Domínio Público


Nosso atraso by Gerson Freitas Jr.

Por Gerson Freitas Jr. 

É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.

O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.

E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.

Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.

E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.

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O Capitão e o Mané by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2007, 3:16 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., sociedade, Tropa de Elite, violência

Por Gerson Freitas Jr. 

Saí da sessão de Tropa de Elite tentado a fazer uma contraposição com Cidade de Deus, um dos meus filmes favoritos. Estava contaminado pela binária Crítica que os colocou em lados opostos do espectro que se resume a bandidos e mocinhos. E caí na tentação de pensar que, se como disseram, Cidade de Deus é a glamourização do criminoso (não é), Tropa de Elite talvez seja asfixiado por idéias fascistas e apologia à tortura (talvez).

Chego aqui convencido, no entanto, de que os dois filmes são retratos opostos da mesma violência, preservando a lógica de um sistema corruptor, tanto para os “de cima” quanto para os “de baixo” da lei.

Sim, pois aqui, em geral, as pessoas se dividem entre os que estão sujeitos às penalidades da lei e os que não estão, pouco importando de que lado estejam exatamente.

Os dois filmes andam juntos quando mostram que a violência no Brasil não é unilateral, com um roteiro de partida e chegada e alvo(s) específico(s), mas um mal estrutural, contagioso e democrático.

E que se justifica à medida que todos se sentem, de alguma forma, vitimados e, órfãos de justiça, no direito de buscá-la a seu modo – do policial mal pago que cobra “caixinha” ao jovem da periferia que busca guarita no tráfico, passando pelo cidadão de classe média que, diante de um Estado ineficiente, se sente no direito de sonegar seus impostos.

Tropa e Cidade são – e nisso se igualam – histórias sobre a falência das instituições, da escola que devia educar, do hospital que devia cuidar, da polícia que devia proteger e da lei que devia igualar. E, apenas sob suas ruínas, há espaço para heróis como Capitão Nascimento, tão justiceiro quanto o traficante Mané Galinha – embora com menos coração.



O Boom Imobiliário by Eduardo Simões
5 novembro, 2007, 1:26 pm
Filed under: boom, dia-a-dia, economia, Eduardo Simões

Por Eduardo Simões

Nunca um boom em um setor da economia foi tão barulhento quanto a recente explosão na indústria imobiliária. Não só pelo ingresso de incorporadoras e construtoras em bolsas de valores, atraindo centenas de milhões de reais em investimentos. Não só pelas propagandas barulhentas e repetitivas que tomam de assalto rádio e TV ao som de clássicos da Música Popular Brasileira. Não só pelos panfletos distribuídos nas ruas que acabarão colaborando com a próxima enchente entupindo algum bueiro.

Por muito mais que isso, e para se ter certeza disso basta morar o lado de um desses empreendimentos em construção. A coisa começa pouco depois das sete da manhã com a colocação de estacas de fundação do edifício. De repente o cidadão se pega sonhando com um bombardeio na Terceira Guerra Mundial, acorda assustado e percebe que o barulho não é do sonho, é de um pesadelo real.

Bom, vá lá, há que se ter tolerância, afinal quando eles decidiram derrubar o velho casarão para abrir o terreno para o prédio você suportou, por que não suportar agora novamente?

O problema, e aí vem mais uma da série ‘se fosse em Lisboa era piada’, é que por volta de dez, onze da manhã, quando todo mundo já acordou, eles param com o barulho. Não seria mais sensato fazer a parte “não-barulhenta” às sete da matina e a parte barulhenta já perto do meio-dia?

Enfim, o importante é que de noite tudo estará mais calmo. Estará? Não é bem assim. Ora, o que se pode fazer se o caminhão que recolhe entulho não pode entrar na rua durante o dia? Simples, ele entra de madrugada e tira o entulho do terreno e o sono da vizinhança. Som e imagem agradáveis no pé da sua janela às duas da manhã, nada como morar num bairro tranqüilo, onde todos os terrenos já estão tomados, pena que alguém inventou a demolição.

E o pior, o boom imobiliário, com todas as conseqüências, principalmente sonoras, da palavra boom, também tem produzido preços escandalosos e barulhentos. Imaginem só um apartamento de meros 76 metros quadrados e dois dormitórios à bagatela de 330 mil reais. É o boom, meu caro, é o boom. Só que uma hora ele explode, mais cedo ou mais tarde, mas explode.