

E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.



Se trabalha e estuda pode by Eduardo Simões

Já não é exatamente novidade um grupo de adolescentes de classe média-alta decidir se divertir queimando índios que suspeitem ser mendigos ou espancando empregadas domésticas. O que chocou no caso do espancamento de Sirlei Dias Carvalho Pinto é a leniência do pai de um dos agressores, que disse que as “crianças” que cometeram o crime –em tempo, eles também roubaram a bolsa da moça— não mereciam ficar presas, pois “trabalham e estudam”.

Opa, então espera aí, eu já trabalho há seis anos, então devo estar com um belo saldo para sair distribuindo sopapos pela rua. Quem sabe se meus alvos forem mendigos, travestis e prostitutas meu saldo seja equivalente a 12 anos de trabalho?

Sim, porque a justificativa dos jovens é que “pensaram” se tratar de uma prostituta. Ah, então não tem problema, meus queridos. O que houve foi apenas um mal-entendido. Da próxima vez, antes de começar o espancamento, perguntem se realmente se trata de uma mulher da vida, ok? Podem ir para casa tranqüilos. Ah, essas crianças de hoje em dia.

E, como diria o locutor da propaganda das facas Ginsu, não é só isso! O mesmo pai que defendeu a libertação das “crianças” farristas ao mandar uma mensagem “à sociedade” disse ainda que as marcas do espancamento que ficaram no rosto de Sirlei e que a impediram de exercer sua profissão temporariamente, sem falar do braço engessado, são conseqüência do fato de a vítima ser mulher e, por isso, mais frágil o que faz com que fique “roxa com apenas uma encostada”.

Ah, entendi. Isso certamente é um atenuante da maior relevância. Afinal, quem mandou essa pessoa nascer mulher, não usar roupa de freira –para que não seja confundida com uma prostituta—e ainda por cima ser frágil. Afinal, as “crianças” não têm culpa. Foram apenas algumas “encostadas” e nada mais. Culpa da vítima que, além de mulher, ainda por cima é frágil.

Aliás, devia estar na constituição ou no estatuto da criança e do adolescente. “Crianças entre 19 e 21 anos (!) têm o direito inalienável de surrar/queimar suspeitos de serem prostitutas ou mendigos para sua diversão. Essas crianças têm ainda o direito de ficarem livres de punições, mesmo que causem hematomas às vítimas, desde que fique provado que elas eram frágeis e, portanto, suscetíveis a ferimentos aparentemente graves após sofrerem uma mera encostada”.

Pronto, assim a Justiça seria restabelecida e esse absurdo de “crianças” que “trabalham e estudam” serem presas por crimes que cometeram seria abolido.

Não fosse eu um defensor da máxima de que é melhor ouvir merda do que ser surdo defenderia aqui a prisão desse pai pelas declarações escabrosas e pela flagrante apologia ao desrespeito às leis.

Não vou fazer isso. Afinal, imagino que ele esteja apenas tentando esconder seu retumbante fracasso como pai. Não ensinou ao filhote valores mínimos como o respeito ao próximo, não o ensinou a não ser um covarde, não ensinou a diferença entre certo e o errado, e que as pessoas têm de sofrer as conseqüências de seus atos.

Talvez por isso, por ter sido um pai que não ensinou essas coisas básicas, tente agora correr atrás do tempo perdido, indo a delegacias defender em mensagens enfáticas “à sociedade” o filhote já marmanjo.

Provavelmente, paizão, é tarde demais.



Anistia by Eduardo Simões
20 junho, 2007, 12:08 pm
Filed under: crime, direitos humanos, ditadura, Eduardo Simões, justiça

Sob o risco de ser taxado de reacionário, direitista ou coisa que o valha, volto a tratar aqui de um assunto que foi tema de um dos meus primeiros textos neste Domínio: indenizações a anistiados políticos da época da ditadura militar.

Antes de qualquer coisa, vale esclarecer que não sou contra as indenizações pagas, mas há casos e casos. Também não busco desmentir os livros de história, que apontam o sadismo e as constantes violações aos direitos humanos que marcaram essa época da história brasileira. No entanto, vale lembrar que essas violações ocorreram dos dois lados, tanto por integrantes do regime nos porões da ditadura quanto por militantes que aderiram à luta armada.

Desconfio do argumento de que a causa dos guerrilheiros era nobre e por isso justificava o assassinato de pessoas que, muitas vezes, estavam alheias às disputas políticas da época, não eram nem de esquerda nem de direita. Aliás, desconfio de qualquer causa que justifique o assassinato de quem quer que seja. A ditadura matou inocentes e a guerrilha também o fez.

Toda essa introdução chata e enfadonha porque, na semana passada, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça determinou promoção pós-morte do ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, e pagamento de indenização para sua viúva e filhos no valor total de 300 mil reais. Com a promoção, a viúva de Lamarca, que em 1969 desertou do Exército para se tornar um dos principais nomes na luta armada no país, passará a receber pensão mensal pouco superior a 12 mil reais mensais, equivalente a de um general.

Sobre Lamarca, sabe-se que foi capitão do Exército, que, ao desertar, roubou armas e munição que levou consigo para a luta armada. Está documentado ainda que condenou à execução a coronhadas de fuzil, um tenente da Polícia Militar paulista, que militou nos grupos guerrilheiros VPR, Var-Palmares e MR-8, participou do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher –no qual um segurança do embaixador foi morto—e que é acusado pela morte de um gerente de banco e de um segurança de uma agência bancária.

Por outro lado, ele também era conhecido como exímio atirador, por ter tomado posição decisiva contra a execução de Bucher no cativeiro e por ter sido morto pelo Exército quando descansava debaixo de uma árvore no sertão da Bahia.

Não há notícia de que Carlos Lamarca tenha sido detido pela ditadura, de que tenha sido torturado nos porões do regime. Pouco leva a crer, ainda, que tenha sido um perseguido político, já que suas atividades de oposição à ditadura militar em muito passaram ao largo da atividade política. Tinha motivações políticas, mas nunca foi perseguido por andar com um exemplar de “O Manifesto Comunista” embaixo do braço.

Somente isso já o desqualificaria para uma eventual candidatura à indenização. Não quero mencionar a morte do tenente da PM, ou do segurança do embaixador –um agente da Polícia Federal– ou até mesmo o seqüestro de um diplomata.

Mas existe uma coisa que acho que vale a pena lembrar, para mostrar que os anos da guerra suja da ditadura não foram de esquerdistas santos lutando pela liberdade contra direitistas sujos e sanguinários promovendo o autoritarismo e o fascismo. Os dois lados cometeram atrocidades.

No meu outro texto sobre indenizações eu falei sobre Mario Kozel Filho. Soldado do Exército de 18 anos de idade, morto em um atentado à bomba quando exercia a função de sentinela numa instalação do Exército no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. Com a concessão de indenização à família de Lamarca, o caso de Kozel Filho voltou a ser lembrado pela imprensa. Afinal, ele foi morto em uma ação do grupo guerrilheiro do qual Lamarca supostamente fazia parte antes mesmo de desertar.

Ao contrário de Lamarca, que optou pela luta armada e escolheu um lado da batalha, Kozel Filho cumpria serviço militar obrigatório. Seu pai chegou a dizer que o filho sequer tinha intenções de seguir na vida militar. Era um inocente. Assim como muitos inocentes morreram e foram torturados pela ditadura, ele foi um dos inocentes mortos em nome da causa revolucionária defendida pelas guerrilhas.

 

Ainda assim, como se vê na matéria linkada, sua morte não recebeu a mesma atenção dispensada pelas autoridades à morte de Lamarca.