Domínio Público


Pássaro de vidro by vinacherobino
16 agosto, 2007, 12:27 pm
Filed under: ambição, comportamento, ecologia, escrever, mundo corporativo, Vinícius Cherobino

Ficamos presos aqui. Quatro grandes paredes vidradas do edifício de escritórios, localizado no centro comercial da ‘São Paulo Para Frente’ – a Vila Olímpia. Com suas ruas estreitas e carros grandes, seus pedestres gordos e calçadas reduzidas (algumas tem a lateral tão estreita que não cabem três de meu pé – calço 41 – frente a frente), o progresso nasceu à força na especulação imobiliária e na criação de um bairro chique.

Mas, por vezes, a natureza nos invade. Outro dia, entrou por aqui – não se sabe por onde – um pequeno animal voador. Uns disseram morcego, outros pardalzinho. Não sei, não vi o animal, só a reação. Comoção imensa e, extasiados, os funcionários voltaram a digitar no teclado em um ritmo frenético de yada, yada, yada.

Hoje, não conseguiu entrar. Um pássaro grande, marrom acho, bate as asas contra a janela, joga o peito estufado, quer passar o vidro refletor. Tanta gente querendo fugir…

E ele ficou lá na sua batalha individual uns tantos minutos. Alguém disse: ‘Tadinho’. Todas atenções matinais se voltaram. Yada, yada, pararam. Outra perguntou: “É beija-flor?”. Não.

Todos viraram, olhos no monitor, yada, yada, yada. Ninguém teve a dignidade de dizer foda-se.

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Senhores, nasceu o cu para a playboy. by vinacherobino
14 agosto, 2007, 7:15 pm
Filed under: Vinícius Cherobino

E ‘pousou’ a bandeirinha… Ana Paula Oliveira, das belas cochas, dos xingos inomináveis na beirada do gramado, da torcida do botafogo, do ‘gostosa’ em uníssono. Apesar da expectativa, o acordo não permitia nada de uniformes e bandeiras, tocaram a pintar a mulher numa diva que tirou toda a graça que ela tem. Ah, Marina, Morena, você se pintou…

Mas, enfim, uma coisa sobreviveu. Pequena, mas de alta relevância.

Caiu um tabu na playboy. Como todo grande tabu – tabu mesmo, de verdade, que meninas de família não ousam comentar nada, mesmo em mesa de bar. As meninas de família de hoje vão para mesa de bar.

Não falo aqui de uma depilação fake ou de uma argola suspeita no clítoris, que muito bem poderia ter sido colocada com o famoso photoshop. Não falo disso. Falo de algo mais.

Mas, claro, não está lá escancarado. Não. E nem poderia ou deveria ser. O primeiro cu precisou de um cuidado, de uma gentileza, de um carinho, de um convencimento. Tal qual na vida real. Toda grande mulher é um convencimento, um mistério. Duran foi lá. “Segura a bochecha”. Clicou. E surge ele lá, escondido, disfarçado, insinuado, mas, meu, lá. Visível.

Senhores, nasceu o cu para a playboy.



Empilhando parágrafos by vinacherobino
8 julho, 2007, 3:45 pm
Filed under: Vinícius Cherobino

A cena costuma se repetir. Todo mundo parado, esperando a refeição, abstraindo a mente enquanto a televisão repete a onda de filmes, anúncios, filmes/anúncios. Alguns optam, embalados no seio familiar, a infernizar os outros. Eu prefiro tentar a famosa e difícil técnica de viagens astrais. Não que eu acredite – não acredito – mas já vi gente graúda (graúda para o meu tamanho, digo) fazer isso na minha frente e – no meio da reunião de negócios – falar a coisa mais escalafobética possível. Impunemente. Daí, concluí, não só é possível fazer as viagens astrais como isso gera em todas as outras pessoas uma admiração das mais cavas.

Nada mais de reunião de negócios, estou na minha casa. Meu micro, combalido e velhinho, recebe os toques que vão garantir a minha nota final em outro semestre uspiniano de greve. Ou assim espero. Greve, aliás, justa por algumas das demandas, injusta pelo pessoal que se apoderou e usa o esquema para trazer o comunismo ao País. Chega a ser assustador as tentativas de gente conversar com esse pessoal.

Não consigo mais falar da greve por que o vizinho aqui do lado está brigando com a sua filha. Engraçado. Eu poderia dizer: a filha é insuportável, gritona, cansa só de ouvir e o pai está dando um corretivo nela. Poderia ir: a filha, pobre, fica gritando que não agüenta mais apanhar e o pai abaixa a voz depois do espancamento. Sei não, sei não, acho que fui cair na vila na Aldeia Campestre. Rapaz….

