Domínio Público


Os números mentem demais by vinacherobino
13 abril, 2007, 2:42 pm
Filed under: comportamento, sociedade, tecnologia, Vinícius Cherobino

Os números mentem demais. Por que as pessoas produzem os números e, bom, não preciso mais do que cinco palavras para dizer que as pessoas nem sempre falam a verdade (merda, foram 12).

Mas, me diga, o que isto tem relação com o texto que lerás (talvez)? Pouca, por que vou falar de e-mail. De e-mail? De e-mail sim. Mas não vai esperando encontrar coisas revolucionárias, não tenho paciência para falar de ferramenta de produtividade ímpar e coisa e tal. Vou falar das mudanças surdas trazidas pela ferramenta, sorrateiras e sedutoras, e que pouca gente percebeu.

E o que tem demais? As senhoras e os senhores já pensaram na vulnerabilidade que é não poder clamar pelo túnel? Ou pelo elevador? Ou para uma cidade na qual o sinal não pega direito? Ou, meu Deus do céu, não ser capaz de dizer que ‘a bateria acabou’?

É isso que representa o e-mail. Enviou, entregou. Isso se chama inevitabilidade. Tentaram desenvolver outras técnicas de picaretagem, mas nem de longe têm o mesmo efeito. “Ainda não li” é muito mais agressivo do que dizer, por exemplo, “amor, estou entrando no túnel”. E “não recebi” é uma declaração com um cheiro enorme de mentira deslavada. Talvez em 1999, hoje não dá mais não.

O e-mail conseguiu fazer a piada do Manuel com celular acontecer com todo mundo. (O pá, Maria, como tu descobriste que estou acá num Motel???). Você pode tentar mentir, mas isso vai ficar muito na cara. E se você pensar na revolução da conectividade móvel (internet sem fio e até pela rede elétrica), a margem de manobra vai se reduzir assustadoramente.

Antes, a ferramenta de confirmação de leitura fazia isso de maneira acintosa. Agora, descontinuada (pelo menos na solução que tenho aqui), ela foi substituída pela confirmação de compromisso. Aceite e responda, recuse e morra. É maravilhoso como ficou com uma aparência bem mais democrática, mas o fundo é o mesmo: vc onde eu empresa quiser.

Tem outra: é rápido. E mais outra: pouco custo. E mais um outra: o padrão é aberto. Isso significa o seguinte: é fácil de usar, de enviar e de armazenar. Por outra: o que escreves agora, poderá ser lido por todo o sempre. Mesmo se a Microsoft fechar as portas.

E como termino este texto sem cabeça, mas que não vai ficar sem pé? Dizendo o seguinte: muito cuidado com o que escreves e atenção para as desculpas quando resolveres não escrever. Talvez o e-mail seja a ponta de lança da revolução da transparência radical e verdade absoluta. Talvez seja apenas outra forma de controle e vício. Boa dúvida.

Anúncios


Por um mundo menos binário by Daniela Moreira
8 fevereiro, 2007, 3:21 pm
Filed under: Daniela Moreira, tecnologia

Um belo dia inventaram a máquina do tempo. Eu embarquei receosa, com medo de tanta modernidade. Comecei a ver os rostos. A principio um, daquele que me convidou a entrar. Depois outro e mais outro. E mais outro. Aquela menina da escola, aquela colega da rua, aquele primo – quanto tempo!

No princípio, alegria. Tanta gente! Todo mundo! E eu aqui, recuperando em um clique tantos que se foram, há tanto tempo, que no meio da rotina, do dia a dia, do farol, do transito, do trabalho e da escola, nem existem mais. Um recado, uma promessa: este ano a gente se vê. Mas fica tudo na tela, é tudo bit.

Vejo as caras, uma a uma, lado a lado e já não sorrio, como no começo. Tenho saudades. Não aquelas saudades alegres, sorridentes. Saudades tristes, do que já não é e nunca mais será. Do que só existe na tela. Queria não ser tão triste e lembrar sem tantas saudades – afinal, naquele tempo eu também era triste, eu lembro muito bem. Por que as saudades então? Por que esse aperto, essa coisa? Afinal, é só zero e um, zero e um, zero e um.

Fulano deixou um recado. De longe. De bits. Queria um abraço, Fulano. Queria te ver de perto, embora a foto do seu perfil não esteja das piores. Mas que saudades daquela tarde na praia, daquele violão, daquele livro, daquele filme que a gente viu… Que saudades daquele dia que você chorou no meu ombro e eu te disse que tudo ia ficar bem. Ficou. Olha eu aqui, você aí. E tantos bits.

