Domínio Público


A equação das bocas by Gerson Freitas Jr.
21 janeiro, 2008, 6:15 pm
Filed under: educação, Gerson Freitas Jr., política, sociedade

Wagner Montes, pré-candidato a prefeito do Rio de Janeiro e líder nas pesquisas de intenção de voto, defendeu na semana passada a restauração dos velhos Cieps, as escolas de tempo integral criadas por Leonel Brizola nos anos 1980. Mas o que Montes conseguiu mesmo, com toda sua crueza de raciocínio, foi explicar em poucas linhas o porquê do desastre educacional brasileiro.

 

* O Estado de S. Paulo, 21/01/2007

Na cabeça do favorito para ocupar a cadeira de prefeito da segunda maior cidade do País, criança (criança pobre, é claro) é resumida à condição de boca mesmo quando o assunto é a sua educação. A discussão sobre a formação do caráter, os meios de estimular habilidades intelectuais e artísticas e o preparo adequado para o mercado de trabalho dá lugar a uma simplória equação de bocas, como se elas precisassem apenas de comida. 

A desgraça é que essa concepção utilitarista permeia o pensamento da maioria dos políticos destas bandas. Em seu discurso, a escola é sempre mostrada como o meio de garantir um assistencialismo qualquer, tempo para que as mães trabalhem ou mesmo uma pretensa proteção das crianças contra os “tentáculos da criminalidade”. Mas, nunca, como o espaço formador por excelência de cidadãos pensantes.

O Brasil vive um período de conveniente e escancarado desprezo coletivo pelo conhecimento, o que fica demonstrado não apenas nos péssimos resultados obtidos nas avaliações internacionais, mas na ascensão de políticos boçais como Montes, que prometem o manjado “livro pra comida, prato pra educação”. Mais um sinal de atraso no país do futuro: ser um país de muitas bocas e poucos cérebros.

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Votos para 2008 by Gerson Freitas Jr.
5 janeiro, 2008, 5:01 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., justiça, liberdade, sociedade

Por Gerson Freitas Jr

O ano começa com o correio eletrônico cheio de mensagens que desejam basicamente paz, saúde e prosperidade. É a receita trina da felicidade e da completude, além do diagnóstico de uma certa estiagem criativa. Nada contra que me desejem um 2008 com “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”, mas eu particularmente acho pouco.

Sinto como se houvesse uma mediocrização das expectativas, dos sonhos e, por extensão, da própria vida. Nos tornamos mais limitados, insípidos…meio sem graça mesmo.

Parece ser mesmo o sintoma de uma era amaldiçoada pelo comodismo, mais pela incapacidade de enxergar alternativas do que pela satisfação presente. As ideologias sucumbiram ao pragmatismo, e as relações humanas banalizaram-se diante da egoísta busca pela satisfação pessoal. Não há espaço para as utopias e nem utilidade nelas. Vivemos num mundo em que nada sobrevive se não servir a uma finalidade boçal.

Não ampliamos horizontes, pois é mais funcional não pensar.  Não apuramos os sentidos, pois importa que nos habituemos com o trânsito caótico, o ar carregado, o mau cheiro dos rios, a poluição das praias, a propaganda dos outdoors, a música pasteurizada e o lixo da TV.

Perdemos a essência e inflamos o ego, que bate à porta dos templos da auto-ajuda em busca de pseudo-espiritualidade e fundamentalismo para dar sentido à bagunça do cotidiano. Desaprendemos a nos indignar e manifestar indignação, pois esses são tempos em que mais importa se emoldurar.

O que eu desejo para este ano, cada dia? Que degustemos a vida, as pessoas e a natureza, sem pressa nem ambições. Que prefiramos a frugalidade do momento que se vive às preocupações com o futuro.

Que possamos nos encantar com a música de Chico Buarque e a poesia de Vinicius de Moraes, experimentar a visceralidade de Cazuza e a espiritualidade do Sermão da Montanha. Que sonhemos os sonhos de Luther King e sintamos sua sede e fome de justiça. É disso que eu preciso – me embriagar de vida e me inconformar com este mundo.



Nosso atraso by Gerson Freitas Jr.

Por Gerson Freitas Jr. 

É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.

O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.

E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.

Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.

E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.



O Capitão e o Mané by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2007, 3:16 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., sociedade, Tropa de Elite, violência

Por Gerson Freitas Jr. 

Saí da sessão de Tropa de Elite tentado a fazer uma contraposição com Cidade de Deus, um dos meus filmes favoritos. Estava contaminado pela binária Crítica que os colocou em lados opostos do espectro que se resume a bandidos e mocinhos. E caí na tentação de pensar que, se como disseram, Cidade de Deus é a glamourização do criminoso (não é), Tropa de Elite talvez seja asfixiado por idéias fascistas e apologia à tortura (talvez).

Chego aqui convencido, no entanto, de que os dois filmes são retratos opostos da mesma violência, preservando a lógica de um sistema corruptor, tanto para os “de cima” quanto para os “de baixo” da lei.

Sim, pois aqui, em geral, as pessoas se dividem entre os que estão sujeitos às penalidades da lei e os que não estão, pouco importando de que lado estejam exatamente.

Os dois filmes andam juntos quando mostram que a violência no Brasil não é unilateral, com um roteiro de partida e chegada e alvo(s) específico(s), mas um mal estrutural, contagioso e democrático.

E que se justifica à medida que todos se sentem, de alguma forma, vitimados e, órfãos de justiça, no direito de buscá-la a seu modo – do policial mal pago que cobra “caixinha” ao jovem da periferia que busca guarita no tráfico, passando pelo cidadão de classe média que, diante de um Estado ineficiente, se sente no direito de sonegar seus impostos.

Tropa e Cidade são – e nisso se igualam – histórias sobre a falência das instituições, da escola que devia educar, do hospital que devia cuidar, da polícia que devia proteger e da lei que devia igualar. E, apenas sob suas ruínas, há espaço para heróis como Capitão Nascimento, tão justiceiro quanto o traficante Mané Galinha – embora com menos coração.



Sobre “Pensamentos Quase Póstumos” by Gerson Freitas Jr.

Por Gerson Freitas Jr. 

O assalto sofrido pelo apresentador global Luciano Huck e a polêmica que sucedeu seu artigo na Folha de S. Paulo, no começo do mês, serviram para evidenciar que a discussão sobre violência no Brasil é, sobretudo, uma discussão elitista, com seu moralismo peculiar.

O desabafo de Huck, enquanto desabafo, é compreensível. Sabem-no todos os que já estiveram sob a mira de uma arma, como este autor. A sensação de impotência e fragilidade assusta, revolta e, por fim, deprime.

Mas, nas páginas do principal jornal do país, sob uma seção intitulada “Tendências/Debates”, não é mais do que um objeto de crítica, sujeito ao julgamento dos que leram ali também uma visão de mundo.

A visão do cidadão que, jura, paga todos os impostos – “uma fortuna” –, que passa o dia “pensando em como deixar as pessoas mais felizes” e fazer este país “mais bacana” – por meio da TV, que “diverte”, e a ONG que preside, “um trabalho sério e eficiente em sua missão” – do homem cujo “prazer passa pelo bem-estar coletivo” (e não tem dúvidas disso), mas que, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebeu balas de chumbo na testa e viu seu rolex, presente da esposa grávida do segundo filho, levado por dois assaltantes em uma moto.

Seria “manchete do Jornal Nacional” e no caderno policial da Folha – “e, quem sabe, teria uma homenagem póstuma no caderno de cultura”. Não veria seu segundo filho. “Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio”.

Huck não apenas escancara a presunção de quem se atribui uma importância muito maior do que realmente tem para o país, como, desconfio, reflete a imagem meritocrática que toda a elite brasileira – inclui-se a classe média – tem de si mesma.

Aquela visão do burguês honesto, moço de bem, que paga corretamente seus impostos, acumula fortuna com seu próprio esforço, milita numa ONG  e, por isso, tem o direito de exigir do Estado proteção contra os marginais que, sobre duas rodas, apontam uma arma em sua direção e lhe sacam o relógio.

Sutilmente (ou escancaradamente), faz-se, sim, uma perniciosa distinção de classe. O relógio roubado causa indignação, mas a chacina, o tráfico, o abuso de poder e as balas perdidas que correm os céus da periferia passam ao largo da comoção público-midiática, como se legitimamente pertencessem ao cenário e à vida das pessoas daquele lugar, onde até se fale em violência, mas NUNCA em segurança.