Bom, viagens astrais. Era esse o tópico. Quando menino, acordava fora do meu corpo e me via lá embaixo… Ficava com muito medo, ouvia diversas vozes, berros e sussurros, tudo junto, caótico. Não sabia se o que ouvia era pedido de ajuda ou ameaça de morte. Ficava com medo. Não conseguia dormir.

Mentira, isso nunca aconteceu.



O meu tipo de zoológico by vinacherobino

Todos são explorados. Seria triste se houvesse alguma resistência. Não há resistentes. Eles podem sair duas vezes por dia, no máximo. Quando saem para comer e quando saem para voltar para a jaula, talvez tomem um sol, depende muito do dia, talvez comuniquem-se no idioma dos animais. De qualquer jeito, o tempo não é muito e eles não têm lá uma cara de quem está morrendo de prazer. Mas – tampouco – não parecem que caminham para a morte.

No resto do dia passam em observação pública. Restritos a uns poucos metros de espaço – um cubículo de metro e meio por uns setenta centímetros – mal andam, ficam a maior parte do tempo sentados, a cabecear, olhando para frente. O máximo de exercício possível está em mexer os dedos, ora lentamente, ora avidamente. Nas patas traseiras, umas sobem por cima da outra em uma atitude que um escritor barato chamaria de emulação do sentimento latente de fuga. Fuga que, diga-se, nunca se realiza.

Ficam em grupos, pelo menos, entre os deles. Mas como em todos os grupos de animais, há a criação de grupos menores e as suas subdivisões. Naturalmente, rivais das outras e com conflitos que – mal nascidos – já contam com histórias de séculos. Histórias mais baseadas em silêncios do que em ação, há pouco espaço até para ação nesse lugar. Mas, o escritor barato assopraria, nada mais do que uma ferramenta para manter a vida minimamente interessante. A esperança de cravar as presas no inimigo sempre é interessante, por mais que estes dentes arredondados não saiam da papinha cotidiana.

A pouca alegria reside no final do dia. Ah, a volta para a jaula. Educados, organizados, diria o barato escritor, uma boa e bela manada. Nenhum desastre na mão, só aqueles que foram concatenados durante o dia, que serão debatidos nos grunhidos do idioma animal na jaula, para entrarem nas histórias de séculos do dia seguinte. Mas, isso não importa, eles já passaram, já se encaminham para a jaula. Roteiro sagrado.

Não, escritor barato, agora não. Me larga. Está na minha hora, eu preciso ir para a minha aula. Não vejo a hora de ir hoje, vai demorar um pouco mais para eu voltar.



Em defesa da liberdade e contra remédios sexuais by vinacherobino
18 maio, 2007, 8:19 pm
Filed under: Vinícius Cherobino

Final do dia de sexta, uma página intermitente branca e a falta danada de vontade. Mas – mesmo assim – escrevo novamente. Escrevo principalmente por que estamos sendo vítimas de ataques covardes que nos recomendam a compra remédios para melhora da disposição sexual.

Para não sermos elípticos, algum spammer maldito está enchendo antigos post com ofertas desse tipo de remédio que papa nenhum aprovaria. Ou aprovaria para casais casados sem filhos? Enfim, o fato concreto é que estamos testemunhando um movimento direcionado e claro contra a liberdade de imprensa desse domínio que, à força, ficou mais público.

Além do crime de matar nossos textos, recuperados com muito custo graças à ajuda do Google, esse criminoso está com um objetivo claro: eliminar o mais eminente pensador desse espaço. Óbvio, todos nós 4 fomos atingidos. Contudo, nem todos sofreram a mesma perseguição.

À frente, uma equipe de idiotas. Idiotas um e idiotas dois. Gerenciando a trupe, vários esquerdistas filhos do Che e futuros síndicos. Está claro, é só conferir os IPs. A verdade está dita e redita.

Tudo por que, no afã de se assemelhar com o seu ídolo da Veja, nosso querido português preferiu ignorar os anos de pagamento de gás por 40% a menos do preço de mercado e defender as pobres fábricas da Petrobrás (!), a propriedade privada, a família e a tradição.

Morte aos idiotas. Aos filhos do Che. Resistiremos bravamente. Não cederemos à pressão.



Regratizando a exceção by vinacherobino
11 maio, 2007, 1:02 pm
Filed under: Análise da Mídia, blogs, Vinícius Cherobino

O discurso é típico de um domingo morto. No programa de auditório, naquele quadro em que se lembra da família e as celebridades todas choram, uma frase bate forte, cheia de emoção. “Qualquer um com um sonho pode chegar lá. Eu sou a prova que é possível chegar lá”.