Dizem que alguns se reencontram, na máquina do tempo. Eu me perco. Me perco em saudades e nostalgia, em fotos, perfis e recados. De tanta tristeza, jurei que não punha mais os pés lá dentro. Mas é mentira. Às vezes embarco, clandestina. Um clique, dois cliques. E lá vêm elas. As saudades sem remédio de tudo que já foi.

Não. Melhor sair, fechar as janelas. Quem é triste não pode vagar por aí desse jeito, à toa. Corre o risco de se perder. Não, fecha as janelas. Fecha as janelas e vai colecionar novos rostos de carne, de osso. O resto é só saudades. E bits.



Educação para quê? by Gerson Freitas Jr.
24 novembro, 2006, 2:02 pm
Filed under: economia, Gerson Freitas Jr., sociedade, tecnologia

Tinha no máximo oito ou nove anos (15 ou 16 atrás) quando comecei a ter as primeiras lições de datilografia. Da esquerda para a direita: “a s d f g”. Da direita para a esquerda: “ç l k j h”. Repetidas vezes, sem “nunca olhar para as teclas”, ensinava meu pai, esperançoso de que a técnica me garantisse um bom emprego no futuro. Afinal, a oitava série e a velocidade dos dedos foram suficientes para começar uma razoavelmente bem-sucedida carreira de 25 anos em um banco.

Seria desnecessário dizer que o mundo do trabalho mudou uma enormidade nesse pequeno espaço de tempo. Transformação que passa por duas palavras: tecnologia e educação. Primeiro, os computadores se popularizaram, e as simpáticas máquinas de escrever viraram peças de museu. Segundo, o ensino fundamental completo não serve mais de nada. Meu pai estava tão bem intencionado quanto errado.

O Brasil registrou um salto importante na educação nos últimos 20 anos. Apesar da péssima qualidade das escolas, alcançamos a chamada universalização. Ou seja, praticamente todas as crianças são matriculadas e uma parte significativa completa pelo menos o primeiro grau. Essa expansão foi apoiada na proposta do Banco Mundial para os países em desenvolvimento, no campo das idéias inspirada na famosa teoria do capital humano.

De acordo com esse preceito, a educação é, antes de qualquer coisa, um investimento econômico. Quanto mais educado ou qualificado, mais produtivo é o trabalhador (na essência, um capitalista, detentor de um bem de produção “intelectual”). Com “colaboradores” mais qualificados, as empresas tornam-se mais eficientes e aptas a crescer. O empregado, que negocia seu “know-how” com a empresa, passa a ganhar mais. A economia cresce e a renda é distribuída à medida que as pessoas passam a estudar e aumentar seu estoque de capital humano.

Acontece que, do outro lado, do ponto de vista da tecnologia, nossos amigos computadores não eliminaram apenas as máquinas de escrever. O fizeram com ainda mais eficácia com os empregos na indústria, nos bancos e até nas centrais de atendimento ao cliente.

O resultado foi que a nossa revolução educacional anômala aumentou a oferta de mão-de-obra (suficientemente qualificada apenas para apertar os botões da máquina que, afinal, é quem faz tudo) para um mercado de trabalho em encolhimento. Resultado: menores rendas (lei da oferta e demanda) por um estoque maior de “capital humano”, para alegria dos empresários. Sim, Marx sabia do que estava falando quando criou o conceito de mais-valia.

Não à toa, as empresas se dão ao luxo de exigir ensino superior, inglês, bons relacionamento e comunicação, espírito de equipe e outras mentiras para empregador dormir até das simpáticas mocinhas que ajudam os velhinhos a mexer em caixas eletrônicos.

De quebra, essa ligação entre escola e trabalho transfere para trabalhador a culpa do desemprego, à medida que o coitado raramente está suficientemente qualificado para garantir uma vaga minimamente decente.  Ninguém mais questiona se há ou não espaço para todos no capitalismo moderno (não, não há). A questão é o nível de “empregabilidade” das pessoas, resultado do esforço pessoal de cada um.

Nada contra expandir a educação. Longe disso! Mas é preciso reformá-la no sentido de formar cidadãos melhores, e não apenas trabalhadores desempregados. Porque, desculpe desapontá-lo, caro leitor, a educação não vai, necessariamente, garantir-lhe um emprego e, tampouco, um bom salário. Se esses ainda são seus objetivos, talvez seja bom ouvir o conselho centenário do magnata americano Paul Getty. “Minha receita para enriquecer? Acorde cedo, trabalhe muito, ache petróleo”.