Huck afirma: “Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade”. Correto, mas pergunto: a segurança de quem?



Uuuuuuuuuu by Eduardo Simões
21 agosto, 2007, 3:29 pm
Filed under: comportamento, Eduardo Simões, golpe de Estado, política, sociedade, vaia

 Por Eduardo Simões

A vaia entrou na moda. Primeiro a polêmica gerada pela vaia para o Lula no Maracanã em plena abertura do Pan, que provocou até um breve e silencioso golpe de Estado.

Depois, teve gente que se cansou e começou a espalhar seu grito, um tanto golpista, de “Fora Lula” em algumas manifestações, acompanhadas de mais vaias.

O barbudo não gostou, é lógico. Disse que ficou triste com as vaias do Pan e, quando foi visitar uma certa terra de Garotinhos e Garotinhas, novos “abucheos”, como dizem os espanhóis. Mas desta vez o amigão e anfitrião Sérgio Cabral saiu em defesa do companheiro.

Sem pestanejar lançou um “seus pequenos burgueses” para a molecada que usava nariz de palhaço e puxou um “uuuuuuu” quase hilariante para cima dos manifestantes. Nunca antes na história desse país um governador lançou uma vaia tão engraçada. Do alto de sua experiência na vida pública, Lula ordenou que o amigo “nunca mais” se zangasse com essa coisa de vaia, afinal os apupos vinham de gente tão nova e “desprovida de consciência política”. Foi bom, não com a inspiração do “vaia de bêbado não vale” do João Gilberto, mas foi uma desqualificação do crítico quase tão boa quanto.

Nunca antes na história desse país vaias ganharam tamanha proporção. Se vocês querem saber, eu acho essa coisa de vaia um avanço na democracia brasileira. Há pouco tempo o descontentamento era demonstrado com ovos em ministros, agressões a governadores que tentavam furar bloqueios no acesso a secretarias e tortas na cara de dirigentes partidários em eventos públicos.

Por isso, eu concordo com o poeta concreto Augusto de Campos: Viva Vaia



Política e literaturas by Gerson Freitas Jr.
7 agosto, 2007, 3:55 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., política, sociedade

Por Gerson Freitas Jr.

Alcântara Machado dizia que, no Brasil, qualquer palavreado vira literatura. Basta rimar, soar bonito, pomposo. É literatura, e da melhor. Talvez fosse um sintoma do nosso provincianismo ou mesmo efeito do sentimento de grandeza de um país que, ainda na primeira metade do século XX, olhava-se na condição de país de futuro.

Do campo das letras para o da política, muitas décadas e desilusões depois, o Brasil segue transformando literatismos em poesia. Basta ver, por simplório exemplo, o resultado da pesquisa Datafolha do último domingo. Diz o instituto que 48% dos brasileiros avaliam o Governo Lula como bom ou ótimo e apenas 15% o vêem como ruim ou péssimo. Temos que 75% da população aprova – em maior ou menor grau – o governo Lula.

Melhor avaliação sobre o porquê de um resultado tão favorável partiu do próprio presidente. “As coisas no Brasil estão indo, os números da economia estão mais do que satisfatórios”, sentenciou.

E é isso aí… no Brasil, estabilidade  e algum crescimento econômico, regra em qualquer país que se preze, transformaram-se em sinônimo de sucesso político, de boa administração pública. Algo a se comemorar e espalhar, pelos quatro cantos do mundo, que “nunca antes na história desse país” se fez o que agora aqui se faz.

Não importam a falta de políticas consistentes para saúde e educação, relegadas ao abandono, os descalabros sociais, os níveis alarmantes de violência, a precariedade da infra-estrutura, o caos aéreo (e terrestre),  a corrupção generalizada, os altos impostos, a ineficiência do Estado, a falta de projetos para o País. Nada importa, desde que se tenham inflação baixinha e crescimento econômico moderado.

Quem conseguir isso, e apenas isso, terá a aprovação dos brasileiros para que continue escrevendo a história do País. E, não importa o que esteja escrito, será literatura, e da melhor.