Domínio Público


Ravióli com almôndegas by Gerson Freitas Jr.
12 junho, 2007, 2:11 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., jornalismo, liberdade, privacidade

Ravióli com almôndegas. Foi o que comi em frente ao apartamento do presidente da República em um domingo de sol e calor. Literalmente em frente, digo, na rua mesmo, no canteiro central da Avenida Tiradentes, em São Bernardo do Campo, para ser bem preciso.

Sentado, equilibrando a frágil e quente marmitex de alumínio pouco acima dos joelhos e com garfo de plástico na mão, entre carros que iam e viam, fiz a principal refeição do dia em que cobri a estadia de Lula em sua residência.

Foi um almoço de peão, desses que trabalham na construção civil, carregando tijolos e mexendo cimento. Só não foi almoço de bóia-fria por que, a rigor, a bóia estava bem quente, como disse acima.

Queria, mas não palitei o dente porque nos esquecemos de pedir palitos onde compramos a comida. Caso contrário, seria apenas mais uma dessas tolas regras de etiqueta que ali, a cinco metros da porta do prédio do presidente, foram brutalmente violadas ou convenientemente esquecidas.

No final, um pequeno cochilo sobre a grama, com um jornal sobre o rosto apenas para protegê-lo do sol que, ao meio-dia, já castigava a pele.  Não havia muito com que se preocupar. O marasmo do dia apenas era quebrado por um ou outro motorista que, sabendo passar em frente de onde passava, colocava a cabeça para fora e gritava “Lulaaaaaa” ou, com menos educação, “vai tomar no cú, Lulaaaa”.
 
 – Imagino como estava isso aqui pouco antes das eleições de 2002, comento com um colega bem mais experiente e com muito mais dias de profissão dedicados a vigiar a casa do presidente.

 – Ah, era outra coisa. Ele descia sempre, cumprimentava os eleitores, dava entrevista, rendia boas fotos.

Os tempos são outros mesmo. Agora, o presidente fica dentro de casa. Nem uma ida à varanda, nem um aceno ao lado de Dona Marisa, nenhuma consideração com os jornalistas marmiteiros que estava ali queimando no domingo por causa dele.

Poderia, maldosamente, dizer que algumas pessoas passam a vida tentando alcançar a vida pública e depois, conseguindo, reclamam privacidade. Mas tenho de reconhecer que certos direitos são invioláveis. 

– O cara não pode nem levar a mulher dele num motel que tem carro de reportagem atrás. Essa vida pra mim eu não quero.

A triste constatação parte do motorista do carro de reportagem, também muito mais habituado com os longos finais de semana de plantão na Avenida Tiradentes. 

Ele, que levantara às 5h da matina em Barueri, dirigira 100 quilômetros até Ribeirão Pires, mais 25 quilômetros até a casa do presidente da República, que depois dirigiria mais 25 quilômetros de volta para Ribeirão Pires e, por fim, 100 quilômetros derradeiros até sua casa em Barueri, ele que almoçara em pé, no sol quente, com a marmitex em cima do carro, com garfo e copo de plástico, ele que teria de fazer o próprio jantar, abandonado que estava havia dois anos pela mulher e as duas filhas.

– Deus me livre essa vida de presidente.
 
Felizes são os que não se deixam vislumbrar, nem pelo poder, nem tampouco pela sensação de poder, que outrora seria mais do que suficiente para seduzir um jovem jornalista que, destacado para cobrir o presidente da República, agora segura a marmitex de alumínio e o garfo de plástico no canteiro central.

Ravióli com almôndegas, imersos em um gorduroso molho bolognesi. Acho que nunca vou me esquecer deste almoço com o presidente.

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Aguarde um instante, sua visita é muito importante para nós by Eduardo Simões

Olá, obrigado por visitar o Domínio Público. Favor digitar seu nome completo na caixa de diálogo que aparecerá no canto superior esquerdo de seu vídeo. Agora, por favor, digite seu CPF na caixa que aparecerá no canto inferior direito de sua tela. Obrigado, agora aguarde uns instantes, em breve nosso post estará com você.

Enquanto aguarda, disponibilizamos o hit das esperas telefônicas para entretê-lo. Sua visita é muito importante para nós.

Chato né? Agora, imagine se depois disso tudo aparecesse uma pessoa e pedisse para você dizer novamente em viva voz tudo o que já foi obrigado a digitar apenas para ler esse humilde post. Aposto que as estatísticas mostrariam que 97,86 por cento das pessoas desistiram antes da terceira linha.

Mas imagine se você precisasse ler este post. Se da leitura dele dependesse sua comunicação com o mundo exterior ou, sei lá, sua conexão para fazer a máquina voltar a funcionar.