Desconectados by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2006, 1:52 pm
Filed under: escrever, Gerson Freitas Jr., internet, tecnologia

São pouco mais de cinco horas da tarde na redação, onde jornalistas têm olhos grudados em seus terminais. Faz-se um quase silêncio, que não o é apenas pelo ruído dos teclados, frenéticos, e vozes que sussurram indecifráveis nos telefones. Elas tratam das informações que surgem na tela na velocidade insana do mercado financeiro: dinheiro, ações, derivativos, balanços, contratos futuros, números que sobem e descem nas bolsas de valores, de commodities, Nova York, Londres, Chicago, São Paulo, um olho na China, que ainda acorda, e outro na TV, no centro do mundo. Bush fala. A notícia não pára.

De repente, a reclamação ecoa. O sistema caiu! Não há internet, não tem e-mail, os números que pipocam na tela a todo instante dão lugar a mensagens de erro. Fecham-se as portas para o mundo. A linha de produção é interrompida e a imensa engrenagem informacional entra em colapso.

Como que um personagem de Saramago que não mais vê o mundo diante de uma súbita cortina branca como o leite, começo a pensar o que seria do mundo se, por um dia que fosse, as redes de computadores em todo o planeta, nas casas e escolas, empresas, bolsas de valores, bancos, lojas e governos, da Casa Branca à prefeitura de Ribeirão Pires, de repente parassem de funcionar. Nada de internet, nada de mensagens eletrônicas ou informações em tempo real.

Numa primeira reação, as pessoas sacam do bolso seus celulares a fim de dar notícias a clientes, parceiros, amigos, chefes, empregados, familiares e percebem que também não há mais telefone, pois, na era digital, as centrais telefônicas também dependem dos computadores.

Uma hora, duas horas, três, quatro…a espera é persistente. O sistema tem de voltar. Ele sempre volta. E o trabalho precisa ser feito. Ele sempre tem de ser terminado. Mais um tempo e a esperança dá lugar à constatação de que o melhor é ir pra casa, para a satisfação disfarçada de muitos. O problema é que não dá pra sair. O trânsito é caótico. Semáforos apenas piscam sua luz amarela, desconectados dos sistemas que o regem e, agora, jazem inconscientes. Também o metrô e os trens não circulam, sem comunicação entre as composições e os centros de controle. Também os aviões não decolam e os que estão no ar tentam arriscados pousos de emergência.

Não se sabe se é um problema localizado, deste bairro, de São Paulo, ou se é o mundo todo que, antes acessível a um toque, tenta agora em vão se comunicar com a vizinhança. Nas ruas, a tensão aumenta. A polícia tenta organizar o fluxo de carros e pessoas que, atônitas, andam de um lado para o outro à procura de alguma informação. Lojas não compram e não vendem, desconectadas de seus sistemas de cobrança, e agora tentam evitar saques e outros atos de vandalismo, que começam a acontecer.

De repente, parece que as pessoas não mais sabem onde estão. Não, elas definitivamente NÃO sabem. Já fazia algum tempo em que elas existiam e se moviam apenas na esfera virtual. Viajavam de Nova York a Xangai sem sair do lugar, falavam com pessoas com quem nunca haviam estado, faziam amigos, compravam, vendiam em lojas que não existem, e assaltavam bancos sentadas em suas confortáveis poltronas, conectadas a um espaço abstrato, mas que movimenta o real.  

De repente, um colega sentado a cinco metros da minha mesa, com quem nunca havia trocado mais que um aceno com a cabeça no corredor, interrompe a minha elucubração. “Alguém aí quer jogar War?” Três segundos de hesitação. Desligo minha máquina e aceito o convite. É hora de aprender a se ressocializar. Antes que seja tarde. 
  



Danou-se, a luz acabou by Eduardo Simões
1 novembro, 2006, 7:44 pm
Filed under: Eduardo Simões, internet, tecnologia

Nesta quarta por muito pouco os leitores não começaram o feriado com o pé direito e ficaram livres “daquele rapaz que escreve no meio da semana”. Por muito pouco os colegas de Domínio não conseguem a desculpa perfeita –se é que procuram uma—para extirpar a praga lusitana do pedaço.

Para quem não mora nessa coisa que se supõe ser uma cidade organizada, chamada São Paulo, explico. Choveu um monte na quarta-feira. Ah, preciso explicar de novo né? Quando chove um monte em São Paulo, a cidade deixa de ser o caos e se transforma no caos elevado à enésima potência, sendo que “n” é maior ou igual a cinco mil.