Quem resiste? As lágrimas nos olhos, as palavras do gorduroso apresentador que falam de um dos melhores atores/cantores/músicos do Brasil, a platéia que mal respira, a sala de família que – finalmente – passa a ouvir o que diz a tevê. Todos juntos vão para frente meu povo, chorando junto com o pobre novo rico que volta: “não deixe de sonhar, gente, vocês podem chegar lá!”.

Então. Isso é mentira. Deslavada. Entenda. Da centena de milhares de atores/cantores/músicos do Brasil, apenas dez vingam. E, para tanto, foi feito de tudo um pouco para ‘chegar lá’. Muito mais do que sonhar, do que ter um pai lutador, do que ser íntegro, do caralho, da buceta. É o modelo. E o modelo não é medido pelo talento, como falam, é medido por uma série de fatores delicados que também podem passar pelo talento, mas envolvem sexo, conhecidos em cargos importantes, empresários influentes, entre um monte de outras coisas. E isso serve para qualquer profissão.

Só que ninguém vai falar isso. Não é interessante que as pessoas entendam este modelo, periga que elas percebam que ficar sentado assistindo tevê para descansar não é tão bacana assim e, pior, periga que eles simplesmente desistam de ir trabalhar bonitinho no dia seguinte e no resto da vida.

Veja, o título do post é espirituoso, mas simples: da exceção é feita a regra. E esse procedimento é uma das coisas mais cruéis da ideologia atual. Fazer alguém acreditar que pode realmente mudar a sua situação – mesmo que seja uma probabilidade estatística ridiculamente mínima (alguém falou da Megasena?) – está sendo mais do que suficiente para controlar a população e manter tudo exatamente como está.

Quer um exemplo? American Idol ou Ídolos. Sem parar de sonhar, centenas ou milhares de pessoas aguardam em fila sob o sol ou chuva e esperam a sua vez de entrar para a ter a “chance” de suas vidas. Depois de serem ridicularizados (muitos) ou elogiados (poucos) pelos juízes, uns três sobrevivem. A tal pirâmide é tão alta que sobra só um, lá em cima. E, veja, é só lembrar do resultado da primeira edição do programa brasileiro: isso não significa lá muita coisa.

Pensem comigo: Qual é a regra? Qual é a exceção? Para cada hit, há centenas de pessoas que dormem no chão e passam fome. E todo mundo só se importa com quem tá no palco. Não é perverso?



A revolução do outsourcing by vinacherobino

De repente, uma estimativa mostrou: parada a China, a produção dos Estados Unidos caia automaticamente em 40%. Por mais que o dado seja difícil de se comprovar, ele está bem próximo da sensação de quem trabalha próximo ao tema: tantas empresas estão indo para a terra da muralha (e para a terra do curry) que o capital não tem mais país. Só dono.

E os donos sacaram que é mais barato produzir na periferia. Toca fábricas na China, software houses na Índia, centros de desenvolvimento no Brasil, help desk na Romênia. Assim, sem nenhuma intenção benéfica (que só viria depois que o marketing sacou a tendência), o capitalismo levou dinheiro a partes que ele não chegava antes. Argumente-se que quem é dono assim continua, de fato, mas agora da nuvem de casas muito pobres em Bangalore (chamaríamos de favela), sobe uma agulha de vidro fumê de tecnologia. E tem gente trabalhando aí, gente que não teria um salário daqueles, mesmo sendo esse salário uma exploração danada nos padrões desenvolvidos.

Temos duas reações imediatas aí: Michael Moore encontra uma miríade de novas empresas para denunciar a saída das Flints da vida e rumando para uma, sei lá, Hortolândia. A segunda é que as montadoras japonesas começam a ter interesse em chegar a Botsuana, por exemplo. Imagina um toiotão rodando pelas ruas de Gaborone, rapaz, nas mãos de um filho de fazendeiro que foi estudar engenharia de sistemas??? É o progresso.

Ainda que alguma parte do que chega dos países desenvolvidos não seja exatamente um presente, coisas como essas e outras estão vindo. Inapelavelmente vão chegar junto com as fábricas, com as cargas de trabalho opressivas, com a construção do fenômeno individual e o consumismo. Está chegando junto a vontade de falar, de ouvir. E, malandro, não há acordo entre empresas de pesquisas e governos ditatoriais que segurem isso por muito tempo.

Não digo que os casos de assassinato de bebês meninas na China deixem de ser acontecer agora, mas as Olimpíadas estão aí. Junto com o pódio em ouro e prata e bronze e os anúncios de bolachas, quem sabe não chega também a responsabilidade social em um fabricante de TI que mantém as suas placas produzidas por chineses acorrentados. Ou relembrando os anos pós-1888… Vamos esperar e ver.