Parece loucura, mas é isso que acontece quando você tem problemas com a empresa de telefonia, a assistência técnica do celular, o banco, a concessionária do carro ou qualquer empresa que, por alguma razão que eu juro que ainda não entendi, coloca uma gravação para atender a uma “ligação que é muito importante para nós”.

E não é só isso!!! Passada a esquizofrenia do homem levando uma idéia com a máquina, você cai nas mãos, ou melhor, nos ouvidos, de um ser humano de carne e osso igual a você. O único problema é que ele foi treinado para ser tão ou mais inflexível que o robô com quem você conversara instantes antes. Não é a toa que o telemarketing é um dos setores de maior rotatividade de funcionários. Pudera, nem o mais acomodado dos humanos aceita perder a humanidade e ainda ser xingado, destratado por furiosos clientes que não vêem seus problemas solucionados.

E quando o cara te liga para vender alguma coisa? Começa com aquela história. “Devido ao ótimo relacionamento que o senhor tem com o seu banco.” Peraí, ótimo relacionamento para quem, cara pálida? Eu pago e você recebe? Ou então eu pego o meu dinheiro e coloco para você investir e você, apesar de ganhar dinheiro com isso, ainda me cobra uma taxa de administração?

De fato, é uma ótima relação (para o banco), mas eu juro por Deus e por tudo que há de mais sagrado que eu não preciso de outro cartão de crédito ou de um financiamento para um carro ou um apartamento que eu sequer pretendo comprar. Em que momento da história humana aquela máxima de “se eu quiser eu peço” se perdeu?

Também não tenho interesse em trocar meu plano de ligações de longa distância. Por quê? Ora, porque eu não faço ligações de longa distância!!! Não preciso também de um novo plano de celular ou de um cartão de fidelidade que me dará descontos nas “mais badaladas casas noturnas de Sampa”. Tem cartão para desconto de cerveja em boteco? Esse eu até toparia.

Eu odeio spams, mas vamos fazer um paralelo. Se o cara te manda um email indesejado, você apaga e ponto. Vai perder uns cinco minutos da sua vida e, para muitos, como diria Hans Moleman, “eu não faria nada com eles mesmo”.

Já se o cara te liga para oferecer uma coisa que você não quer e, mais que isso, não precisa ou nem mesmo pode pagar, se você encerrar o assunto em cinco minutos você é o monstro mal-educado e insensível que trata mal as pessoas que estão apenas tentando ganhar suas vidas honestamente. Não importa se o telefonema foi no almoço, no jantar ou na hora que o cara do horário de verão ia finalmente consumar o amor do elo perdido.



A nova nudez by vinacherobino
28 agosto, 2006, 1:59 pm
Filed under: internet, privacidade, sociedade, tecnologia, Vinícius Cherobino

Aí, numa trapalhada que causou bastante barulho na internet, a AOL (recentemente falecida por essas bandas) acabou divulgando resultados de pesquisas de cerca de 650 mil usuários. Mais de 20 milhões de registros. Mas deu merda, descobriram. Era para fins acadêmicos, disse. A desculpa não fez muita diferença, já que o pessoal que defende a privacidade caiu de boca.

Dizendo que a montanha pariu o rato, o agitador português me inquire ríspido: “Ah, mas foram resultados de pesquisas de usuários anônimos”. É, tem razão. Não tem um nome completo com endereço e telefone do lado dos registros de buscas. Mas, peraí, tem esse número aqui do lado. Opa, isso é o número de usuário da Aol? Ah, não. Deixa eu fazer uma pesquisa… Pô, descobri.

Não foi exatamente esse monólogo interior, mas foi isso que um repórter do NYTimes (texto completo pago) fez. Publicaram, com foto, uma velhinha que queria controlar seu cãozinho mijador. Abriram o precedente. Resultado: os geeks se uniram e garimparam um outro tantinho de histórias muito bonitinhas. E, de repente, ficou possível descobrir o tal do nome completo de quem pesquisou.

Há uma boa matéria na Slate sobre isso. Paul Boutin usa uma ferramenta especial para analisar os registros de pesquisas e, bom, se diverte a valer. O rapaz consegue cruzar as referências buscadas e, também, os horários. O resultado é assustador. Além de fundar as bases do que pode se transformar num estudo antropológico sobre o comportamento das pessoas na rede, ainda define alguns tipos de perfis de pesquisa. Em qual você se encaixa?

E por essas é outras que a avenida do Jóquei nunca fica sem carros parados no lado direito. Aliás, como esses americanos não sabem escrever bestiality???