Tem outra, às vezes a luz vai embora também. A chuva leva, sabe como é. Choveu, caiu uns raiozinhos, crianças assustadas correram para debaixo da cama e Pá!!! A luz acabou, ficamos todos às escuras.

Isso foi mais ou menos umas duas, três horas. Tempo suficiente para, além de reclamar (bastante), fiquei pensando: “Como é possível a gente depender de um monte de coisa que pode ir pro espaço só porque água caiu do céu?”

Fiquei um bom tempo pensando em como nossa vida depende da tecnologia e bla, bla, bla. Fui aconselhado então a, para garantir a publicação disso que vocês estão lendo até a meia-noite, começar a escrever o texto num papel para depois colocá-lo no computador e publicá-lo no Domínio.

Confesso, considerei a idéia ridícula e nem a levei a sério. Continuei reclamando, lamentando que os computadores não tenham um compartimento para queimarmos lenha e fazer o bicho funcionar, além de outras bobagens.

Mas depois, na hora que fui sentar para escrever, cheguei a uma irrefutável conclusão. Esse negócio de computador me transformou em um semi-analfabeto. Confesso que sequer sei como essas letras saem da minha tecla para a minha tela. É quase mágico.

Lembro quando estava no ginásio, que hoje é ensino fundamental. Sempre fui uma negação em Matemática e em qualquer coisa que envolvesse números e contas, mesmo que fosse Desenho Geométrico. Sonhava com o dia em que uma calculadora a tira-colo seria algo comum em escolas, principalmente em dias de prova. Estava cansado de tirar nota baixa na porcaria da Matemática por causa do que os professores gostavam de chamar de “falta de atenção”. Ou seja, errava umas contas estúpidas e, assim, todo o exercício, toda a equação, ia para o ralo.

Sem a calculadora, estava condenado a ser um cretino com dificuldades nas quatro operações básicas. Aí surgiu o jornalismo e eu até que estou dando um jeito.

Tudo isso para dizer a razão dada por professores, pai e mãe para me negar uma calculadora, até mesmo nos deveres de casa. Eu só poderia usar a maquininha mágica a partir do momento que conseguisse compreender todas as contas que ela fazia. Para mim nunca colou, mas, apesar do sofrimento, foi uma boa lição.

O ponto é, hoje qualquer imbecil senta na frente de um computador e começa a trabalhar com ele sem sequer entender o que está fazendo. Não é à toa que o mundo virtual é terra fértil de espertalhões e malandrões. A grande maioria dos usuários de computador, entre os quais me incluo, não tem a menor idéia do funcionamento da máquina, muito menos da Internet.

Não por outro motivo a profusão de idiotas tão bem diagnosticada neste Domínio pela Dani Moreira. Mas além de idiotas, a Internet também é um lugar repleto de otários, ou ingênuos, para ser mais politicamente correto, afinal todo mundo acha que está vacinado contra o golpe até o dia que ele vem.

E-mails prometendo promoções, viagens grátis à Costa do Sauípe, encontros tórridos de amor com a Karina Bacchi (se ela aceita ser vista beijando o baixinho da Kaiser, por que razão não vai topar sair comigo?) são alguns dos convites maliciosos para cliques tão maliciosos quanto.

Dizem até que as máquinas já têm vontade própria. Quem nunca passou pela situação do computador travar sem problema aparente quando se está na 89ª página daquela monografia enorme que você precisa entregar amanhã sob pena de enforcamento (parece piada, mas estou sendo obrigado a reescrever o fim deste texto porque isso acabou de acontecer comigo).

Imaginem então se chegar o dia em que as máquinas resolverão decidir não só sobre seus próprios destinos, mas também sobre os nossos. Atualmente o mundo tem uma meia-dúzia de pessoas que conhecem e sabem lidar com as bichinhas; uma grande maioria que as usa, não tem a menor idéia de como elas funcionam e dependem desesperadamente delas; uma outra fatia que usa computadores para espalhar o mal; e uma última parcela que –certamente motivadas por teorias da conspiração como essa—abomina a tecnologia.

Resumindo, será o fim, a anarquia das máquinas, até o dia que alguém vai ter a idéia genial: desligar a chave de força.



Jornalismo e salsicha by vinacherobino

Passo hoje, em média, umas 7 horas por dia na frente do computador. E na internet, claro. Como eu, existem uns tantos mais no Brasil e outros tanto no mundo. Dizer que isso muda tudo não é nenhuma novidade. Mas tem uma área, pela qual tenho um carinho mortal, que está sendo bastante atingida por isso. Sem mais delongas: o jornalismo, coitado, morreu. Quem matou o jornalismo?

A internet.

Atônito, o sagaz leitor português balbucia: “Quando foi isso?”. Está sendo, patrício, está sendo. “Onde?” Por essas bandas, o negócio começou a explodir por volta de 2000 e não parou mais. “Mas como?” Bem, como toda revolução silenciosa, foi aos poucos e silenciosa, claro. O lacrimejante português, quase sem forças, no chão, urra como quem cospe pedras: “Por quê, ó raios de meu Deus, por quê? Por quê?”.

Bom, é difícil determinar o porquê. Começa assim: estão fazendo lá fora, parece legal. Um empreendedor tupiniquim vai e faz; o outro corre atrás e já vem sendo perseguido por mais um. O último que fez biquinho e disse que não, não e não; acaba cedendo. Era preciso estar na internet, era MANDATÓRIO. Como a indústria de mídia aqui não é lá tão grande assim, não demorou muito para que se tornasse um fato comum: todo mundo online. E aí? Aí que a forma consagrada de se ganhar dinheiro com o jornalismo foi ruindo: ninguém está mais querendo pagar anúncio.

Levantando-se, o português faz cara de quem foi sacaneado e diz: “mas tudo isso se migra para a internet, raios! E o cenário final é de equilíbrio”. É, patrício, migrar migra. Mas já prestou atenção nos preços? De uma página para um banner, essa variação cai em dezenas de milhares de reais ou dólares. E diversos grandes jornais do mundo estão tentando entender o que fazer para lucrar com o elefante branco da internet. Resumindo, está pingando muito menos para os donos do Brasil.

E, para a empresa, isso é triste, mas uma ótima desculpa! Já vou salientando que eu acredito que as empresas de mídia de todos os tamanhos cortam os salários e os próprios jornalistas apenas por problemas financeiros, só por isso. Acredito, também, que o acúmulo de horas e pressão aos que ficam é uma triste conseqüência desse cenário hostil. É tudo culpa da falta de dinheiro!

Na outra ponta, os jornalistas não estão se sentido nada bem no meio disso. Como bem disse o Júlio, do Digestivo, está rolando uma briguinha de foice entre os senhores das notícias e os blogueiros. Enquanto isso, nas entranhas do jornalismo de todo dia, taca cozinhar as notícias (pegar os dados na nota e transformar em algo que é diferentemente igual) entre outras práticas tão antigas quanto questionáveis. Como na máxima do boteco, só come a salsicha quem não viu como ela é feita. E assim vai se levando, fingindo que está tudo bem.

Não está. O jornalismo está morto. Tenham algum respeito e saiam desse MSN.



A nova nudez by vinacherobino
28 agosto, 2006, 1:59 pm
Filed under: internet, privacidade, sociedade, tecnologia, Vinícius Cherobino

Aí, numa trapalhada que causou bastante barulho na internet, a AOL (recentemente falecida por essas bandas) acabou divulgando resultados de pesquisas de cerca de 650 mil usuários. Mais de 20 milhões de registros. Mas deu merda, descobriram. Era para fins acadêmicos, disse. A desculpa não fez muita diferença, já que o pessoal que defende a privacidade caiu de boca.

Dizendo que a montanha pariu o rato, o agitador português me inquire ríspido: “Ah, mas foram resultados de pesquisas de usuários anônimos”. É, tem razão. Não tem um nome completo com endereço e telefone do lado dos registros de buscas. Mas, peraí, tem esse número aqui do lado. Opa, isso é o número de usuário da Aol? Ah, não. Deixa eu fazer uma pesquisa… Pô, descobri.

Não foi exatamente esse monólogo interior, mas foi isso que um repórter do NYTimes (texto completo pago) fez. Publicaram, com foto, uma velhinha que queria controlar seu cãozinho mijador. Abriram o precedente. Resultado: os geeks se uniram e garimparam um outro tantinho de histórias muito bonitinhas. E, de repente, ficou possível descobrir o tal do nome completo de quem pesquisou.

Há uma boa matéria na Slate sobre isso. Paul Boutin usa uma ferramenta especial para analisar os registros de pesquisas e, bom, se diverte a valer. O rapaz consegue cruzar as referências buscadas e, também, os horários. O resultado é assustador. Além de fundar as bases do que pode se transformar num estudo antropológico sobre o comportamento das pessoas na rede, ainda define alguns tipos de perfis de pesquisa. Em qual você se encaixa?

E por essas é outras que a avenida do Jóquei nunca fica sem carros parados no lado direito. Aliás, como esses americanos não sabem escrever bestiality???